Sabe que as visitas ao paço de Vila Viçosa são guiadas? Saem de hora a hora, acho eu. De uma das várias vezes que lá fui, o cicerone tropeçou na língua, mas fê-lo com filosofia. Falou das virtudes históricas de certa cadeira; contou-lhe os episódios; e no fim, compungido, olhando tão para baixo que o olhar dele atravessava a cadeira e o chão e a Terra toda, abanou a cabeça e disse: “Não tem valor”. O Oscar Wilde já tinha posto a questão em perspectiva quando fez um dos seus personagens dizer (perdoe a tradução, sei que fala inglês bem melhor do que eu): “O que é um cínico? Um homem que sabe o preço de tudo e o valor de coisa nenhuma”. No Mundo das Ideias do cicerone de Vila Viçosa, preço e valor correspondem-se, eles são uma e a mesma coisa. No bairro Clemente Vicente, honestamente, não sei.


Talvez fique a saber, depois desta empresa já acabada. Ou talvez não.
Inclino-me mais para o talvez não, Isabel…
espero que o Dafundo esteja aberto para uma exposição de “postais”, um dia destes, ainda por cima de um fotógrafo do bairro…
Só por empréstimo, Luís, ando a brincar um bocadinho aos personagens: este fotógrafo é mais do bairro do que eu.;)
Vivi perto de 30 anos no Dafundo, paredes meias com o bairro Clemente Vicente. Frequentei na minha adolescência a praia em frente ao Aquário Vasco da Gama, arriscando a travessia pela linha férrea, tenho uma vaga ideia do Pavilhão Cristal, substituído depois por um pavilhão sem estilo que está hoje abandonado. Todos os traços de uma zona balnear e de lazer da primeira metade do século XX praticamente desapareceram. Lembro-me das cervejarias fecharem às 2 da madrugada, do pavilhão Ribamar local de muitos encontros, das tasquinhas de caracóis do Dafundo e Cruz-Quebrada , de encontrar por ali o Vicente, antigo jogador do Belenenses, com roupa muito usada e sapatos rotos .
Estes textos fazem-me recordar como fui feliz ali, entre Algés e o Dafundo, e como algumas amizades desse tempo e lugar ainda perduram.
Um abraço ao Bandeira.
Fico contente se lhe trago boas recordações, 1berto, que o presente tem ali pouco que se recomende… abraço
Gosto muito desta série de postais. Mas desta fotografia mais ainda. 🙂
Fico contente, Ana, muito obrigado!
Ah, deve ser o mesmo cicerone que me guiou numa dessas visitas a Vila Viçosa. Disse várias pérolas, mas já só me lembro de um “trípico” (sic), “composto de três partes” (sic) que fez questão de nos descrever, também sem preço.
🙂
(espantosa, esta tua fotografia)
Ana, whata misteika to meika!, como diria o italiano do Alô Alô. Escrevi “não tem preço” quando queria escrever o que o senhor de facto disse, que foi “não tem valor”. Não fora este teu comentário e eu jamais teria dado com o erro, fugiu-me a caneta para a correcção semântica… as pérolas conferem, fomos ambos expostos à mesma radiação…:)
Olha, também li sem reparar no teu acto falhado. Estamos a ficar iguais ao cicerone e é bem feito, para não nos rirmos das pérolas dele… 🙂
Que pérolas?
;o)
Temos então na pessoa do nosso amigo 1berto, mais um conterrâneo. Confirma-se a pequenêz deste mundo em que giramos.
Mais um, suponho, para compôr o grupo da sardinhada.
E se o Africano enchesse? Tinha a sua graça.
Não é difícil encher o Africano, Bartolomeu, mas à hora de almoço cabe lá toda a gente. Havemos de combinar isso. A época da sardinha está quase a chegar.
Parabéns e obrigado pela série de pequenas histórias e fotos que aqui tem publicado, vêm do fundo, desse Dafundo, ou de vários outros fundos.
Porque o fundo da sociedade tanto se assenta nuns bancos de café, ou de jardim, como noutros Bancos, de Jardim ou de Pinhal.
Parece-me estóico dar valor ao que nunca exigiu preço, e às vezes esse valor manifesta-se como uma simples oferta de um dominó Majora.
Grato pelas palavras, da Maia. Um abraço
Só o pedreiro caiador me olha na foto.Frontal e um pouco resignado parece-me.
Como o destacou assim na penumbra?Um reflector,um flash de enchimento?Há tantos anos que deixei a fotografia.
-Sabes quanto me pagam?O que é que vale uma vida?
No canto,três,de costas.A luz ressalta no chão,logo as botas do pintor,as calças manchadas,os braços descansados e a face que olha de frente e algo resignada parece-me.
Bela foto.
tiudozio
A vitrina encarregou-se de difundir a luz, Tiudózio. rebentei as altas luzes do lado esquerdo, viu? Um dia conto-lhe como fiz tamanha burrada. Um abraço
Bom Dia Bandeira,
Vivi no Dafundo entre os 5 e os 15 anos fiz a primaria em Alges no Sport Lisboa e Dafundo. Vivia num sexto andar, ultimo piso, no numero 15 da Rua Sacadura Cabral. Tinha por habito, para desespero da minha mae, subir ao telhado do predio para ver passar os barcos no Tejo. Os teus posts sobre o Dafundo fizeram-me viajar no tempo, ir buscar memorias esquecidas, obrigado.
Agora estou longe, a 1500Km em linha recta, a mesma crise que fotografas empurrou-me para fora do meu pais.
Desculpa a falta de acentos e outros caracteres, escrevo este comentario num teclado Britanico.
PS: Este fim de semana falamos de ti, fui a Barcelona passar o fim de semana com a Nucha e os miudos e jantamos em casa com o Joao Bastos.
Abracos,
Pedro
Pedro, fiquei de rastos com isso. Há uns anos quase me cruzei com a Nucha em Barcelona, não imaginava que vos iria acontecer uma dessas. Tem de ser duro!
Se vires o João dá-lhe um abraço, manda saudades à Nucha, os teus miúdos, um dia, conheço-os…
Um grande abraço
Zé
Bom trabalho documental que está a desenvolver. Espero um dia ter o prazer de as ver impresas.
Parabéns!
Muito obrigado, Miguel. Tentarei não desiludir