Antes uma tipografia


Sérgio de Almeida Correia,

Narana Coissoró conhecia Manuel Godinho. Trabalhou para ele. Foi o próprio que o disse. E recomendou-o a pessoas suas conhecidas. Porquê? Godinho, para além de ser seu cliente, prestara-lhe algum serviço que merecesse uma recomendação? Como sucateiro? Por ser simpático? E por que motivo chegou Narana a entregar três ou quatro cartões de visita, como ele esclareceu aos microfones da rádio? Recebia-os para distribuição? Ou eram cartões dele que ele entregava ao sucateiro para este depois distribuir pelos conhecidos? Não percebi a história. Sei que a recomendação é uma coisa muito típica entre nós. Por vezes dão-lhe outros nomes. Alguns feios. E sei que se de algumas vezes abre portas, de outras também as fecha. Mas aqui só estão verdadeiramente em causa cartões de visita. Bem sei que agora até há advogados, agentes imobiliários, canalizadores e outros profissionais que distribuem cartões de visita por cafés e clubes de ténis. E daí? Os tempos mudam. Os códigos também. E a crise chega a todos. Certamente que haverá alguém capaz de explicar, neste caso, a íntima relação entre a recomendação e o cartão de visita. E a forma como ambos contribuíram para a criação de uma "rede tentacular" que levanta suspeitas em empresas públicas e privadas, ex-políticos e autarquias. Se o objectivo fosse apenas distribuir cartões de visita, então bastaria ter aberto uma tipografia. Faziam-se cartões de visita, brochuras, folhetos para explicarem e divulgarem a excelência do serviço. O papel acabado de sair das rotativas é confortável e limpo. Não se perdia tempo. Pode ser que daqui a algum tempo se compreenda por que raio não abriu ele uma tipografia em vez de andar de almoço em almoço, de gabinete em gabinete, numa canseira pegada.

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