A semente totalitária


Pedro Correia,

 

Várias vezes, nos mais diversos locais, somos submetidos a detectores de metais. As câmaras da chamada “videovigilância” estão por todo o lado. Os meios electrónicos que nos facilitam a vida funcionam também como registo permanente do nosso paradeiro — as vias verdes nas auto-estradas, o multibanco que permite escrutinar onde levantamos dinheiro e a que horas e qual a quantia em causa, o telemóvel sofisticado que traz incorporado um GPS que constitui uma espécie de segunda impressão digital nossa: é impossível viver sem ele, é impossível apagar o traço da nossa passagem com ele, seja por onde for.

A sociedade aterradora delineada por George Orwell, em que a tecnologia constitui já não só um instrumento de um sistema totalitário mas o seu próprio fundamento, ultrapassou as páginas da literatura de ficção, incorporando-se no nosso quotidiano. Quando o próprio Procurador-Geral da República admite estar a ser alvo de escutas telefónicas ilegais, todo o cidadão tem não só o direito mas também o dever de exprimir preocupação. Em nome do combate ao terrorismo ou até à delinquência comum, estamos a fazer recuar drasticamente as fronteiras da privacidade. O mesmo é dizer: as fronteiras da liberdade individual, um valor inestimável.

A semente totalitária começa a germinar assim.

21 comentários em “A semente totalitária”

    1. Simples. Deixemos de ser os consumistas que somos, porque falamos de mais e fazemos de menos. Somos uma sociedade de fala-baratos, todos, sem excepcao. E adoramos dar licoes de moral mas apresentar boas propostas simplesmente nao se ve. O que se ve e a critica vaga, impertinente, tenue. Eu acho que a inteligencia nao e medida por descobrir o erro, mas por ajudar a corrigi-lo. Assim sendo, somos uns burros entediados.

      1. Nao ha aqui uma critica directa a ninguem e muito menos a pessoa que escreveu o post. Isto e uma autocritica direccionada a todos nos que continuamos a julgar que a culpa e do sistema quando nos somos o sistema. Esse e o ponto, nao ha aqui dedos apontados a ninguem em especial, mas sim uma brevissima radiografia do que somos como povo.

  1. Troco, de barato, a minha segurança por um gomo de liberdade cerceada.
    Acrescento que até me dá mais “pica”, nalgumas ocasiões, ser observado. Como, por exemplo, ser escabroso com a Miquelina no vão de escada ou na paragem do Metro.
    Ah não, não faço manguitos às Câmaras ocultas algures nem deixo de utilizar o MB ou o cartão de crédito para comprar fantasias sexuais naquela loja daquela esconsa rua; nas portagens da auto-estrada é-me indiferente que alguém saiba aonde vou e se fui dar uma queca ou comprar milho para os pardais.
    Não confundir à vontade com exibicionismo.
    Portanto, nada a declarar declarando tudo.
    Bem vindos ao “novo” mundo electrónico. Habituem-se!

    1. Um entusiasta, pois, do admirável mundo novo (electrónico?). Até ao dia em que alguém mal-intencionado usar contra si a informação que dá com tanto à vontade. Nesse dia aprenderá da maneira mais difícil que a informação (sobre si) é poder (contra si). O problema, contudo, não é a sua ignorância desta simples verdade, é o à vontade” com que nos inclui a todos no “seu” “novo” mundo electrónico.

      1. Caro zedeportugal : glosei o tema em tom suave e pictórico, o inverso do alcance e conteúdo da notícia (séria!) que desconstruí.
        Não sou fan de gadgets ” nem acho muita piada a este “admirável mundo novo”, antes pelo contrário. Todavia, assevero-lhe que de ignorante nem o poro mais pequeno do meu corpo o é.
        Quanto ao resto das suas observações, estou plenamente de acordo com elas!
        Mas, e essa é a realidade hodierna. Ou aprendemos a viver com ela ou somos escravos dela. Tenho dito.

  2. O problema não está (não deveria estar) nas tecnologias, mas no uso (deveria dizer abuso) que se faz delas. Ainda me lembro de uma notícia, relativamente recente e não desmentida, sobre multas da GNR por excesso de velocidade a condutores em auto-estrada, fundamentadas nos tempos de passagem em portagens sequentes. Há um enorme vazio legislativo sobre a reserva de privacidade individual, e os abusos começam exactamente vindos do Estado. Vivi e trabalhei num país onde se começaram a usar câmaras de video vigilância ainda antes dos portugueses começarem a usar a palavra “videovilgilância”. Esse país é, ainda hoje, um dos lugares do mundo onde os poderes públicos mais respeitam a privacidade e a liberdade individual. E, simultaneamente, um dos países com a mais baixa taxa de criminalidade. Porquê? Porque se toma todo o cidadão como pessoa de bem até que a justiça faça prova de que não o é – ao contrário deste luso lugar, onde o Estado considera e trata todos os cidadãos como potenciais criminosos e onde, por isso, os verdaeiros criminosos passam facilmente por cidadãos.

  3. tantos regimes totalitários já existiram, noutras eras, com outras tecnologias, portanto é evidente que o nosso imaginário adivinha que com o desenvolvimento tecnológico actual a implementação desse tipo de regimes é mais fácil, e para além da vigilância, pode possibilitar o condicionamento, mas isso apenas se esses meios estiverem concentrados em mãos totalitárias.
    mas o mais curioso de tudo isto, é que ainda é possível existirem e persistirem sociedades secretas, autorizadas por lei, cujos membros podem manter legalmente o anonimato (ou seja, esconder a sua filiação) mesmo quando ocupam os mais altos cargos públicos.
    é possível, por exemplo, que tenhamos um presidente da república, ou da assembleia da república, ou primeiro-ministro, maçon, sem que aqueles que os elegeram saibam e sem que esses representantes do povo, eleitos pelo povo, tenham interesse em saber que o povo saiba.
    e no entanto vivemos, todos, felizes e contentes com isso.
    há aqui coisas que não batem certo.

    nota: o PGC admitiu que pode estar sujeito a escutas, não que está sujeito a escutas.

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