A semente da tirania


Pedro Correia,

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A corrupção política no Peru, no Governo autoritário do general Manuel Odría, entre 1948 e 1956, é o pano de fundo do terceiro e mais célebre romance de Mario Vargas Llosa, funcionando como exemplar autópsia dos regimes que ao longo do século XX condenaram a América do Sul ao grau extremo da penúria.

O escritor hispano-peruano centra a narrativa num diálogo à mesa do bar A Catedral, em Lima, entre o jornalista Santiago Zavala – ou Zavalita, autor de editoriais que redigia «de nariz tapado» – e o antigo motorista do seu pai, Fermin Zavala, próspero empresário apoiante da ditadura entretanto derrubada. A conversa decorre na década de 60, quando Zavalita e o velho Ambrosio trocam inesperadas confidências sobre aquele decrépito consulado e o confrangedor encarceramento físico e moral a que Odría condenou os peruanos. Anos de perseguições políticas, de censura à imprensa, de impunidade total dos esbirros do tirano – começando pelo seu braço-direito, o repulsivo Cayo Bermúdez, alcunhado de Cayo Mierda, especializado em torturar opositores. Com Ambrosio a conduzir-lhe a viatura oficial enquanto os jovens como Zavalita se viam remetidos a uma espécie de exílio interior.

«Toda a vida a fazer coisas sem acreditar, toda a vida a fingir», desabafa o editorialista ao seu interlocutor, noite adiante, na Catedral. Ou, na síntese de um colega, «bebedeiras sem convicção, coitos sem convicção, jornalismo sem convicção».

Recorrendo à técnica da diluição cronológica, Vargas Llosa povoa esta magnífica obra de múltiplas personagens e narrativas secundárias sem abandonar a denúncia dos governos que suprimem a liberdade e condenam sucessivas gerações a um futuro sem esperança. Sabendo de antemão que a semente da tirania, naqueles anos negros, estava muito longe de permanecer circunscrita ao seu Peru natal e ao subcontinente a que por vezes só por ironia continuamos a chamar Novo Mundo.

9 comentários em “A semente da tirania”

  1. jodidos … e mal pagos
    « DESDE la puerta de La Crónica Santiago mira la avenida Tacna, sin amor: automóviles,
    edificios desiguales y descoloridos, esqueletos de avisos luminosos flotando en la neblina, el
    mediodía gris. ¿En qué momento se había jodido el Perú? Los canillitas merodean entre los
    vehículos detenidos por el semáforo de Wilson voceando los diarios de la tarde y él echa a andar,
    despacio, hacia la Colmena. Las manos en los bolsillos, cabizbajo, va escoltado por transeúntes que
    avanzan, también, hacia la Plaza San Martín. El era como el Perú, Zavalita, se había jodido en algún
    momento. Piensa: ¿en cuál? Frente al Hotel Crillón un perro viene a lamerle los pies: no vayas a
    estar rabioso, fuera de aquí. El Perú jodido, piensa, Carlitos jodido, todos jodidos. Piensa: no hay
    solución. Ve una larga cola en el paradero de los colectivos a Miraflores, cruza la Plaza y ahí está
    Norwin, hola hermano, en una mesa del Bar Zela, siéntate Zavalita, manoseando un chilcano y
    haciéndose lustrar los zapatos, le invitaba un trago. No parece borracho todavía y Santiago se sienta,
    indica al lustrabotas que también le lustre los zapatos a él. Listo jefe, ahoritita jefe, se los dejaría
    como espejos, jefe.

  2. Permita-me registar: porque não há assim tantas referências à autobiografia ‘Como peixe na água’, cuja esplêndido teor confessional melhor se manteve entre toda a coerência romanesca do autor? O ‘boom’ latino-americano foi subversivo, anti-europeu, na sombra dos ideólogos García Marquez e C. Fuentes; este Llosa foi o verdadeiro trânsfuga (antecipado pelos famosos sopapos ..).

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