A política não é um chá em Seteais


Pedro Correia,

 

Como muitos portugueses, fiquei estupefacto com a incrível grosseria de que o Presidente checo Václav Klaus deu mostras, em duas ocasiões, durante a recente visita do homólogo português a Praga. Mas fiquei ainda mais estupefacto com a passividade demonstrada por Cavaco Silva, que escutou impávido a arenga do seu colega checo sem lhe responder com a firmeza e a dignidade que a situação impunha. Se, como já aqui afirmou a Ana Margarida, é uma impensável descortesia desconsiderarmos alguém que convidamos para nossa casa, mais grave ainda é quando esse gesto ocorre no plano das relações entre dois Estados, ainda por cima parceiros na União Europeia.

Se as palavras de Klaus foram ofensivas, o silêncio de Cavaco só contribuiu para as ampliar. O institucionalismo que noutras circunstâncias o Presidente Cavaco Silva tem evidenciado exigiria neste caso uma réplica pronta e sem qualquer ambiguidade em defesa da imagem externa do Estado português, que o checo pretendeu manchar.

Bastar-lhe-ia ter lembrado que Portugal é membro de pleno direito da Comunidade Económica Europeia – actual União Europeia – desde 1986 e foi também graças ao esforço solidário dos contribuintes portugueses que a República Checa beneficiou dos fundos estruturais que lhe têm permitido prosperar desde que ingressou no clube comunitário, em 2004.

Questiono-me como teria reagido Manuel Alegre em semelhantes circunstâncias. Ou até Fernando Nobre. E não tenho dúvida que qualquer deles se comportaria à altura da situação, deixando uma palavra de desagrado perante o destempero de Klaus.

A política não é um chá às seis da tarde em Seteais. Na hora de fazerem um balanço do mandato de Cavaco, os eleitores terão de o avaliar também por isto.

16 comentários em “A política não é um chá em Seteais”

  1. Eu fiquei esclarecido: os grandes homens revelam-se nos momentos críticos. Provavelmente fazem mais disparates por não colocarem mesquinhices ou cobardias à frente da dignidade — pessoal e do país que representam (“Aqui sou mais do que eu / Sou um povo que quer o mar que é teu”).

  2. Eu vi, ouvi e não gostei, mas o tempo tem-me escasseado para textos mais elaborados.
    Já tinha reparado no comentário oportuníssimo da Ana Margarida e agora fiquei ainda mais satisfeito por ver que também o assinalas com a habitual categoria.
    Há silêncios que pesam. E doem muito.

  3. O politicamente correcto é o que dá. Preferia um Hugo Chavez português para responder à letra ao sr. Klaus e repor o sítio onde os portugueses os têm…

  4. Acho, há muito tempo, que Cavaco não é benéfico ao país e que deve ter o maior e mais limpo umbigo de Portugal. Mas vejo vantagens na forma em como (não) reagiu.
    Nestes tempos em que a salubridade da nossa economia está dependente da credibilidade daquilo que fazemos e no que dizemos que vamos fazer. Parece-me que a agressividade passiva de Cavaco teve alguma coisa de positivo.

  5. Vamos por partes.

    Que Vaclav Klaus prima pela grosseria e má educação não devia ser novidade para ninguém.

    Segundo o artigo do Público, as afirmações em causa foram as seguintes:

    “Fico muito surpreendido por Portugal não estar nervoso por ter um défice de oito por cento”

    e, no dia anterior,

    “inimaginável que alguns países europeus possam admitir determinados défices”

    A minha pergunta é a seguinte: o Vaclav Klaus disse alguma mentira?

    Na minha opinião, ele limitou-se a dizer, na cara de Cavaco Silva, o que muitos outros governos europeus dizem em privado, seja em Berlim, Bruxelas ou em Estrasburgo.

    Acrescentaria que é precisamente por se tratar de outro país da UE que Vaclav Klaus, enquanto presidente de outro país da UE, pode (deve?) insurgir-se contra situações inadmissíveis que podem prejudicar não só o país em causa mas todo o conjunto.

    Por outro lado, a República Checa, bem como qualquer dos outros chamados ‘países A8’, não têm que demonstrar qualquer tipo de gratidão eterna à UE pré 2004. Estes já sabiam ao que iam – desde os Alemães aos Portugueses.

    Se tinham alguma objecção ao custos inerentes ao alargamento, tiveram, nessa altura, bastantes oportunidades para evitar que tal se realizasse. Se não o fizeram foi porque entenderam não o fazer.

    Se fomos enxovalhados por Vaclav Klaus? Claro que sim! Mas a culpa não é dele. A culpa é de Portugal por permitir que se coloque nesta situação.

    Quem quer ser respeitado tem que se dar ao respeito.

    E fico-me por aqui que isto já vai longo… e tarde!

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