A História está viva e recomenda-se


Pedro Correia,

    

 

Durante muitos anos – demasiados anos – a História renegou as biografias e a ordenação cronológica. Influenciada por certas modas ideológicas, interessava-se sobretudo por estatísticas de produção, dados demográficos, grandes "estruturas" sociais e a "luta de classes" como "motor" dos acontecimentos. Felizmente, como sucede a todas as modas, também esta se foi esgotando. O papel do indivíduo foi revalorizado, o encadeamento dos factos na sua perspectiva cronológica voltou a ganhar importância e o modo de escrever recuperou um estilo narrativo que parecia condenado ao desuso. Qualquer escaparate de livraria volta hoje a dar relevância à biografia como insubstituível género literário. As memórias, os diários de personalidades célebres e os testemunhos na primeira pessoa do singular recuperaram leitores fiéis.

Vem isto a propósito de alguns dos mais notáveis lançamentos editoriais de 2009 em Portugal que continuam a ter repercussão no ano em curso. Livros como a monumental biografia de Hitler (Dom Quixote), lançada na sua versão abreviada (mas, ainda assim, gigantesca) do historiador britânico Ian Kershaw. Beneficiando da abertura de arquivos e do acesso a fontes documentais inéditas como o diário de Joseph Goebbels, o delfim de Hitler, Kershaw descreve-nos com minúcia a ascensão ao poder do fundador do III Reich, do seu percurso errante de boémio em Viena, quando ganhava o sustento vendendo medíocres aguarelas a clientes judeus, até se tornar dirigente máximo da Alemanha, submetendo sucessivas nações europeias à sua imparável sede de poder e transformando uma das mais requintadas civilizações mundiais num gigantesco cenário de terror.

Outra obra indispensável agora ao dispor dos leitores portugueses é A II Guerra Mundial (Dom Quixote), impressionante descrição – passo a passo, batalha a batalha – dos seis anos mais mortíferos da história da humanidade, redigida pelo britânico Martin Gilbert, que já se distinguira como o melhor biógrafo de Winston Churchill. Destaque ainda para Uma Breve História do Século XX (Livros d’ Hoje), do australiano Geoffrey Blainey, que nos chegou com o rótulo de "best seller internacional" – neste caso bem merecido: aqui se condensam de forma exemplar, em cerca de 500 páginas, os principais acontecimentos do século passado, mencionando factos políticos mas também as ideologias em conflito, as grandes descobertas científicas e todo o cortejo de prodigiosas inovações técnicas.

A História está viva – e recomenda-se. É uma excelente notícia para os leitores do século XXI.

25 comentários em “A História está viva e recomenda-se”

  1. Muito oportuno o post Pedro. Estou a ler Hitler de Ian Kershaw, tem sido uma revelação e já tenho em carteira a “A Segunda Guerra Mundial” . É um tema que me interessa desde a adolescencia. Aliás penso que nunca conseguiremos compreender realmente tudo….

  2. A II Guerra Mundial do Martin Gilbert não é a primeira edição. A D. Quixote já a tinha editado há uns bons anos, mas em dois volumes. Pelo que, apesar de pouco conhecida, sempre esteve disponível ao público português.

    E aos que referiu, creio haver uma omissão: o grande Anthony Beevor e o seu Dia D – A batalha da Normandia, publicado recentemente entre nós pela Bertrand.

  3. A mim falta-me encontrar um bom livro sobre a I Guerra Mundial, desde o pré-Guerra e todas as movimentações na Europa e no Médio Oriente, até ao pós-Guerra, de forma a se fazer a ponte com as circunstâncias que acabaram por redundar na II Guerra Mundial (tenho cada vez mais uma enorme dificuldade em separar uma e outra).

    E tudo isto sem esquecer a parte oriental, porque estes livros têm frequentemente o hábito que ignorar o que se passa fora das frentes ocidentais (como quase toda a história europeia que se ensina em Portugal, infelizmente).

  4. Temas que me fascinam e me acompanham: História, Biografias e II Grande Guerra, da qual tenho alguns volumes e vários acontecimentos soltos.
    Uma fonte inesgotável, da qual nunca saberemos tudo e muito menos tudo entenderemos (penso eu).
    Fica aqui o meu agradecimento pelas sugestões, que me deixam “em pulgas” até estarem na minha mão.

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