Durante muitos anos – demasiados anos – a História renegou as biografias e a ordenação cronológica. Influenciada por certas modas ideológicas, interessava-se sobretudo por estatísticas de produção, dados demográficos, grandes "estruturas" sociais e a "luta de classes" como "motor" dos acontecimentos. Felizmente, como sucede a todas as modas, também esta se foi esgotando. O papel do indivíduo foi revalorizado, o encadeamento dos factos na sua perspectiva cronológica voltou a ganhar importância e o modo de escrever recuperou um estilo narrativo que parecia condenado ao desuso. Qualquer escaparate de livraria volta hoje a dar relevância à biografia como insubstituível género literário. As memórias, os diários de personalidades célebres e os testemunhos na primeira pessoa do singular recuperaram leitores fiéis.
Vem isto a propósito de alguns dos mais notáveis lançamentos editoriais de 2009 em Portugal que continuam a ter repercussão no ano em curso. Livros como a monumental biografia de Hitler (Dom Quixote), lançada na sua versão abreviada (mas, ainda assim, gigantesca) do historiador britânico Ian Kershaw. Beneficiando da abertura de arquivos e do acesso a fontes documentais inéditas como o diário de Joseph Goebbels, o delfim de Hitler, Kershaw descreve-nos com minúcia a ascensão ao poder do fundador do III Reich, do seu percurso errante de boémio em Viena, quando ganhava o sustento vendendo medíocres aguarelas a clientes judeus, até se tornar dirigente máximo da Alemanha, submetendo sucessivas nações europeias à sua imparável sede de poder e transformando uma das mais requintadas civilizações mundiais num gigantesco cenário de terror.
Outra obra indispensável agora ao dispor dos leitores portugueses é A II Guerra Mundial (Dom Quixote), impressionante descrição – passo a passo, batalha a batalha – dos seis anos mais mortíferos da história da humanidade, redigida pelo britânico Martin Gilbert, que já se distinguira como o melhor biógrafo de Winston Churchill. Destaque ainda para Uma Breve História do Século XX (Livros d’ Hoje), do australiano Geoffrey Blainey, que nos chegou com o rótulo de "best seller internacional" – neste caso bem merecido: aqui se condensam de forma exemplar, em cerca de 500 páginas, os principais acontecimentos do século passado, mencionando factos políticos mas também as ideologias em conflito, as grandes descobertas científicas e todo o cortejo de prodigiosas inovações técnicas.
A História está viva – e recomenda-se. É uma excelente notícia para os leitores do século XXI.




.. sem dúvida. E ainda bem!
(Ainda que falte ali um dos meus predilectos: Tony Judt) 😉
Não tenho dúvida, Catarina. Ainda não li “O Século XX Esquecido – Lugares e Memórias”. Mas está na minha lista de prioridades.
Referia-me ao Pós-Guerra, Pedro, esse ainda não li 🙂
Outro então que fica na minha lista de prioridades.
Um livro fantástico, está lido e deixou-me o apetite para o “esquecido”.
Muito oportuno o post Pedro. Estou a ler Hitler de Ian Kershaw, tem sido uma revelação e já tenho em carteira a “A Segunda Guerra Mundial” . É um tema que me interessa desde a adolescencia. Aliás penso que nunca conseguiremos compreender realmente tudo….
Exactamente, Ariel. O melhor é continuarmos a tentar fazer umas aproximações a estes temas, tão multifacetados.
Faz tempo que estou razoavelmente municiado nos temas que referes, mas é sempre bom saber o que vai saindo de mais e melhor.
Gostarás de ler qualquer destes livros, compadre. Tenho a certeza.
A II Guerra Mundial do Martin Gilbert não é a primeira edição. A D. Quixote já a tinha editado há uns bons anos, mas em dois volumes. Pelo que, apesar de pouco conhecida, sempre esteve disponível ao público português.
E aos que referiu, creio haver uma omissão: o grande Anthony Beevor e o seu Dia D – A batalha da Normandia, publicado recentemente entre nós pela Bertrand.
Obrigado pela achega, Ega. Omissões haverá muitas. Eu só posso falar pelo que li. À medida que for lendo, vou dando aqui mais notícias.
Quero tanto a biografia do Hitler, mas se começo a ler isso agora esqueço-me que tenho vida 😉
Podes crer que é isso mesmo que sucederá, Daniela. Mas acredita que vale a pena.
Memórias e Biografias: dois géneros que tem a minha preferência; nada como esses livros para nos porem bem a par do que se passou numa época determinada.
Felizmente estão de novo em grande, Cristina. Depois de duas ou três décadas em que eram considerados quase subgéneros literários.
Gostei muito de ler a obra do Martin Gilbert
É uma obra fundamental para quem gosta de História do século XX e quer perceber melhor o mundo em que vivemos.
Obrigado pelas dicas, Pedro. Vou começar pela biografia do Adolfo.
Imprescindível. Para mim foi o maior acontecimento editorial em Portugal no ano passado.
A mim falta-me encontrar um bom livro sobre a I Guerra Mundial, desde o pré-Guerra e todas as movimentações na Europa e no Médio Oriente, até ao pós-Guerra, de forma a se fazer a ponte com as circunstâncias que acabaram por redundar na II Guerra Mundial (tenho cada vez mais uma enorme dificuldade em separar uma e outra).
E tudo isto sem esquecer a parte oriental, porque estes livros têm frequentemente o hábito que ignorar o que se passa fora das frentes ocidentais (como quase toda a história europeia que se ensina em Portugal, infelizmente).
Recomendo-te a obra do AJP Taylor, João André. Infelizmente um autor muito pouco traduzido em Portugal. Mas a Penguin tem tudo ou quase tudo dele.
Obrigado pela dica Pedro. Como não vivo em Portugal é relativamente indiferente. E, seja como for, há sempre a Amazon :).
De facto, que seria de nós (aí e também aqui) sem a Amazon?
Temas que me fascinam e me acompanham: História, Biografias e II Grande Guerra, da qual tenho alguns volumes e vários acontecimentos soltos.
Uma fonte inesgotável, da qual nunca saberemos tudo e muito menos tudo entenderemos (penso eu).
Fica aqui o meu agradecimento pelas sugestões, que me deixam “em pulgas” até estarem na minha mão.
Vai gostar, seguramente. Em breve falarei de outros livros, também deste género (um dos meus preferidos).