As medidas que Medina tomou para ajudar os aflitos no pagamento das prestações dos empréstimos para habitação poderiam perfeitamente ter sido tomadas pelos próprios bancos – reescalonar pagamentos, que é do que se trata, não sendo bom, é melhor do que incumprimentos que, ultrapassado um certo nível, podem passar a bolha que rebenta.
Não o fizeram porque a gestão bancária é caracteristicamente estúpida, ao contrário da percepção pública. Isto é assim porque a concorrência entre bancos é ilusória por uma multiplicidade de razões, porque a autonomia decisória é limitadíssima por causa do colete de forças regulamentar do BCE e do seu balcão local, o BdP, e porque as camadas superiores da direcção estão povoadas de carreiristas cinzentos que não suportam as consequências negativas das suas decisões mas beneficiam dos resultados, que auto-atribuem à excelência oca das suas decisões. Há também o factor humano: o gestor que, confortável na sua sinecura, toma decisões que afectam a vida dos “clientes”, entende tanto dos problemas deles como o saciado dos dos que têm fome.
E Medina? É um político de carreira a tomar decisões políticas com grande componente técnica. Um refrescante contraste com um professor de economia a tomar decisões que imagina técnicas, tendo uma componente política que embrulha pedantemente em palavreado com tinturas académicas.
E em matéria de elogios (que aliás, se para isso me desse o vezo, compensava enunciando o estendal de asneiróis que nos levou onde estamos) chega para, pelo menos, um ano.

Os gestores bancários só podem ser avaliados em tempos de crise. Em Portugal os Bancos vivem todos do crédito à habitação e mais recentemente das comissões que cobram.
Afinal não são os Bancos que aconselham o cliente a enveredar para taxa fixa ou variável, que avaliam a sua capacidade de suportar o crédito ao longo de 30 ou mais anos, que avaliam o imóvel que está a ser financiado?
E agora aconselham, sugerem o quê? E que responsabilidade assumem pelos seus conselhos?
As medidas que Medina tomou para ajudar os aflitos no pagamento das prestações dos empréstimos para habitação poderiam perfeitamente ter sido tomadas pelos próprios bancos
Exatamente, muito bem observado.
Uma outra coisa que alguns políticos gostam de propôr é a “ADSE para todos”. Ora, tanto quanto me parece, poderia perfeitamente haver um conjunto de empresas que decidissem fornecer aos seus funcionários um seguro de saúde do tipo da ADSE, sem necessidade de intervenção do Estado.
politicamente trata-se de ‘habituação’.
como não há criação de riqueza: venha a esmolinha
Então se os bancos podiam ter tomado eles próprios estas medidas, qual é o merito de Medina?
Desta feita, Meireles Graça, não o acompanho inteiramente: a decisão de Medina não tem grande componente técnica, antes é, uma vez mais, uma forma de empurrar os problemas com a barriga, utilizando agora um falso argumento. Se não, vejamos: ele diz que os clientes de crédito imobiliário vão pagar o mesmo, só que mais tarde, 4 anos mais tarde e aos bochechos até ao fim do empréstimo. Ora, toda a gente sabe que os euros de hoje não têm o mesmo valor dos euros dos euros que circularão em 2027 e, muito menos, nos anos seguintes. Esses euros estarão desvalorizados pelo valor da inflação acumulada, ou em percentagens semelhantes.
Com isto quero dizer que quem vai ficar prejudicado são os Bancos, ou talvez os clientes dos Bancos que lhes confiam as suas poupanças. De facto, custa a entender o silêncio da Banca, a indiciar que querem estar de bem com o governo – e quem diz governo, diz Banco de Portugal, que hoje vai dar ao mesmo. E que com isso vão ganhar no futuro.
Também é certo que o BCE tem culpas no cartório, não por agora estar a subir a taxa de juro dos depósitos, talvez tardiamente, mas por ter praticado, demasiado tempo, taxas de juro negativas, asneira que os nossos políticos logo aproveitaram para obrigar a Banca a transferir o “lucro” para os titulares de empréstimos com taxa de juro indexadas à Euribor, que foi negativas, procurando com isso captar votos. E os Bancos não se atrapalharam: deixaram de pagar juros aos seus clientes aforradores, ou seja, como disse a Mortágua, “temos de ir buscar o dinheiro onde ele está”.
O que o governo nunca fez, foi incentivar os clientes de crédito para a habitação, recorrerem a taxas fixas. Se assim tivessem feito, este problema não existia.
Há um equívoco logo à nascença. Estas medidas não são para beneficiar os aflitos com créditos à habitação. São medin… aliás, medidas, para benficiar os bancos. Logo, não para “nos” governar, mas para se governarem.