Tinha prometido a mim mesma não escrever sobre política, por uma questão de sanidade. Tinha, mas já vou quebrar a promessa. Há episódios que ilustram bem o actual estado de coisas, e ignorá-los não é só pôr a cabeça debaixo da areia, é enfiar-me toda dentro da areia.
Hoje houve debate sobre a violência nas escolas no Parlamento. Tema sério, que se relaciona directamente com educação. Ora, no mesmo debate, o PS, governo e grupo parlamentar, conseguiu demonstrar o respeito que tem pela educação: nenhum. Primeiro, é o secretário de Estado da Educação que tem de ser ensinado pelo Presidente da Assembleia. Aparentemente, o senhor pensava estar num qualquer café a debater com conhecidos, esquecido do protocolo inerente ao sítio onde estava. A Assembleia é um dos órgãos máximos da democracia. Exige respeito, e tem um protocolo para ser cumprido. Para o secretário de Estado da Educação, isso devem ser ninharias bolorentas. O azar dele foi encontrar pela frente um Jaime Gama de péssimo humor e sem paciência para faltas de respeito. Logo depois, tivemos a superação da falta de educação. Depois de Ana Drago aqui há uns meses ter batido com a mesa em protesto, hoje tivemos os deputados socialistas a bater com os tampos dos computadores, propriedade da Assembleia da República. Não sou defensora da violência em caso algum, mas parece-me que a estes senhores e senhoras faltou uma palmada certeira em tenra idade, que os ensinasse a comportarem-se. Homens e mulheres feitos, embaraçam-se a si mesmos, e retiram-me a pouca esperança que tinha de um debate parlamentar sobre educação.

Muito bem.
Ora,ora, pois se os computadores foram pagos com dinheiro do Estado e o Estado é o PS, como disse alguém…
Sabe o que falta a esses senhores, cara Ana? Em bom português, um bom murro nos cornos!
Cá para mim o Jaime Gama é um infoexcluído. A questão não é o instrumento, é o que se faz com ele (sim, também se aplica aqui, esta máxima). Se o deputado estiver a consultar a sua conta bancária, são dados privados. Se estiver a ver o mail, são dados privados, se estiver a inserir passwords, são dados privados. O computador pode ser um bem público, mas o que se faz com ele pode (e muitas vezes deve) ser privado.
E não me venham com a treta do “se está no hemiciclo só pode fazer coisas relacionadas com o que está a ser debatido, quer consultar a conta bancária, que consulte a partir de casa”, vivemos nuns tempos em que cada vez mais o horário de expediente deixa de existir, e o social, o profissional, o familiar se entrecruzam. Já não há horas marcadas para as coisas, os telemóveis e a internet trouxeram-nos, também, isso.
Aquela coisa de ter um emprego toda a vida, entrar à mesma hora, ir almoçar a casa, regressar e sair a horas certas, já não existe. Com o telemóvel e a internet (e agora, com ambos) estamos disponíveis sempre que tenhamos o telemóvel ligado. Ou achariam bem que um jornalista ligasse a um deputado para lhe fazer uma pergunta e deputado respondesse, lamento imenso mas são 18h05 e já não estou a ser deputado a esta hora. Cairia o Carmo e a Trindade. E com razão.
Decidam-se. Não podem ter sol na eira e chuva no nabal.
tags: assembleia da república, computadores, deputados, interne
Pode ser infoexcluído mas também é educado,coisa que manifestamente faltou aos “deputados” PS,quando resolveram fechar os computadores ao melhor estilo de qualquer chunga das nossas escolas !
Espero que o desemprego não lhe bata à porta.
O computador está a tornar-se tão importante que o líder parlamentar fala e o colega ao lado visita o site da empresa, esquecendo-se de bater palmas!
Ana, como dizia o outro, duas palavrinhas em estrangeiro: right on.
Como já disse no post acima, acho que Jaime Gama fez muitíssimo bem. Uma coisa que me faz pensar é a facilidade com que se utiliza um bem público para um fim privado, bem patente na utilização que se faz da internet, por exemplo.
Se querem tratar de assuntos privados em locais públicos… não se podem queixar por serem fotografados.
Dou-te inteira razão. E acho que Jaime Gama esteve muito bem, fez o que devia com a autoridade que lhe compete.
Gama esteve muito bem – na questão dos computadores e na forma como obrigou um secretário de Estado a dirigir-se adequadamente aos deputados. Nunca é de mais lembrar que é o Governo que responde perante o Parlamento, não o contrário. Estiveram mal os deputados do PS que desautorizaram Gama aplaudindo frenticamente o secretário de Estado. E a forma como fecharam os computadores foi inqualificável. Chumbariam em qualquer exame elementar de civismo.
Já na legislatura anterior Jaime Gama teve de ensinar o ex-ministro Pinho e um secretário de Estado a não se dirigir aos deputados tratando-os por «vocês». Faltava agora ensinar este a respeitar o Regimento e os outros a cuidar de bens públicos. Isto já desceu muito. Não é exagero, porque estamos a falar de titulares de órgãos de soberania: Parlamento e Governo.
Começou por dizer “Hoje houve debate sobre a violência nas escolas no Parlamento. Tema sério, que se relaciona directamente com educação”. Não sei se por lá houve esse debate, não vi. Apenas ouvi falar desses “incidentes”. Aqui também não se falou do seu tema. Apenas leio sobre “incidentes”.
Afinal o que se disse por lá e o que é que os meus amigos pensam disso?
Dá-me ideia que em vez de “um debate parlamentar sobre educação”, isto foi, antes, «uma demonstração ‘pralamentar’ sobre a má educação».