A crítica que apenas sabe elogiar


Pedro Correia,

A falta de exigência de muita da nossa “crítica”, nas mais diversas especialidades, chega a ser quase chocante. Este é um tema recorrente nas minhas reflexões e regresso hoje a ele a propósito de uma “crítica” gastronómica que acabo de ler. Como vem sendo costume com excessiva frequência, nem sombra de reparo crítico nesta prosa: só elogios. Mas elogios a quê? Ao inusual, ao raro, ao criativo, ao extraordinário? Não: um elogio à febra grelhada. Sim, ao mais banal e desinspirado prato do nosso quotidiano alimentar. Daqueles que comemos em casa e que de modo algum justificam uma deslocação ao restaurante.

O artigo espraia-se em elogios aos maiores lugares-comuns da gastronomia portuguesa, com recurso a adjectivos tão banais como os pratos que descreve. Diz o articulista que o estabelecimento onde mastigou justifica a “sua inclusão entre os bons restaurantes” de uma certa cidade. Cozinha “simples, mas cuidada e de bom gosto”. O enchido é “saboroso”. O entrecosto grelhado é “excelente”. Comem-se por lá “dois bons pratos” de bacalhau. Quais são? Se apostaram na banalidade, uma vez mais, acertaram: frito e à Brás.

E chegamos às febras, “talvez o prato mais emblemático” do restaurante. “De textura e sabor cativantes”. Grelhadas só com sal.

Um interminável bocejo, esta prosa. Uma confrangedora pobreza estilística e conceptual, esta “crítica” que apenas elogia. Um significativo sinal dos tempos, esta elementar falta de vontade de ultrapassar o lugar-comum.

27 comentários em “A crítica que apenas sabe elogiar”

  1. Pedro, tens razão em tudo menos na banalidade do Bacalhau à Brás. Ou melhor – a coisa insípida que habitualmente é servida em restaurantes com o nome de bacalhau à brás é banalíssima, sim, mas o verdadeiro Bacalhau à Brás – assim, com maiúscula e tudo – é uma raridade e uma delícia. Se encontrares um restaurante onde se coma um Bacalhau à Brás realmente bom, avisa – é prato que adoro, mas que não como fora da cozinha materna. Antes as febras!

    1. Caro João: febras, bacalhau à Brás… Tudo pratos para comer em casa, nada que justifique uma deslocação ao restaurante a merecer nota, menos ainda uma coluna gastronómica. É ridícula esta moda actual de achar tudo “excelente”, “extraordinário”, “excepcional”. Perde-se o sentido crítico, nivela-se tudo por baixo. É uma pobreza intelectual. Que, infelizmente, entre nós não existe só ao nível da crítica gastronómica.
      (Mas se gostas de bacalhau à Brás tenho uma sugestão para dar-te um dia destes…)

      1. É como te digo, adoro Bacalhau à Brás, mas aquele que se faz lá em casa – com batatas a sério, ovos caseiros e bacalhau de qualidade, um tempo de preparação de cerca de uma hora, que quando chega ao prato vem mais louro que uma escandinava e tão bem confeccionado que nem se sabe onde acaba a batata e começa o bacalhau. Junta-se umas azeitonas verdes, também alentejanas, e é de ficar a pairar nas nuvens.

        Até hoje, não tive qualquer vontade de comer o bacalhau à brás que vi em qualquer restaurante onde tenha ido. Mas venha de lá essa sugestão, que eu às vezes passo alguns meses sem visitar o Alentejo…

        Quanto às febras, inteiramente de acordo. É como a eleição da sardinha como “maravilha gastronómica” naquele concurso do ano passado. Por boas que sejam as sardinhas assadas na brasa – e são -, aquilo é tão fácil de fazer que até num grelhador de varanda sai bem.

          1. Não morro de amores por caça e detesto açorda, porque detesto aquela molenguice do pão molhado. Não gosto da textura. Já migas é outra coisa.

          2. E há os pratos típicos de Lisboa, por sinal vários deles cada vez mais difíceis de encontrar nos restaurantes da capital. Pataniscas, iscas de cebolada, petinga de escabeche, bacalhau à Gomes de Sá (este sim, da minha preferência).

          3. Pataniscas de camarão com risotto de coentros. Nada lisboeta mas fiz um destes dias e correu bem.
            Às vezes tenho saudades dos sabores despretensiosos do passado, da época em que não me empilhavam a comida como se fosse a Torre Eiffel em camas infinitas de nomes balofos. Manias minhas.

          4. Leonor, eu adoro sardinhas na brasa, sobretudo se o pão a acompanhar for alentejano. Mas do ponto de vista gastronómico é um prato elementar. Como as febras.

            …. a vossa conversa aqui em baixo é de apetite!

          1. Essa receita de bacalhau deve ser mesmo saborosa, Leonor. E tem um toque de originalidade. A fuga ao lugar-comum na cozinha portuguesa devia merecer palavras de incentivo da (rara) crítica da especialidade, cada vez mais conformista.
            A sardinha assada não justifica figurar entre as 7 maravilhas gastronómicas portuguesas, tal como o leitão assado – desde logo porque são dois pratos transnacionais. Ao contrário do queijo da Serra, da alheira e do pastel de nata – tipicamente portugueses. O caldo verde e o arroz de marisco também admito. Embora eu preferisse ver incluída nesta lista a cataplana de peixe e marisco ou a caldeirada à fragateiro, e a sopa de pedra, por exemplo.

          2. Gosto de inventar na cozinha e gosto muito de cozinhar. Não concordo contigo em relação à sardinha mas não digo o mesmo em relação ao leitão. Também não está nas minhas preferências. Cataplana e caldeirada sim e cação de coentrada. Adoro!

          3. Gosto de cação de coentrada e de favas à portuguesa e de ovas de pescada à lagareiro. E galo de cabidela. E de um prato que dantes havia em todas as tascas lisboetas e hoje se tornou difícil de encontrar: ervilhas com chouriço e ovo escalfado. É extraordinário como pratos banalíssimos no tempo da minha infância praticamente desapareceram das ementas quotidianas.

          4. Favas nem cheirá-las. Um susto. Cabidela sim. É de alguns desses pratos que tenho saudades. Agora são demasiados nomes e pouca genuinidade.

          5. Gostava de ter um turismo de habitação e cozinhar a meu bel-prazer. Sem ementa fixa, ao sabor dos humores da maga das colheres de pau 🙂 Espero acabar assim os meus dias, longe do que tenho agora.

          6. Perece-me bem. Mas já anda a apetecer-me uma tarte de alfarroba lá dos Algarves, sinal de que devo estar a precisar de rumar novamente até lá. Comer umas conquilhas temperadas com coentros e limão à beira-ria Formosa.

  2. As banais febras grelhadas são a “especialidade” mais servida no restaurante preferido de Santarém, nos jantares de grupo de sexta e sábado, onde os adolescentes fazem a sua iniciação alcoólica às “águas” do Cartaxo e arredores. Será esta critica um elogio?

  3. Caríssimo,

    “Um significativo sinal dos tempos, esta elementar falta de vontade de ultrapassar o lugar-comum.”

    Mas é só na escrita ou na critica culinária ? Não me parece…

    Forte abraço,

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