A falta de exigência de muita da nossa “crítica”, nas mais diversas especialidades, chega a ser quase chocante. Este é um tema recorrente nas minhas reflexões e regresso hoje a ele a propósito de uma “crítica” gastronómica que acabo de ler. Como vem sendo costume com excessiva frequência, nem sombra de reparo crítico nesta prosa: só elogios. Mas elogios a quê? Ao inusual, ao raro, ao criativo, ao extraordinário? Não: um elogio à febra grelhada. Sim, ao mais banal e desinspirado prato do nosso quotidiano alimentar. Daqueles que comemos em casa e que de modo algum justificam uma deslocação ao restaurante.
O artigo espraia-se em elogios aos maiores lugares-comuns da gastronomia portuguesa, com recurso a adjectivos tão banais como os pratos que descreve. Diz o articulista que o estabelecimento onde mastigou justifica a “sua inclusão entre os bons restaurantes” de uma certa cidade. Cozinha “simples, mas cuidada e de bom gosto”. O enchido é “saboroso”. O entrecosto grelhado é “excelente”. Comem-se por lá “dois bons pratos” de bacalhau. Quais são? Se apostaram na banalidade, uma vez mais, acertaram: frito e à Brás.
E chegamos às febras, “talvez o prato mais emblemático” do restaurante. “De textura e sabor cativantes”. Grelhadas só com sal.
Um interminável bocejo, esta prosa. Uma confrangedora pobreza estilística e conceptual, esta “crítica” que apenas elogia. Um significativo sinal dos tempos, esta elementar falta de vontade de ultrapassar o lugar-comum.


Pedro, tens razão em tudo menos na banalidade do Bacalhau à Brás. Ou melhor – a coisa insípida que habitualmente é servida em restaurantes com o nome de bacalhau à brás é banalíssima, sim, mas o verdadeiro Bacalhau à Brás – assim, com maiúscula e tudo – é uma raridade e uma delícia. Se encontrares um restaurante onde se coma um Bacalhau à Brás realmente bom, avisa – é prato que adoro, mas que não como fora da cozinha materna. Antes as febras!
Caro João: febras, bacalhau à Brás… Tudo pratos para comer em casa, nada que justifique uma deslocação ao restaurante a merecer nota, menos ainda uma coluna gastronómica. É ridícula esta moda actual de achar tudo “excelente”, “extraordinário”, “excepcional”. Perde-se o sentido crítico, nivela-se tudo por baixo. É uma pobreza intelectual. Que, infelizmente, entre nós não existe só ao nível da crítica gastronómica.
(Mas se gostas de bacalhau à Brás tenho uma sugestão para dar-te um dia destes…)
É como te digo, adoro Bacalhau à Brás, mas aquele que se faz lá em casa – com batatas a sério, ovos caseiros e bacalhau de qualidade, um tempo de preparação de cerca de uma hora, que quando chega ao prato vem mais louro que uma escandinava e tão bem confeccionado que nem se sabe onde acaba a batata e começa o bacalhau. Junta-se umas azeitonas verdes, também alentejanas, e é de ficar a pairar nas nuvens.
Até hoje, não tive qualquer vontade de comer o bacalhau à brás que vi em qualquer restaurante onde tenha ido. Mas venha de lá essa sugestão, que eu às vezes passo alguns meses sem visitar o Alentejo…
Quanto às febras, inteiramente de acordo. É como a eleição da sardinha como “maravilha gastronómica” naquele concurso do ano passado. Por boas que sejam as sardinhas assadas na brasa – e são -, aquilo é tão fácil de fazer que até num grelhador de varanda sai bem.
Essa da sardinha assada como “maravilha gastronómica” nacional foi genial, João. Ao nível da “excelente febra”. Deve dar um trabalho enorme pô-las na grelha.
Não sejam assim. Adoro sardinhas e nem todos as sabem assar ou atear o lume que é o meu caso 🙂
Prefiro arroz de lebre, perdiz de escabeche ou sável com açorda de ovas.
Não morro de amores por caça e detesto açorda, porque detesto aquela molenguice do pão molhado. Não gosto da textura. Já migas é outra coisa.
E há os pratos típicos de Lisboa, por sinal vários deles cada vez mais difíceis de encontrar nos restaurantes da capital. Pataniscas, iscas de cebolada, petinga de escabeche, bacalhau à Gomes de Sá (este sim, da minha preferência).
Pataniscas de camarão com risotto de coentros. Nada lisboeta mas fiz um destes dias e correu bem.
Às vezes tenho saudades dos sabores despretensiosos do passado, da época em que não me empilhavam a comida como se fosse a Torre Eiffel em camas infinitas de nomes balofos. Manias minhas.
Leonor, eu adoro sardinhas na brasa, sobretudo se o pão a acompanhar for alentejano. Mas do ponto de vista gastronómico é um prato elementar. Como as febras.
…. a vossa conversa aqui em baixo é de apetite!
Sim, não é elaborado mas tudo tem a sua arte, João.
Os Gémeos são muito hedonistas :))))
Nós somos hedonistas, Gémea? Muito me contas.
O segredo está no bacalhau, e na mão de quem cozinha, claro 🙂 Vão-me chamar herege mas deito-lhe uns camarões pelo meio, além das rotundas azeitonas.
Essa receita de bacalhau deve ser mesmo saborosa, Leonor. E tem um toque de originalidade. A fuga ao lugar-comum na cozinha portuguesa devia merecer palavras de incentivo da (rara) crítica da especialidade, cada vez mais conformista.
A sardinha assada não justifica figurar entre as 7 maravilhas gastronómicas portuguesas, tal como o leitão assado – desde logo porque são dois pratos transnacionais. Ao contrário do queijo da Serra, da alheira e do pastel de nata – tipicamente portugueses. O caldo verde e o arroz de marisco também admito. Embora eu preferisse ver incluída nesta lista a cataplana de peixe e marisco ou a caldeirada à fragateiro, e a sopa de pedra, por exemplo.
Gosto de inventar na cozinha e gosto muito de cozinhar. Não concordo contigo em relação à sardinha mas não digo o mesmo em relação ao leitão. Também não está nas minhas preferências. Cataplana e caldeirada sim e cação de coentrada. Adoro!
Gosto de cação de coentrada e de favas à portuguesa e de ovas de pescada à lagareiro. E galo de cabidela. E de um prato que dantes havia em todas as tascas lisboetas e hoje se tornou difícil de encontrar: ervilhas com chouriço e ovo escalfado. É extraordinário como pratos banalíssimos no tempo da minha infância praticamente desapareceram das ementas quotidianas.
Favas nem cheirá-las. Um susto. Cabidela sim. É de alguns desses pratos que tenho saudades. Agora são demasiados nomes e pouca genuinidade.
Pataniscas de camarão com ‘risotto’ de coentros? Hummm……..
Gostava de ter um turismo de habitação e cozinhar a meu bel-prazer. Sem ementa fixa, ao sabor dos humores da maga das colheres de pau 🙂 Espero acabar assim os meus dias, longe do que tenho agora.
E tarte tatin de pêssegos com uma bola de gelado de baunilha para acabar, que te parece?
Perece-me bem. Mas já anda a apetecer-me uma tarte de alfarroba lá dos Algarves, sinal de que devo estar a precisar de rumar novamente até lá. Comer umas conquilhas temperadas com coentros e limão à beira-ria Formosa.
As banais febras grelhadas são a “especialidade” mais servida no restaurante preferido de Santarém, nos jantares de grupo de sexta e sábado, onde os adolescentes fazem a sua iniciação alcoólica às “águas” do Cartaxo e arredores. Será esta critica um elogio?
Já percebi que jantou bem. Deu-lhe na febra? O tintol recomenda-se? Tudo “excelente”?
Meu querido David Lopes Ramos – acabou-se!
É verdade, meu caro. Mestre Lopes Ramos: era um prazer lê-lo. Aprendíamos sempre alguma coisa com ele. Tive o privilégio de o conhecer pessoalmente.
Caríssimo,
“Um significativo sinal dos tempos, esta elementar falta de vontade de ultrapassar o lugar-comum.”
Mas é só na escrita ou na critica culinária ? Não me parece…
Forte abraço,
Olhe que não, olhe que não, meu caro…
Um abraço.