
Paprika
Realização: Satoshi Kon
Argumento: Satoshi Kon e Seishi Minakami
Baseado no romance homónimo de Yasutaka Tsutsui (1993)
Produção: Madhouse
Ano: 2006
Duração: 90 minutos
País: Japão
Paprika é o filme que Inception poderia ter sido se Christopher Nolan tivesse imaginação.
Ao contrário do thriller de Nolan, nada é geométrico ou previsível nesta adaptação do romance de Yasutaka Tsutsui, onde se imagina um futuro próximo no qual foi desenvolvida uma tecnologia que permite o acesso aos sonhos de quem a utiliza. Atsuko Chiba, líder da equipa que desenvolveu o aparelho, começa a utilizá-lo ilegalmente para ajudar pacientes psiquiátricos a superar os seus traumas e as suas neuroses, assumindo nos sonhos do pacientes o alter-ego Paprika. É assim que conhece o detective Toshimi Konakawa, preso num sonho recorrente relacionado com um caso que nunca conseguiu resolver.
Quem tiver visto os filmes anteriores de Satoshi Kon sabe da prelidecção do cineasta japonês por narrativas que questionem os limites da realidade, onde as fronteiras entre o real e o imaginado se esbatem ao ponto da paranóia. Paprika não é excepção, e à medida que o filme avança vemos como os sonhos transbordam na realidade (ou será ao contrário?), com Chiba e Konakawa a aventurarem-se num autêntico pesadelo freudiano onde o impossível é apenas uma questão de perspectiva.
E é nestes territórios temáticos que a animação se revela absolutamente superior. Sim, o que não falta é filmes “reais” a explorar dimensões oníricas (até conseguimos ouvir, sem ouvir, os famosos acordes de harpa), uns com mais virtuosismo e imaginação do que outros. Mas se há forma artística perfeita para explorar os sonhos, essa forma será sem dúvida a animação, e Satoshi Kon, um animador excepcional, sabia-o bem: livre dos limites técnicos da filmagem convencional, pode levar a premissa de Paprika até às suas últimas consequências, numa animação colorida, vibrante, a espaços psicadélica, onde as imagens mais absurdas do inconsciente das personagens ganham uma extraordinária vida. Dito isto, talvez o feito mais extraordinário de Paprika seja nunca perder de vista as suas personagens, que servem de âncora à efusividade onírica da narrativa. Kon pode estar interessado em explorar e extrapolar os limites dos sonhos, mas regressa sempre aos sonhadores, independentemente da forma que possam assumir – às suas motivações, aos seus medos, aos seus traumas, aos seus desejos.
Perdemos Satoshi Kon demasiado cedo – faleceu em 2010, com apenas 46 anos, vítima de cancro. Deixou-nos quatro longas-metragens e uma série televisiva em pouco menos de quinze anos, mas o que não falta é carreiras de décadas com menos trabalhos tão relevantes e tão influentes. Paprika, o seu último filme, será sem dúvida o pináculo do seu trabalho e um resumo perfeito dos seus temas que lhe eram mais caros.




1 – Esta bela rubrica de João Campos, quando começamos a ler o seu conteúdo, obriga-nos a debater se “a animação é ou não, apenas, para crianças”.
2 – A pergunta que faço a mim próprio é, se uma nossa memória, uma daquelas que retemos com tanta clareza que até dura até termos 90 anos (ou mais), envelhece ou não.
3 – Que idade tem efetivamente, na duração da ontologia de cada ser-humano, uma “criança” e um “adulto”?
4 – E em termos do nosso sistema sensorial-perceptivo, uma imagem em 3D é mais potente do que uma imagem em 2D?
5 – Tomando como referência a descrição bioquímica do processo de cognição humana (que valeu o prémio Nobel a Eric Kandel), o que, em termos cognitivos, é mais forte e duradouro (a “animação” feita através de um ícone, símbolo ou desenho; ou a “descrição” feita em 3D por um vídeo)?
6 – Em termos evolutivos, e da Continuidade, não será a codificação, mais do que a descrição empírica, aquilo que perdurará e será capaz de se transmitir aos presentes e vindouros?
1 – Para quem tenha interesse, na referência que fiz a Eric Kandel, refiro-me a:
1.2 – Larry R. SQUIRE & Eric R. KANDEL, 1999, “Memory, From Mind to Molecules”, ed. W.H. Freeman and Company, New York (ISBN: 0-7167-5071-6).
1.1 – Para quem tenha perguiça em ler o original em inglês, há em português, com o título “Memória, da Mente às Moléculas”, editado pela “Porto Editora” em fevereiro de 2002.
2 – Outra referência básica para o debate desta questão é:
2.1 – Thomas WYNN & Frederick COOLIDGE, 2010, “Beyond Symbolism and Language: An Introduction to Supplement 1, Working Memory”. In Current Anthropology, vol. 51, Sup. 1, June 2010, “Working Memory: Beyond Language and Symbolism”, pp.S5-16.
3 – Nota: — Eric KANDEL, “(…) Nascido em Viena, na Áustria, formou-se em Medicina pela New York University School of Medicine. Continuou os seus estudos de pós-graduação no Laboratory of Neurophysiology na NYH com Wade Marshall, e fez a sua formação como médico interno de Psiquiatria no Massachusetts Mental Health Center, enquanto prosseguia com a sua investigação e a docência na Harvard Medical School. Fundou o Center for Neurobiology and Behavior na Columbia University em Nova Iorque, onde desempenha actualmente funções de professor de Fisiologia e Psiquiatria. É investigador senior nos laboratórios do Howard Hughes Medical Institute. É membro da National Academy of Sciences. Tem ganho vários prémios de prestígio, incluindo o prémio Albert Lasker Basic Medical Research, o prémio Gairdner, a National Medal of Science, e o prémio Wolf em biologia e medicina. Em 2000 foi-lhe atribuído o Prémio Nobel de Medicina.”
O Marsupilami faz 70 anos!
Escreveu João Campos neste Post: — “(….) por narrativas que questionem os limites da realidade, onde as fronteiras entre o real e o imaginado se esbatem ao ponto da paranóia.” (….) “E é nestes territórios temáticos que a animação se revela absolutamente superior. (….) Mas se há forma artística perfeita para explorar os sonhos, essa forma será sem dúvida a animação,”.
1 – De facto, essa fronteira está a marcar este século. A oposição entre «Real versus Ficção» e entre «Realismo-Positivismo versus Fenomenologia» está a esbater-se.
2 – Não é apenas o recente casamento oficial, em cerimónia com convidados reais e pelo processo tradicional da lei japonesa, entre Akihiko Kondo (professor na universidade de Tóquio, 35 anos) e Hatsune Miku (um holograma de uma pop star de olhos grandes e longos cabelos azuis, com 16 anos, criado por computador, cujo software consegue reconhecer o rosto e a voz de Kondo, e responder-lhe com frases e canções).
Actualmente, são centenas de casamentos deste tipo, entre pessoas ditas “reais” (as que possuem um corpo anatómico, molecular e proteico) e personagens imaginárias e avatares.
3 – As palavras de João Campos, remetem para um facto verídico, que não resisto a lembrar: — O “Método” (cujo título é, “Discurso do Método para conduzir a Razão e procurar a Verdade através da Ciência”), escrito por Descartes, e publicado pela primeira vez em Leiden, em 1637, constitui uma das obras basilares do Positivismo e do Realismo. Porém, como confessou mais tarde Descartes na sua autobiografia, esse “método científico” … nasceu de um sonho que teve na noite de 10 para 11 de novembro de 1619 (!). Ou seja, o realismo e o positivismo tiveram origem na “imaginação”.
4 – Uma coisa é certa. Esta «relação entre Real e Imaginário» está a ter repercussões práticas no actual modo de viver e de conceber o mundo. E convoca-nos para um longo e interessante debate. Será como os autores mencionados adiante afirmam?:
4.1 – “Reality only exists for us in facts of consciousness given by inner experience” (W. DILTHEY, 1883).
4.2 – “A experiência não é atributo do ser mas do pensar, não se alcança pela multiplicidade sucessiva, mas pela interioridade unitiva” (José Marinho, 1931).
4.3 – “The critical distinction here is between Reality (what is really out there, whatever that may be), Experience (how that really presents itself to consciousness), and Expressions (how individual experience is framed and articulated). In a life history, as I have indicated elsewhere (Bruner, 1984:7), the distinction is between life as lived (reality), life as experienced (experience), and life as told (expression) (….) “There are inevitable gaps between Reality, Experience, and Expressions, and the tension among them constitutes a key problematic in the anthropology of experience.” (Edward M. BRUNER, 1986).
4.4 – “Os pensamentos mais abstratos não são necessariamente tributários da linguagem. Os testemunhos de inúmeros matemáticos e físicos sobre a imaginação científica, corroboram-no. Albert Einstein afirmou que pensava através imagens mentais; os matemáticos da geometria pensam através representações visuais. A representação do futuro repousa sobretudo na capacidade de nos projetarmos mentalmente. A ideia precede o sentido.“ (Achile Weinberg, 2008).
5 – Em suma, neste séc. XXI, passámos a ter como vizinhos estes «novos inquilinos do Real». Que vão implacavelmente ocupando o seu lugar no nosso quotidiano. Refiro-me às personagens da ficção literária, poética ou cinematográfica; a muitas das atuais obras-de-Arte; a todos os Heterónimos e a todas “as estruturas do duplo” (no sentido de H. Plessner, 1928); às personagens das “Segundas Vidas” e dos Jogos Virtuais; e a tantos outros Avatares. Definitivamente, reivindicando um lugar no Real com o mesmo estatuto do que as outras coisas, pessoas e objetos a que estávamos habituados. E, pouco a pouco, até, alterando os nossos próprios conceitos de Objeto e de Realidade. Muitos desses novos inquilinos do Real até já são considerados Património, e muitos mais hão-de sê-lo.
O pertinente debate para o qual João Campos nos convoca, sobre a fronteira entre «Real vs Imaginação», vimo-lo em 2016, na 2.ª edição do “Post-Screen Festival: International Festival of Art, New Media and Cybercultures” (organizado pelo Centro de Investigação e Estudos em Belas-Artes, da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa). E em 5 de abril de 2018, no artigo intitulado, “Toying with Our Teleologies: Reflections on What Fiction Can Do for Anthropology” (Priya Chandrasekaran, et alli).