Em Terra Distante, um agradável western de Anthony Mann, de 1954, Jimmy Stewart interpreta um individualista sem causa, de psicologia complexa, com um lado negro e cujas motivações não são de todo claras. As restantes figuras estão divididas entre cínicos e vítimas. Os primeiros movem-se pela ganância, que é a origem do mal, como vai recitando um dos mineiros mais pessimistas. No final, o bem triunfa, mas assistimos com certo fascínio às transformações episódicas do nosso herói, que pode ser cruel e violento ou fingir sem hipocrisia uma inocência que não possui.
Os mineiros procuram ouro numas montanhas perto do Alasca e que pertencem ao Canadá. A propósito de geografia, vemos o contraste entre a ordem de um país tutelado pelo Estado de direito e outro onde só existe a desordem, o território do capitalismo selvagem, onde reina a injustiça do mais forte. É interessante verificar como Hollywood foi sempre fortemente ideológica, mesmo num banal western: aqui, encenava-se o confronto entre uma comunidade trabalhadora e os interesses estreitos da minoria exploradora e sem escrúpulos, que não hesitava em recorrer à maior violência.
O bem geral triunfa, mas só depois de o herói compreender que tem de se colocar do lado da justiça. O amor perde, de certa maneira, pois não é possível conciliar a o fundo bondoso do aventureiro com a paixão algo irracional da sua alma-gémea, Ruth Roman. Também não podemos concluir que o poder do Estado seja a solução ideal, pois a autoridade canadiana tem falta de meios, hoje diríamos que parece sofrer políticas de austeridade, forçando homens com a vocação de solitários, como é o caso de Stewart, a tomarem conta da questão. Tirando estas ideias mais datadas, o filme tem a alma do cinema clássico americano, com ritmo e estrutura, densidade de personagens, diálogos sem tiradas literárias e a inexcedível credibilidade dos actores.

