«Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer
Liberté.»
Eu fui lá e vi.
Lembro-me como se fosse hoje. Foi numa manhã fria e cinzenta de Abril, por meados da década de 80. Tinha eu 21 anos e estava em Berlim com três colegas de profissão: a Isabel Stilwell, o Luís Marinho, o Jerónimo Pimentel. Nesse dia fomos ao outro lado. Cruzando o Muro da Vergonha que desde 1961, por imposição dos soviéticos, rasgava a meio a antiga capital do Reich. Como incisão de bisturi na pele, separando bairros da mesma cidade, fracturando ruas dos mesmos bairros, até fragmentando casas das mesmas ruas que permaneceram emparedadas durante aquelas tristes décadas em que Berlim-Ocidental, na certeira definição de John Kennedy, era a fronteira mais avançada do mundo livre.
Cruzámos a linha divisória por via ferroviária, na estação de metropolitano de Friedrichstrasse, após termos sido forçados a trocar marcos ocidentais por marcos orientais artificialmente cotados em paridade pelo regime comunista, à revelia do valor real das moedas, como condição para transpor aquela fronteira artificial na cidade dividida.
Éramos muito poucos a fazer aquele percurso. Quase todos vinham em sentido inverso, de lá para cá. E eram todos velhos, que marchavam num silêncio mais eloquente que mil discursos. A ditadura de Erich Honecker só permitia deslocações de 24 horas a cidadãos aposentados.
Do lado de lá, tudo diferente. A começar pelo muro – na verdade, duas muralhas paralelas (a segunda foi erguida em 1962) separadas por uma extensão de 100 metros, denominada Faixa da Morte pelos berlinenses. Riscado e coberto de grafitos na face virada para Berlim Ocidental, imaculado na metade comunista da cidade, de onde aliás ninguém podia acercar-se dele. Rodeado de redes metálicas electrificadas, implacavelmente resguardado por soldados armados até aos dentes em 302 torres de vigilância dispersas por 66 quilómetros de extensão.
Símbolo sinistro da Guerra Fria.
Símbolo supremo da falência de um sistema que prometia libertar os homens e afinal só os mergulhou na escravidão.
Arrepiava a escassez de transeuntes do lado de lá.
Arrepiava ver as majestosas Portas de Brandemburgo colocadas em terra de ninguém, no termo da Unter der Linden, a maior avenida de Berlim.
Arrepiava o silêncio dominante. Em perfeito contraste com o fervilhante bulício da Berlim ocidental, “burguesa” e “capitalista”.
Atravessámos a pé uma larga avenida onde não passavam carros e logo fomos interceptados pelo apito de polícias que acorreram ao nosso encontro exigindo inspecção minuciosa de passaportes. Acabaram por nos deixar prosseguir, mas com um solene aviso: proibido atravessar fora das passadeiras. Mesmo numa avenida onde quase não víamos circular veículos, excepto uns decrépitos Trabants leste-alemães, fontes ambulantes de poluição.
Tínhamos de gastar os marcos orientais, que só ali eram aceites. Era hora de almoço, procurámos algum sítio onde pudéssemos matar a fome. Mas naquela imensidão desértica a oferta turística estava reduzida a quase nada. Depois de muito procurarmos, lá nos enfiámos num sell service na Alexanderplatz, de tabuleiro na mão, a comer umas salsichas envoltas em gordura a preços astronómicos. E sem mais nenhum cliente por perto.
Acabámos por gastar a maior parte do dinheiro num sucedâneo de táxi que nos conduziu pela zona mais monumental de Berlim – que devido a um capricho do destino permaneceu após a II Guerra Mundial sob a tutela soviética da cidade – e numa breve incursão aos arrabaldes, onde havia uns bairros operários de aspecto moderno e finalmente pessoas a circular na rua.
No regresso, ainda entrámos num Armazém do Povo, com vários pisos, na esperança de gastarmos parte do dinheiro que nos sobrara. Mas a esmagadora maioria das prateleiras estava vazia. Não havia clientes, só funcionárias que nos ignoraram olimpicamente.
Trouxe de lá uns postais manhosos. O meu único recuerdo palpável da Berlim comunista.
Foi o meu baptismo do “socialismo real” no segmento oriental da maior cidade germânica, na então denominada República Democrática Alemã – que nada tinha de democrático e tudo tinha de repulsivo logo ao primeiro olhar.
No regresso, enquanto nos cruzávamos novamente no posto fronteiriço com os velhos agora de regresso a casa após fugazes visitas a familiares no Ocidente, sentimo-nos testemunhas privilegiadas da História, no tempo e no espaço.
Mil vezes a caótica, barulhenta, transgressora Berlim Ocidental do que a organizada, vigiada e silenciada Berlim-Leste – a cidade de maior progresso e com maior prosperidade económica do bloco socialista, como rezava a propaganda.
Nos dias imediatos, observei ainda com mais atenção o “muro de protecção antifascista” mandado erguer por Nikita Krutchov “a pedido” do ditador comunista alemão Walter Ulbricht em 13 de Agosto de 1961 para impedir a contínua sangria de alemães de Leste, sobretudo jovens, rumo ao Ocidente. Três milhões e meio tinham escapado nos 15 anos anteriores.
De tantos em tantos metros, levantava-se uma cruz branca em memória de cidadãos do Leste alvejados mortalmente pela implacável guarda fronteiriça comunista ao procurarem fugir da ditadura.
Morreram largas dezenas ou mesmo centenas entre 1962 e 1989.
Só por terem ousado ser livres.
Às vezes não há como ver para descrer.
Eu fui lá e vi.
Faz amanhã 25 anos, festejei com irreprimível alegria a queda do Muro da Vergonha. Festejei-a com os magníficos versos de Paul Éluard com que saudei o fim de outras ditaduras: «E pelo poder de uma palavra / Recomeço a vida / Nasci para te conhecer / Para te chamar // Liberdade.»
Nessa noite inesquecível de 9 de Novembro de 1989, milhares de habitantes de Berlim puderam pela primeira vez transpor a fronteira livres da absurda ameaça de poderem morrer alvejados pelos agentes do Estado. E também com eles, embora a milhares de quilómetros de distância, celebrei essa palavra tantas vezes pervertida e conspurcada na boca e no gesto de ditadores de todos os matizes, de todos os quadrantes, de todas as ideologias.
Uma palavra que não tem fronteiras, barreiras, Muro em Berlim.
A incómoda, imprevisível, inapagável palavra Liberdade.

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Relato fantástico, Pedro.
Acredito a experiência como única, daquelas que nos arrepian a pele e fazem ranger os dentes. Respirar história viva é assim…
Tive uma experiência idêntica, mas mais tarde e com mais Perestroika.
http://acontarvindodoceu.blogspot.pt/201 2/07/back-in-ussr.html
Muitas vezes mal nos apercebemos de que somos testemunhas da História, Dulce. Com H maiúsculo. Às vezes é preciso deixar passar os anos. E revermos em documentários cenas que tivemos oportunidade de ver ao vivo.
Ninguém nos contou. Nós estávamos lá.
Também passei por essa experiência, Pedro. O seu relato parece o das minhas memórias, também datadas de meados dos anos 80. Como era possível à distância de um breve percurso de metro sair de um mundo e entrar noutro, tão contrastante, uma espécie de negativo da buliçosa Berlim ocidental.
Passámos por algo irrepetível.
Não vou esquecer nunca aquele contraste, Ana. Tudo tão perto e tão longe. Tudo tão paradoxal. A cidade sitiada, Berlim-Ocidental, era uma ilha de liberdade. E o Estado sitiante, a RDA, era um reduto de opressão.
Muito bem recordado e melhor contado, Pedro.
Infelizmente hoje os muros são mais finos, mas não menos poderosos e até mesmo guardados.
A única fronteira avançada de um mundo livre está na mente do Homem. Sim, não machado que corte a raiz ao pensamento, e não há morte para o Vento…:
http://www.youtube.com/watch?v=tkpbXVwhL-I
Gosto muito deste poema do Carlos de Oliveira. Valorizado pela excelente interpretação de Manuel Freire.
Em meados da epoca de 70, mas na Alemanha ocidental tambem ia sendo fuzilado pelos olhares reprovadores por ter atravessado uma rua deserta(de carros), sem o sinal ter passado a verde. Nisso os alemães eram iguais, a disciplina de ferro.
Admito que sim, meu caro. A mim só aconteceu nas escassas horas que passei em Berlim-Leste. Onde escasseavam carros mas sobravam polícias.
Magnífico retrato desses absurdos anos de chumbo, em tudo arrepiantes. E porquê? Para quê? Tanto a dizer, tanto a esquecer, tanto a recordar. A vergonha que nāo quer calar. Sim, há palavras que nos guiam, palavras que nos protegem, palavras que nos dāo vida. Porém,”la mas hermosa de todas se llama liberdad”. Que ela se mantenha um farol, no mundo que se avizinha tāo … imprevisível ???
Isso mesmo, Fátima: “La más hermosa de todas se llama liberdad”.
Por vezes tendemos a esquecer que numerosas regiões do mundo continuam a viver sem liberdades básicas, sem direito à informação, sem direito de associação política, sem liberdade sindical, sem direito a escolher os governantes.
Ao menos que estas efemérides sirvam também de pretexto para pensarmos um pouco nisso.
Infelizmente a RDA foi esmagada pelo capitalismo, mas resta a Coreia do Norte.
E não se esqueça da “democracia” cubana, camarada.
Também viajei no tempo, com este seu post. Estive em Berlim em 1984, tinha 19 anos. Revi-me nesse atravessar de muro que nos punha num mundo completamente diferente. Senti-me a dezenas de milhares de quilómetros de casa; em Berlim ocidental “apenas” me sentia longe de casa. Por acaso, guardei alguns marcos “orientais” de recordação, umas moedas que parecem de plástico. Incrível, a avidez com que os funcionários da fronteira agarravam nos nossos marcos do ocidente!
Também tenho fotografias dessa visita, mas todas em Portugal, e agora censuro-me por não as ter trazido e/ou digitalizado. Um dia hei de publicá-las… Talvez no 30º aniversário da queda do muro 😉
A segunda vez que estive em Berlim foi na Páscoa de 1992. O muro tinha caído há pouco mais de dois anos. Daquela barreira que nos transportava para um mundo barricado e imponente, restavam meia dúzia de ex-soldados soviéticos a venderem as suas fardas, crachás e bonés ao desbarato, numa espécie de Feira da Ladra, junto à Porta de Brandenburgo, que, mesmo sem muro, ainda dividia dois mundos contrastantes. Peguei num daqueles bonés, a apreciar. Não comprei. Só refleti no insólito de ter nas mãos um dos cacos do “formidável” império soviético.
Dois ou três anos mais tarde, de novo em Berlim, fui com conhecidos visitar um enorme centro comercial nos arredores da antiga Berlim Leste. Saía-se de Berlim e passava-se por uma zona de edifícios que tinham albergado soldados soviéticos. Estavam ao abandono, os vidros partidos… Era uma zona deprimente, a estrada estreita em mau estado, era inverno e as árvores que rodeavam aqueles edifícios-fantasma estavam despidas, por baixo de um céu cinzento. É inevitável: cenários destes, numa Alemanha fria, remetem-nos para os filmes sobre a II Guerra Mundial, os campos de concentração… De repente, erguia-se à nossa frente a nova catedral do consumismo, colorida e cheia de vida, os alemães de leste consolados por poderem gastar rios de dinheiro… Estranho mundo, este!
Nunca visto, no mundo contemporâneo, é um estado erguer um muro para impedir os cidadãos de rumar ao exterior, condenando-os a ser prisioneiros no próprio país. Uma nódoa, só possível na defunta ditadura leste-alemã, que se proclamava “democrática” enquanto não reconhecia nenhum direito elementar aos seus habitantes. Não por acaso, antes do muro 3,5 milhões de pessoas tinham abandonado a RDA. Votando com os pés.
Nódoa maior é que alguns ainda hoje defendam isso.
É pena que os muros da vergonha, ainda andem por cá e nós aí nada dizemos, ou fazemos. O muro da vergonha em Israel é algo que me deixou uma mágoa enorme e me chocou profundamente, mas ele lá está, bem firme e nós continuamos impávidos e serenos, como se já não houvessem muros por aí. O actual muro da vergonha, é a vergonha daqueles que foram espezinhados, maltratados, vilipendiados, torturados e assassinados pelos alemães e hoje, regista-se que afinal, não aprenderam nada de nada, daquilo que lhes fizeram e nós também não porque continuamos, como se já não houvessem muros da vergonha…….
Nenhum muro é comparável ao que a ditadura comunista manteve em Berlim entre 1961 e 1989.
Cada muro é um muro lá isso é verdade, mas não deixa de ser verdade que nós não nos lembremos, dum muro que divide a Palestina de Israel. Esse muro com arame farpado e com vigias existe, hoje, quando todos celebramos a vitória dum que foi abaixo, há 25 anos. Se um foi mau, o outro não deixa de o ser e nós, de maneira alguma, deveremos esquecer-nos que esse muro existe e avança, como se aquelas terras fossem todas de Israel, mas não são. Esquecemo-nos que os Palestinianos já lá estavam e os outros, chegaram à terra de ninguém quando os ingleses os puseram lá. Há sofrimento, angústia e mortes e nós, não estamos para nos chatear com isso. Enquanto houver um muro seja ele, melhor ou pior, é péssimo e se celebramos um, também deveríamos exigir a queda do outro. Só assim seremos correctos e coerentes, com a celebração que festejamos.
Voce é tonto quando faz esse cometário…Vá pode censurar o meu, mas esse será o único poder (e não razão que terá…)
O seu não comento porque não tem nada que comentar, a não ser, o seu estilo de deselegância total. Se disse que sou tonto, então bendita tontice e pobre pensamento o seu….
Estive lá, meses depois. Não conheci o que o Pedro relata, nem vivi o momento único agora comemorado. Mas era estranho, pairava a sensação de um sonho mau, mórbido (que foi infinitamente pior do que isso!), de que já acordámos mas insiste em perturbar-nos o dia que se lhe segue. Isto pensava e arrepiava um forasteiro de breve passagem por Berlim. Sem legitimidade para mais.
Magníficas palavras de Paul Eluard. O mesmo, todavia, que louvou comovidamente Estaline. E outros. Como pode ser tão diferente, para cada um, e tão sublimemente louvado, o ideal de liberdade.
Costa
É bem verdade a contradição que aponta a Éluard. Uma contradição flagrante em muitos outros artistas e escritores do século XX, inventores das palavras e das imagens mais sublimes enquanto defendiam as ideologias mais repugnantes.
Houve muitos outros, como sabemos. De Picasso a Neruda, de Céline a Pound.