Descobrimos que só pensamos no mesmo quando até nos momentos tranquilos do quotidiano encontramos marcas, indícios, evidências da nossa nova condição de depauperados e humilhados. E não, não se pense que foi quando passei por uma montra decorada de Natal cheia de bolas reluzentes e pais natais pachorrentos e me impus o treino forçado para combater o próximo Natal e o outro, talvez ainda o outro e quem sabe todos os Natais doravante. A recusa determinada em não ver, não entrar sequer, ignorar por completo e não ter a mínima das tentações. Assim como quando acabamos uma relação e cortamos com tudo o que faça lembrar o dito cujo, um vai morrer longe enérgico um chega pra lá catártico, quero mas é esquecer que existes, ó Natal. Nada disso. Foi quando num fim de tarde batido pela chuva e numa conversa em alemão sobre o Outono comecei a achar que o Rilke era um visionário e que aquele poema que se me entrava pela alma estava prenhe de referências a esta triste sina lusa. Enquanto a discussão decorria dei por mim a fazer associações ao encontro deste fado lusitano de desgraçados e enjeitados. Podem chamar-lhe intemporalidade, que sim, que quando um poema é lido vive outra vez, muito bem, apelar à estética da recepção e nomear-me como co-autora do texto, perfeito. Nada me convencerá. Quando num insuspeito poema de Rainer Maria Rilke sobre o Outono, o défice, a ajuda externa e a Troika estão presentes já não me resta mais nada. Estou perdida.
Confissões de uma mulher perdida
cronicasnofeminino,

Rilke, dizes tu, Leonor? Talvez mais para o lado dos Holzwege de Heidegger …
Credo, Ivone, não fazes por menos 🙂
Tradução… Será pedir muito?
Dia de Outono
Senhor, foi um verão imenso: é hora.
Estende as tuas sombras nos relógios
de sol e solta os ventos prado afora.
Instiga a sazonarem, com dois dias
a mais de sul, as frutas que, tardias,
conduzes rumo à plenitude, e apura,
no vinho denso, a última doçura.
Quem não tem lar já não terá; quem mora
sozinho há de velar e ler sozinho,
escrever longas cartas e, a caminho
de nada, há de trilhar ruas agora,
enquanto as folhas caem em torvelinho.
(Tradução: Nelson Ascher)
Não tenho palavras para classificar a atenção e a rapidez com que satisfez o meu pedido. Não estou nada habituado a isto. Muito agradecido (agora vou dar atenção ao poema). Bem haja.
De nada, Fernando. Nós aqui gostamos de ver os comentadores satisfeitos 🙂
Uma outra tradução:
Senhor: é tempo. O Verão foi muito longo.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e solta os ventos sobre os campos.
Ordena aos últimos frutos que amadureçam;
dá-lhes ainda dois dias meridionais,
apressa-os para a plenitude e verte
a última doçura no vinho pesado.
Quem agora não tem casa, já não vai construí-la.
Quem agora está só, assim ficará por muito tempo,
velará, lerá, escreverá longas cartas
e vagueará inquieto pelas alamedas acima e abaixo,
quando caírem as folhas.
– Rainer Maria Rilke
(tradução de Maria João Costa Pereira)
outono, folhas caídas, e logo nos assalta à memória a canção:
feuilles mortes / autumn leaves
http://www.youtube.com/watch?v=JWfsp8kwJ to
http://www.youtube.com/watch?v=io1o1Hwpo 8Y
não existisse o outono, não caíssem as folhas, e o rilke não teria escrito este poema e esta canção não seria bem assim.
é a vida, afinal,como diz o outro.
Obrigada, Carlos.
Prefiro a sua segunda proposta. Apesar de tudo e de ser essencialmente um bicho de sol e de calor gosto de Outono.
É fascinante o pode mudar de um tradutor para outro, sem que nenhum deles tenha atraiçoado o espírito do poema. A segunda versão é menos negra, mas, por outro lado, presta-se menos a segundas leituras. Na segunda leio o Outono, na primeira leio a Vida.
Seja como for, enquanto tiveres o Rilke não estás perdida, Leonor.
Por isso é que pus aqui as duas traduções, Ana. Nenhuma retira nada à outra e ambas são fieis ao original.
Humm… com o devido respeito, Leonor, continue perdida e não se encontre, enquanto escrever assim. 🙂
Que saudades, Mike!!! Que bom vê-lo por aqui 🙂 Gentil, como sempre. Beijinho.
Outstanding, Leonor. Este homem dá-nos assim um arrepio na espinha… Como não perdoar tudo a Lou Salomé? 😉 Que dupla.
Gosto muito do poema, Laura.
Uma doidivanas, a Lou Salomé 🙂
Não sei se doidivanas se masoquista, a avaliar pelas doses de leão que lhe calharam na vida… 😉
Safa, Ana… tens toda a razão. Nem em sonhos, já viste? Não sei se diga ‘grandes homens’ se diga ‘grande mulher’…Mesmo assim, grande Lou 🙂
Grande Lou, de facto. Coragem, pelo menos, nunca lhe faltou. 🙂
Masoquismo tem limites, doidivanice não 🙂
Por outro lado, à primeira caem todos, à segunda só cai quem quer e à terceira só quem gosta.