A taxa chata – I


Paulo Sousa,

O Américo é empregado por conta de outrem. Preenche o IRS individualmente, é residente no continente, não tem dependentes a seu cargo, não aufere de outros rendimentos que não sejam do seu trabalho e também não recebe os seus subsídio de natal e férias em duodécimos.

Para tornar o cálculo mais simples excluí deste exercício o subsídio de alimentação, pois se este fosse pago acima ou abaixo da tabela divulgada anualmente pela AT, isso poderia levar a que este exercício se tornasse demasiado elaborado.

Para enquadramento geral podemos imaginar que o Américo nasceu nos anos 80, tem formação superior e já trabalha há dez anos.

A seu salário é de 1.560€, o que para Portugal nem parece mau, mas o que chega à sua conta bancária são apenas 1.120,40€, valor que andará próximo do salário médio nacional. Apesar da lei portuguesa impedir que essa informação conste no seu recibo do salário, este ordenado custa ao seu empregador 1.930,50€. Já aqui postei sobre o mesmo assunto, embora noutra direcção.

Por estar a receber um valor cada vez mais próximo do Salário Mínimo Nacional, o Américo foi falar com o seu patrão. Explicou-lhe o que o seu irmão mais novo, que está a trabalhar na Irlanda há dois anos, recebe mais de 4.000€ por um trabalho idêntico. Por isso pediu-lhe um aumento.

O patrão que receia que o Américo também emigre, decide aumenta-lo. Explica-lhe que gostaria de lhe pagar mais e como ele sabe a empresa está a atravessar dificuldades por causa da pandemia, mas logo que haja condições irá recompensa-lo.

Assim, o patrão decide aumentá-lo em 30€. É um aumento pouco mais do que simbólico, mas é uma forma de se mostrar sensível à exposição do Américo. Este aumento irá custar à empresa 37€ adicionais.

Assim ficamos na seguinte situação:

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Cálculos efectuados através do site Doutor Finanças.

Importa relevar que se o Américo fosse casado ou vivesse e união de facto estes cálculos seriam diferentes. Não que o estado queira saber das opções individuais dos portugueses, pois o Américo podia viver com a Joana, com o João, com quem poderia estar ou não casado. O Estado não quer saber disso para nada, excepto para efeitos fiscais.

Se o Américo vivesse numa das Regiões Autónomas, os valores aqui apresentados seriam também diferentes. Não que os madeirenses ou os açorianos sejam cidadãos diferentes dos demais, pois todos somos iguais perante a lei. Excepto para efeitos fiscais.

Se o Américo tivesse filhos ou outros dependentes a seu cargo, os valores aqui apresentados seriam também diferentes. É óbvio que o país precisa de crianças para se renovar geracionalmente e com o tratamento desigual a quem não tem dependentes a seu cargo, o estado procura promover a renovação geracional. Os mais recentes censos confirmam o sucesso desta variável na fórmula de cálculo do IRS.

Se o patrão do Américo se atrasar no pagamento de um salário e no mês seguinte lhe pagar os dois salários juntos, isso terá de ter um tratamento próprio de forma a que essa duplicação não o faça subir de escalão. Não que o estado queira controlar todos os instantes do que se passa na relação entre o empregador e o empregado, isso é que não. Excepto para efeitos fiscais.

Importa também acrescentar que no período em causa o Américo não auferiu do pagamento de férias não gozadas, não recebeu nenhum subsídio de compensação de encargos familiares (creches, jardins de infância, estabelecimento de educação, lares de idosos e outros serviços ou estabelecimentos de apoio social), nem subsídios destinados ao pagamento de despesas médica e medicamentosa, não beneficiou de refeições tomadas das entidades empregadoras, não recebeu nenhuma indeminização por despedimento ilegal nem nenhuma compensação por cessação do contrato de trabalho, nem ainda nenhum desconto para a aquisição de acções da entidade empregadora. Se algumas destas situações tivesse ocorrido, os cáculos seriam diferentes.

Mais simples é impossível.

20 comentários em “A taxa chata – I”

  1. os trabalhadores, contribuintes privados e reformados têm que sustentar o MONSTRO que recebe a alcunha de estado

    1. Os impostos, tal como o estado, são necessários. A questão que tento apontar é para a elaborada e intrincada complicação que serve de vestimenta à coisa. E como acaba por dissuadir o trabalho e a criação de riqueza.

      1. dispenso qualquer estado
        políticos são na generalidade LIXO HUMANOA
        domingo assustam o Covid
        ainda não ouvi falar que o Coronavirus foi responsável pela morrinhas dos porcos alentejanos em 47 e 49
        a imunidade de grupo emigrou clandestinamente
        ler Prof. Didier Raoul in Carnets de guerre

  2. Se o Américo trabalhasse nas estufas em Odemira já não tinha problemas, recebia o seu justo salário em dinheiro vivo e sem descontos. Isto sim é que é simples.

      1. Isto é sempre conversa de café, é como a subcontratação, o explorador do trabalhador recebe mais do que o proprio trabalhador, e os descontos vão para a segurança social quando vão. Mas claro que isto é impossível num estado de direito.
        Num estado de direito isto só existe até se descobrir e quando se descobre toda a gente fiica escandalizada até se esquecer, porque depois fica tudo igual. A não ser que eu esteja enganado e os trabalhadores em Odemira já tenham uma vida digna.

  3. Que eu saiba, as taxas de IRS são taxas marginais. Ou seja, as novas taxas somente se aplicam a novos rendimentos. Portanto, é impossível que, se o patrão aumenta o salário de um trabalhador, o trabalhador passe a receber menos dinheiro líquido.
    Será que estou enganado?

    1. Não está enganado se excluirmos subsídios e outras leis em vigor que vão contra a Constituição. Aliás o próprio IRS vai contra a Constituição que no seu artigo 13 diz que ninguém pode ser discriminado por razões financeiras.

      Isto é a retenção na fonte. Em principio depois será devolvido.

  4. Muito bom. Isso não assinalando que para tirar o possível proveito das mencionadas excepções o Américo tem que pagar a um especialista. Sem falar de umas tantas idas à AT para correções que nem por lá são bem controladas…
    A “flat tax” evitaria despesas não produtivas, burocráticas, ao Américo e, curiosamente mas não menos importante, ao Estado!!!!.

    1. O estado consome igualmente muita energia e perde muitos processos administrativos. Há muita gente que consome a suas horas de trabalho, dando o melhor de si para alimentar uma máquina infernal, voraz e ineficiente. É disso que também falamos quando se avalia a produtividade.

      1. Há muita gente que consome a suas horas de trabalho, dando o melhor de si para alimentar uma máquina infernal, voraz e ineficiente.

        Conheço uma pessoa empregada pela Nestlé para corrigir erros de faturação. O que quer dizer que também no setor privado “há muita gente que consome a suas horas de trabalho, dando o melhor de si” para corrigir erros burocráticos.

        1. Balio, essa pessoa foi contratada para corrigir erros das facturas emitidas pela Nestlé, ou nas facturas de fornecimentos à Nestlé?
          A primeira hipótese não faz sentido, pois acredito que a Nestlé adopta práticas administrativas em que a função controle tem um lugar importante, e onde erros dos seus serviços de facturação, ou não existem, ou são prontamente corrigidos; quanto à segunda hipótese, controlar as facturas recebidas dos fornecedores, é prática obrigatória nas empresas bem organizadas. Mas controlar facturas, não tem em vista corrigir erros de facturação, mas, sim, verificar se as quantidades e os preços estão de acordo com o encomendado e se os serviços ou os produtos foram convenientemente recepcionados. E quando são encontrados erros frequentes dados por determinados fornecedores, é motivo para arrebitar as orelhas…
          Concluindo, não se entende o que aqui veio dizer a propósito das máquinas administrativas infernais, adoptadas por muitos departamentos do Estado.

  5. É sempre possível acontecer aumentos de 30€, ou menos. E também concordo que existem demasiados escalões, mas não concordo com a taxa única. Porque num modelo de taxa única muitas outras coisas que não se pagam se passariam a pagar e aí talvez não compensasse.

    Mas no caso em questão diria que o empregador com medo que o Américo emigrasse só o aumenta 30€ não revela muito interesse no Américo E se o Américo aceita também não é muito inteligente

      1. Leio pertinho de si (50Km para norte)
        Li de novo o postal e uma parte do postal interpretei mal (quando li a primeira vez percebi que ele tinha recebido uma proposta de 4000€ na Irlanda, mas não foi assim)
        Sendo assim a segunda frase do 2 paragráfo está feita com base numa interpretação errada.

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