
Na Sicília da segunda metade do século XIX, durante a campanha militar e política que conduziu à formação do Estado italiano, ruía o velho mundo ancorado na aristocracia rural. Outro emergia, movido pela burguesia urbana e pelos sabres de Garibaldi, que prometiam iluminar o novo país com as luzes do liberalismo já tardio.
Gera-se naquela rude paisagem mantida inalterada desde tempos imemoriais um confronto larvar entre os antigos leopardos, personificados em D. Fabrizio Corbera, príncipe de Salina, e os jovens chacais sedentos de poder que erguiam a bandeira tricolor do Rissorgimento como símbolo de mudança, prontos a varrer os atavismos. De um desses astutos chacais, o seu sobrinho Tancredi (que chegará a deputado e embaixador em Lisboa), o idoso príncipe aprenderá uma preciosa lição: há que mudar aparentemente tudo «para que tudo permaneça como está».
Eis a própria essência de um espírito conservador, contrariando o determinismo histórico. Sucedeu à Itália em geral, confirmando o acerto de Tancredi à luz dos princípios de D. Fabrizio: ceder alguma coisa é o preço necessário para evitar cedências máximas. Naquele contexto, a monarquia unificada sob o estandarte dos Saboia impedia um regime republicano. Como, oito décadas depois, o derrube da monarquia que se vergara a Mussolini e a implantação da república com matriz democrata-cristã deteve o avanço do comunismo. As mudanças à superfície, por mais efervescentes que pareçam, não iludem a característica imutável da natureza humana: transitórias e precárias serão sempre as instituições que a servem.
Incontáveis livros enaltecem as transformações sociais. O Leopardo fala-nos com indisfarçável melancolia do que permanece imune a todas as mudanças. Obra póstuma de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, é um texto muito citado, mas inimitável: saga familiar sem se esgotar no tema da família, romance ‘histórico” que descrê da História.

Eis a própria essência de um espírito conservador: ceder alguma coisa é o preço necessário para evitar cedências máximas.
Exatamente. Muito bem escrito.
O espírito conservador é portanto um espírito essencialmente anto-contraditório.
E a contradição reside em ter sempre que determinar o que ceder, e quando, para evitar a cedência máxima.
Como escreveu Carlos Pujol, «querer ser moderno é um disparate: inevitavelmente o somos e não menos fatalmente deixaremos de sê-lo».
Indisfarçável e elegante – tão elegante – melancolia. Pelo menos na tradução (de José Colaço Barreiros) em que li, e reli, esta soberba obra. E que seguramente não traiu o original.
Um dos meus livros preferidos de sempre. Daqueles que têm sempre algo novo a dizer-nos a cada releitura.
A forma tem muita importância. Não deixa de ser verdade, nem deixará, ainda que isso seja mais e mais desvalorizado por estes tempos. Também na literatura, definitivamente não basta – não deveria bastar – que se perceba o que se quis dizer, a forma como isso é dito é tantas vezes tão ou mais importante (mesmo na forma mais básica; e falta descobrir, por exemplo e se isso for de todo possível, coisa de que crescentemente descreio, como levar um “acordita” a percebê-lo).
Exactamente. De acordo com as suas palavras.
Segundo li, o livro é baseado na vida de um antepassado do autor. Terá sido em Giuseppe Garibaldi, o herói mais querido e admirado da unificação italiana?
Não. Garibaldi, a bem dizer, situava-se no quadrante oposto.
Pensei que fosse porque Garibaldi foi um dos responsáveis pela unificação da Itália e um defensor acérrimo da liberdade dos povos.
Garibaldi unificou os povos de Itália pela força das armas.
Essa será uma das definições de liberdade, com ou sem aspas. Mas haverá outras.
O poeta nicaraguense Rúben Darío descreveu-o como um “prodigioso mosqueteiro da Liberdade e aventureiro da Glória ” e a sua fama adquiriu dimensões epopeicas a partir de 1860, ano em que derrotou um dos exércitos mais organizados dos antigos Estados italianos: o de Bourbon.
Depois da sua morte milhares de autarquias italianas dedicaram-lhe praças ou ruas e a sua imagem transformou-se no símbolo da unidade italiana.
Talvez a força das armas tivesse sido necessária para impor uma república democrática unida, quem sabe?
É possível. Quando não vai a bem, vai à força.
“Talvez a força das armas tivesse sido necessária para impor uma república democrática unida, quem sabe?”
Ou seja não lutou pela Liberdade. Lutou pela União mesmo que à força.
Ainda hei-de ler o livro. Gosto demais do filme que o livro inspirou.
O filme do Visconti é fascinante. Um dos dez melhores filmes que vi desde sempre.