Pânico no supermercado


Pedro Correia,

Início da tarde, num dos supermercados do bairro de Lisboa onde moro. Estou na fila para pagar. Uma fila composta só por duas pessoas. Lá adiante, na caixa, um terceiro cliente. Paro a quase três metros da mulher que se encontra antes de mim. Tem quarenta e muitos. 

Ela vira-se de imediato e dispara, em tom agressivo:

– Não se importa de chegar mais para trás?

Respondo perguntando, como sempre faço:

– Recuar para quê?

– Ainda pergunta? Não está a cumprir a distância de segurança. 

– Estou, estou. Mas já que se sente tão incomodada, avance. Tem imenso espaço aí à sua frente.

Ela começa a falar quase aos gritos, atraindo atenções.

– Outro atrasado mental! É por isto que quase não saio de casa, para não aturar estes atrasados mentais!

De máscara na cara, como a etiqueta sanitária impõe, mantenho-me impávido. E só lhe digo, em tom normalíssimo:

– Não baixe o nível. E fale pouco, para não espalhar o vírus.

Ela solta uma espécie de grito e abandona o carrinho que empurrava. A caixa fica desimpedida. Avanço para lá sem mais demora.

Desistiu das compras, vejo-a falar com um segurança à entrada do supermercado, gesticulando imenso e apontando na minha direcção antes de desaparecer no horizonte. Ele ouve-a sem esboçar a menor reacção.

Pago e arrumo as escassas compras. Passo pelo segurança e pergunto-lhe:

– Algum problema?

Diz ele, com um esgar em jeito de sorriso:

– Todos os dias aparece aqui gente muito nervosa. Cada vez mais. Pessoas que passam muitos dias fechadas em casa e ficam em pânico quando vêm à rua.

 

 

Portugal, mês XII da pandemia: retrato do nosso triste quotidiano. Nada de bom sairá daqui.

70 comentários em “Pânico no supermercado”

  1. “Não baixe o nível. E fale pouco, para não espalhar o vírus.”

    É uma excelente táctica adoptada pelo Pedro para passar a frente das pessoas.
    Eu não era capaz de o fazer, mas há gente para tudo! De qualquer forma é lamentável a sua observação em tempos pandémicos.

    1. é lamentável a sua observação em tempos pandémicos

      Não é, não. Respirar ou falar normalmente não deita vírus cá para fora. Mas falar de uma foma energética (gritar, ou cantar) deita muitos. Em tempos pandémicos, não gritar é uma excelente recomendação.

      1. “Ela solta uma espécie de grito e abandona o carrinho “
        ???
        Alguma coisa assustou a senhora de 40 e tal anos …. abandonar as suas compras assim sem mais nem menos…isto está mal contado… aqui há gato!

  2. Compreendo a atitude do Pedro, mas acho que teria sido melhor ele ter feito a vontade à senhora e ter-se chegado um bocado para trás. Ajudou-a a criar um conflito sem necessidade nem benefício para ninguém.

      1. Havia muito espaço à frente dela precisamente porque ela queria manter um grande distanciamento social. É uma opção legítima, desde que não falte espaço no supermercado para fazer fila. Ninguém precisa de estar numa fila colado ao tipo da frente. A fila não anda mais depressa por causa disso.
        Repito que, se fôr esse o caso (não faltar espaço no supermercado), mais valêra o Pedro ter feito a vontade à senhora e recuado um bocado. Poupava uma discussão inútil, que chateou tanto o Pedro como a senhora (e como o segurança).

  3. Há pessoas em diferentes estados de pânico. Conheço uma que toca nos botões do elevador com uma chave, porque teme que os botões estejam infetados. Outra que diz desinfetar tudo o que traz consigo antes de entrar em casa, por medo que as compras estejam infetadas. Ainda outra que diz que se despe e coloca toda a roupa na máquina de lavar mal chega a casa, por receio que a roupa esteja infetada.
    São diferentes graus de uma paranoia coletiva.

    1. Tocar em botões de elevador com uma chave! É paranóia ou prudência? Nos botões tocam imensas pessoas.

      1. A prudência, quando demasiada, torna-se uma paranoia. Em minha opinião, ter medo de tocar naquilo que foi tocado por outras pessoas é paranoia. Mas, é claro, há outras opiniões.

  4. É para vermos quem de facto somos, nós, os ditos «Humanos».
    O confinamento revela-nos.
    Por isso, é que passei a comentar com SAP2i, aqui no Delito, em vez de Pedro Manuel-Cardoso. Para fugir a sete pés da humanidade.
    Prefiro comentar a partir do meu “Mundo-do-Além”, com o “Impronuncialismo” da minha pós-humanidade…que, Há-de Vir.

  5. Este texto é quase uma nota de culpa: A não utilização de duas máscaras leva que o espaçamento deva ser de seis metros em vez de Três.
    Esses seguranças de supermercado em vez de restabelecerem a ordem, viram a cara para o lado e assim o prevaricador passa incólume sem nenhuma punição digna de registo. E ainda tem a lata de intimidar perguntando se há algum problema, ao segurança.

    Joana Sampaio

    1. Peço desculpa mas a utilização de duas máscaras leva a que o espaçamento seja de cinco metros e noventa e cinco centímetros e não seis metros, sejamos honestos nas medidas.
      E para evitar estes abusos devia ser obrigatório o uso de uma fita métrica FFP2 devidamente calibrada.

  6. O senhor Costa e o senhor Marcelo deve estar muito contentes.
    Conseguiram o que a ditadura não conseguiu. Subjugar, humilhar e transformar os tugas em coreanos de terceira categoria.

  7. A questão que se coloca é saber como ter presença de espírito para contornar situações como essas, com tantos histéricos e fundamentalistas à solta seja nos supermercados seja noutros espaços reais ou virtuais onde deambulamos. Se calamos, consentimos na tolice; se contrariamos damos azo a um interminável rol de despropósitos.

  8. Isso é o resultado de todo este alarme social, este martelar constante de números só da pandemia. E o poder subrepticio que estas normas absurdas de contenção atribuem às pessoas, só faz aumentar a ansiedade e a insanidade mental. A continuar assim qualquer dia desata tudo à mocada, com e sem distanciamento físico

      1. Imagine o que é que eu já ouvi só por ter o nariz fora da máscara. Infelizmente por causa da profissão estou quase surdo, mas nestas ocasiões até me faço surdo mudo.

  9. Tenho muitas histórias dessas, bem antes da pandemia.
    Mas a razão é mesmo ser feio e não ser boa companhia, daí as senhoras (dos 18 aos 48) me mandarem recuar.

    falando num tom menos sério, a malta anda nervosa. Uns atropelados pelo medo, outros por ignorância, alguns já completamente passados da cabeça por um ano de confinamento (e sabe-se lá mais o quê… desemprego, doença). Há aquelas manias nas redes de “o mundo divide-se em”, e neste momento o mundo divide-se entre aqueles que não querem alguém num raio de 3 metros e aqueles que andam de máscara com o nariz de fora. Está tudo doido.

    1. “aqueles que andam de máscara com o nariz de fora. “

      Essa é das coisas que me faz pensar que agem por imitação. É como aqueles que vão para a Universidade não se interessando se aprendem alguma coisa, só querem um qualquer canudo.

      1. “aqueles que andam de máscara com o nariz de fora. “

        Também é preocupante aqueles que andam de braguilha aberta e sabe-se lá mais o quê…

      2. O problema não é andar de máscara com o nariz de fora, o problema é a máscara. Eu ponho a máscara só para os comerciantes não apanharem multa, e não pela pseudo protecção que dizem que faz. Ser obrigado a respirar por um trapo cheio de bactérias, fungos e vírus não faz parte das minhas normas de higiene, além de me dificultar a respiração. Se há pessoas que se sentem bem em andar de máscara, tudo bem, ninguém as impede, agora eu ser obrigado a respirar por um filtro? Não obrigado.

  10. Era uma feminista, com uma nova variante, pois queria que o homem se afastasse podendo ela dar um passo em frente.
    Mas tentou que o segurança lhe desse um apoiozito. Vá-se lá entender o feminismo em tempos de pandemia. Um gajo nunca sabe qual a próxima variante.

  11. Lá esta a mensagem subliminar no texto do autor, o implícito negacionismo, o incentivo a desordem social e pior ainda o do consumismo desbragado.

  12. Mais grave que a epidemia em si é a doença mental que está a provocar. Conheço uma pessoa idosa que tinha medo de sair de casa por causa do vírus e estava a dar em doida no apartamento. Já nem conseguia dormir à noite por causa dos mortos da TV. As doenças do foro psicológico são sérias e têm sido potenciadas pela comunicação social.
    Agora uma nota mais positiva: na semana passada, numa aldeia próxima, vi um banco de jardim selado com fitas vermelhas. E ao lado um velhote apanhava sol numa cadeira de praia trazida de casa. 🙂

      1. Com os delatores que andam por aí… deixemos o velhote aumentar os níveis de vitamina D e de seratonina.
        Essa estadia “ilegal” ao Sol pode até ter salvo a sua vida.

    1. Magnífico Susana V. Aqui ao lado há dois bancos que estão nesse estado vedado. Os velhotes do bairro que sempre se sentavam ali convivendo na modorra soalheira ficaram agora condenados a … sentarem-se no pequeno murete por detrás.

      1. Muito bom… 😀
        Nas aldeias quase desabitadas do interior, o facto de os bancos de jardim estarem vedados causa-me alguma estupefacção.
        E na verdade, eu vejo uma grande sabedoria no facto de estes velhotes continuarem de pedra e cal no seu local habitual. Afinal, apanhar sol promove a produção de vitamina D que tem sido apontada como um dos mais eficientes adjuvantes na luta do organismo contra a Covid19. E também é bom para o humor.

  13. Já passei por tal. Agora, nada digo. Fico quieto e calado. Não me mexo. Aguardo o desenrolar de eventos. São preciso dois, para valsa. Não valso. destemperamentalidades. Não inflamo. Quieta non movere.

  14. Agora existem os polícias da Covid. Comigo aconteceu 1 dia antes de entrar em vigor o uso da máscara, em Maio. Fui chamada à atenção por ter baixado 5 segundos para respirar. Fiz queixa da funcionária para o departamento comercial. Uso máscara desde Março, note-se. Em pleno dia de eleições a senhora à minha frente estava com o distanciamento legal mas frisou “não se aproxime”. Depois, apareceu outra senhora, de outra mesa, e que de modo excessivamente autoritário disse “tem de estar nesse círculo, percebeu?”. Respondi lhe que não me dava ordens, se era da CNE ou da junta de freguesia.
    A última foi na semana passada. Fui a um multibanco. A porta estava aberta, só podendo estar 2 pessoas lá dentro. Um dos multibancos estava avariado. Fiz duas operações simples que a minha familiar direta me tinha pedido. Eis que ouço “está a demorar, está a contar o dinheiro”. Dirigi me áquelas pessoas e disse lhes que direito tinham de controlar os outros, se não lhes bastava a pandemia e as doenças graves. “mais respeito e mais tolerância”.

  15. 1. visão deturpada da realidade
    2. a culpa é sempre dos outros
    3. estúpida e mal-educada

    diagnóstico: socialista hardcore

    1. Pois, V, a PIDE acabou felizmente há muitos anos… e para controle já basta o controle pandémico. Cada cidadão sabe perfeitamente qual a sua responsabilidade individual para consigo e para com os outros. Fale de cátedra mas com nível. Fique bem.

      1. Nível?

        A PIDE acabou — mas o que me parece é que vocês andam com vontade de fazer outra. Aposto que você tinha jeito.

  16. Por todas as perdas economicas que houveram desde Março, o governo tinha comprado fatos Hazmat e máscaras fp2, para distriuir aos medrosos, e deixava os Daredevils fazerem a vida que quisessem

  17. Exageros destes, vão do 8 ao 80. Nem sei como os fabricantes de redomas de vidro ainda não enriqueceram. Ou então não estudaram bem os nichos de mercado, porque o público-alvo está cada vez mais exigente e paranoico.

    1. Redomas ambulantes em acrílico. Aí está um negócio que só pode render bom dinheirinho estando as coisas como estão, Maria Dulce.
      Cada um (e cada uma) sai de casa envolto nessa redoma. Além da dupla máscara, da viseira e das luvas e de galochas protectoras. E se tiver cãozinho faz o mesmo ao bicho, não vá ele depois levar “aquilo” lá para casa.

      1. “Há-de vir muito pior.”?

        A vacina que aos poucos nos transformará em autômatos zombies?

        Aqui está ele o arauto da desgraça… que transforma simples faits divers em dramas novelescos.

        Tó Mariano

        1. Não é preciso haver profetas da desgraça. Mais de 15 mil mortos depois, mais de 700 mil infectados (oficiais) depois, com uma gestão catastrófica da pandemia por um governo inepto, com a maior queda do PIB português desde 1928, a realidade encarrega-se disso.
          Excepto para aqueles que, como tu, andam de cabeça enfiada num buraco.

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