Início da tarde, num dos supermercados do bairro de Lisboa onde moro. Estou na fila para pagar. Uma fila composta só por duas pessoas. Lá adiante, na caixa, um terceiro cliente. Paro a quase três metros da mulher que se encontra antes de mim. Tem quarenta e muitos.
Ela vira-se de imediato e dispara, em tom agressivo:
– Não se importa de chegar mais para trás?
Respondo perguntando, como sempre faço:
– Recuar para quê?
– Ainda pergunta? Não está a cumprir a distância de segurança.
– Estou, estou. Mas já que se sente tão incomodada, avance. Tem imenso espaço aí à sua frente.
Ela começa a falar quase aos gritos, atraindo atenções.
– Outro atrasado mental! É por isto que quase não saio de casa, para não aturar estes atrasados mentais!
De máscara na cara, como a etiqueta sanitária impõe, mantenho-me impávido. E só lhe digo, em tom normalíssimo:
– Não baixe o nível. E fale pouco, para não espalhar o vírus.
Ela solta uma espécie de grito e abandona o carrinho que empurrava. A caixa fica desimpedida. Avanço para lá sem mais demora.
Desistiu das compras, vejo-a falar com um segurança à entrada do supermercado, gesticulando imenso e apontando na minha direcção antes de desaparecer no horizonte. Ele ouve-a sem esboçar a menor reacção.
Pago e arrumo as escassas compras. Passo pelo segurança e pergunto-lhe:
– Algum problema?
Diz ele, com um esgar em jeito de sorriso:
– Todos os dias aparece aqui gente muito nervosa. Cada vez mais. Pessoas que passam muitos dias fechadas em casa e ficam em pânico quando vêm à rua.
Portugal, mês XII da pandemia: retrato do nosso triste quotidiano. Nada de bom sairá daqui.

“Não baixe o nível. E fale pouco, para não espalhar o vírus.”
É uma excelente táctica adoptada pelo Pedro para passar a frente das pessoas.
Eu não era capaz de o fazer, mas há gente para tudo! De qualquer forma é lamentável a sua observação em tempos pandémicos.
Não cobro direitos de autor. Nem registei patente. Pode imitar-me à vontade.
é lamentável a sua observação em tempos pandémicos
Não é, não. Respirar ou falar normalmente não deita vírus cá para fora. Mas falar de uma foma energética (gritar, ou cantar) deita muitos. Em tempos pandémicos, não gritar é uma excelente recomendação.
“Ela solta uma espécie de grito e abandona o carrinho “
???
Alguma coisa assustou a senhora de 40 e tal anos …. abandonar as suas compras assim sem mais nem menos…isto está mal contado… aqui há gato!
Se calhar foi uma abelha que a picou. Em flagrante desrespeito pelo “distanciamento social”.
Compreendo a atitude do Pedro, mas acho que teria sido melhor ele ter feito a vontade à senhora e ter-se chegado um bocado para trás. Ajudou-a a criar um conflito sem necessidade nem benefício para ninguém.
Havia muito mais espaço à frente dela do que atrás de mim.
Havia muito espaço à frente dela precisamente porque ela queria manter um grande distanciamento social. É uma opção legítima, desde que não falte espaço no supermercado para fazer fila. Ninguém precisa de estar numa fila colado ao tipo da frente. A fila não anda mais depressa por causa disso.
Repito que, se fôr esse o caso (não faltar espaço no supermercado), mais valêra o Pedro ter feito a vontade à senhora e recuado um bocado. Poupava uma discussão inútil, que chateou tanto o Pedro como a senhora (e como o segurança).
Não me chateou nada. Fiquei com mais uma “história do confinamento” para contar.
Há pessoas em diferentes estados de pânico. Conheço uma que toca nos botões do elevador com uma chave, porque teme que os botões estejam infetados. Outra que diz desinfetar tudo o que traz consigo antes de entrar em casa, por medo que as compras estejam infetadas. Ainda outra que diz que se despe e coloca toda a roupa na máquina de lavar mal chega a casa, por receio que a roupa esteja infetada.
São diferentes graus de uma paranoia coletiva.
Paranóia colectiva é o termo adequado.
Tocar em botões de elevador com uma chave! É paranóia ou prudência? Nos botões tocam imensas pessoas.
Prudência nunca é de mais. Nem é preciso mencionar botões: basta sabões, quando escorregam na banheira.
A prudência, quando demasiada, torna-se uma paranoia. Em minha opinião, ter medo de tocar naquilo que foi tocado por outras pessoas é paranoia. Mas, é claro, há outras opiniões.
Se não é paranóia anda lá muito perto. Demasiado perto.
É para vermos quem de facto somos, nós, os ditos «Humanos».
O confinamento revela-nos.
Por isso, é que passei a comentar com SAP2i, aqui no Delito, em vez de Pedro Manuel-Cardoso. Para fugir a sete pés da humanidade.
Prefiro comentar a partir do meu “Mundo-do-Além”, com o “Impronuncialismo” da minha pós-humanidade…que, Há-de Vir.
Não se preocupe. Aqui ninguém o manda dar passos para trás.
Este texto é quase uma nota de culpa: A não utilização de duas máscaras leva que o espaçamento deva ser de seis metros em vez de Três.
Esses seguranças de supermercado em vez de restabelecerem a ordem, viram a cara para o lado e assim o prevaricador passa incólume sem nenhuma punição digna de registo. E ainda tem a lata de intimidar perguntando se há algum problema, ao segurança.
Joana Sampaio
Era você?
Agora já estamos em 6 metros, não eram 2 , não eram 3?
Peço desculpa mas a utilização de duas máscaras leva a que o espaçamento seja de cinco metros e noventa e cinco centímetros e não seis metros, sejamos honestos nas medidas.
E para evitar estes abusos devia ser obrigatório o uso de uma fita métrica FFP2 devidamente calibrada.
Que delícia de comentário!
Ah!Ah!Ah!
Catarina Silva
Usar duas máscaras não dará uma dupla sensação de falsa segurança?
O senhor Costa e o senhor Marcelo deve estar muito contentes.

Conseguiram o que a ditadura não conseguiu. Subjugar, humilhar e transformar os tugas em coreanos de terceira categoria.
Há pessoas que se portam como bichos. Ou ainda pior. Boas perspectivas para os psiquiatras: não lhes vai faltar clientela durante largos anos.
A questão que se coloca é saber como ter presença de espírito para contornar situações como essas, com tantos histéricos e fundamentalistas à solta seja nos supermercados seja noutros espaços reais ou virtuais onde deambulamos. Se calamos, consentimos na tolice; se contrariamos damos azo a um interminável rol de despropósitos.
Eu não consinto. Recuso viver numa sociedade proto-totalitária. E o totalitarismo começa sempre com pequenos gestos de matriz autoritária.
Isso é o resultado de todo este alarme social, este martelar constante de números só da pandemia. E o poder subrepticio que estas normas absurdas de contenção atribuem às pessoas, só faz aumentar a ansiedade e a insanidade mental. A continuar assim qualquer dia desata tudo à mocada, com e sem distanciamento físico
Há pessoas que se comportam hoje como habitantes de abrigos atómicos numa guerra nuclear.
Eu acrescento: há pessoas que se comportam como se o mundo fosse uma imensa gafaria. Haja pachorra!
Dno
Permanecendo meses no porão, até entontecem ao sentir a brisa quando finalmente sobem ao convés.
Imagine o que é que eu já ouvi só por ter o nariz fora da máscara. Infelizmente por causa da profissão estou quase surdo, mas nestas ocasiões até me faço surdo mudo.
Imagino…
Tenho muitas histórias dessas, bem antes da pandemia.
Mas a razão é mesmo ser feio e não ser boa companhia, daí as senhoras (dos 18 aos 48) me mandarem recuar.
falando num tom menos sério, a malta anda nervosa. Uns atropelados pelo medo, outros por ignorância, alguns já completamente passados da cabeça por um ano de confinamento (e sabe-se lá mais o quê… desemprego, doença). Há aquelas manias nas redes de “o mundo divide-se em”, e neste momento o mundo divide-se entre aqueles que não querem alguém num raio de 3 metros e aqueles que andam de máscara com o nariz de fora. Está tudo doido.
É mesmo. Uns comportam-se como se não houvesse amanhã, outros apavoram-se com tudo quanto mexe.
“aqueles que andam de máscara com o nariz de fora. “
Essa é das coisas que me faz pensar que agem por imitação. É como aqueles que vão para a Universidade não se interessando se aprendem alguma coisa, só querem um qualquer canudo.
“aqueles que andam de máscara com o nariz de fora. “
Também é preocupante aqueles que andam de braguilha aberta e sabe-se lá mais o quê…
O problema não é andar de máscara com o nariz de fora, o problema é a máscara. Eu ponho a máscara só para os comerciantes não apanharem multa, e não pela pseudo protecção que dizem que faz. Ser obrigado a respirar por um trapo cheio de bactérias, fungos e vírus não faz parte das minhas normas de higiene, além de me dificultar a respiração. Se há pessoas que se sentem bem em andar de máscara, tudo bem, ninguém as impede, agora eu ser obrigado a respirar por um filtro? Não obrigado.
Uma das leis da sobrevivência das espécies é a imitação dos comportamentos dominantes no grupo.

Era uma feminista, com uma nova variante, pois queria que o homem se afastasse podendo ela dar um passo em frente.
Mas tentou que o segurança lhe desse um apoiozito. Vá-se lá entender o feminismo em tempos de pandemia. Um gajo nunca sabe qual a próxima variante.
Esse homem era o Pedro Correia que mirava a retaguarda da senhora a 3 metros de distância.
Já pensei levar fita métrica. Mas parece-me ser fraco antídoto contra a histeria.
Lá esta a mensagem subliminar no texto do autor, o implícito negacionismo, o incentivo a desordem social e pior ainda o do consumismo desbragado.
Não deixo de concordar com este anónimo das 12.32. Detecto no postal exactamente essa malevolência do autor.
Nada como um anónimo para saber decifrar as entrelinhas.
Mais grave que a epidemia em si é a doença mental que está a provocar. Conheço uma pessoa idosa que tinha medo de sair de casa por causa do vírus e estava a dar em doida no apartamento. Já nem conseguia dormir à noite por causa dos mortos da TV. As doenças do foro psicológico são sérias e têm sido potenciadas pela comunicação social.
Agora uma nota mais positiva: na semana passada, numa aldeia próxima, vi um banco de jardim selado com fitas vermelhas. E ao lado um velhote apanhava sol numa cadeira de praia trazida de casa. 🙂
Merecia uma fotografia, Susana.
Com os delatores que andam por aí… deixemos o velhote aumentar os níveis de vitamina D e de seratonina.
Essa estadia “ilegal” ao Sol pode até ter salvo a sua vida.
Magnífico Susana V. Aqui ao lado há dois bancos que estão nesse estado vedado. Os velhotes do bairro que sempre se sentavam ali convivendo na modorra soalheira ficaram agora condenados a … sentarem-se no pequeno murete por detrás.
Muito bom… 😀
Nas aldeias quase desabitadas do interior, o facto de os bancos de jardim estarem vedados causa-me alguma estupefacção.
E na verdade, eu vejo uma grande sabedoria no facto de estes velhotes continuarem de pedra e cal no seu local habitual. Afinal, apanhar sol promove a produção de vitamina D que tem sido apontada como um dos mais eficientes adjuvantes na luta do organismo contra a Covid19. E também é bom para o humor.
Os velhotes tinham chapéu ?
É que sol a mais na cabeça faz mal!
Chapéus há muitos, seu palerma…
Já passei por tal. Agora, nada digo. Fico quieto e calado. Não me mexo. Aguardo o desenrolar de eventos. São preciso dois, para valsa. Não valso. destemperamentalidades. Não inflamo. Quieta non movere.
Estou quase a chegar a essa fase, meu caro. Mas ainda não cheguei lá.
Agora existem os polícias da Covid. Comigo aconteceu 1 dia antes de entrar em vigor o uso da máscara, em Maio. Fui chamada à atenção por ter baixado 5 segundos para respirar. Fiz queixa da funcionária para o departamento comercial. Uso máscara desde Março, note-se. Em pleno dia de eleições a senhora à minha frente estava com o distanciamento legal mas frisou “não se aproxime”. Depois, apareceu outra senhora, de outra mesa, e que de modo excessivamente autoritário disse “tem de estar nesse círculo, percebeu?”. Respondi lhe que não me dava ordens, se era da CNE ou da junta de freguesia.
A última foi na semana passada. Fui a um multibanco. A porta estava aberta, só podendo estar 2 pessoas lá dentro. Um dos multibancos estava avariado. Fiz duas operações simples que a minha familiar direta me tinha pedido. Eis que ouço “está a demorar, está a contar o dinheiro”. Dirigi me áquelas pessoas e disse lhes que direito tinham de controlar os outros, se não lhes bastava a pandemia e as doenças graves. “mais respeito e mais tolerância”.
Que tristes figuras toda essa gente faz.
1. visão deturpada da realidade
2. a culpa é sempre dos outros
3. estúpida e mal-educada
diagnóstico: socialista hardcore
Será a Ministra da saúde?
Não. Se fosse, eu estaria muito próximo dela.
Ahahahh Ahahahh 😀
Pois, V, a PIDE acabou felizmente há muitos anos… e para controle já basta o controle pandémico. Cada cidadão sabe perfeitamente qual a sua responsabilidade individual para consigo e para com os outros. Fale de cátedra mas com nível. Fique bem.
Nível?
A PIDE acabou — mas o que me parece é que vocês andam com vontade de fazer outra. Aposto que você tinha jeito.
Por todas as perdas economicas que houveram desde Março, o governo tinha comprado fatos Hazmat e máscaras fp2, para distriuir aos medrosos, e deixava os Daredevils fazerem a vida que quisessem
Exageros destes, vão do 8 ao 80. Nem sei como os fabricantes de redomas de vidro ainda não enriqueceram. Ou então não estudaram bem os nichos de mercado, porque o público-alvo está cada vez mais exigente e paranoico.
Redomas ambulantes em acrílico. Aí está um negócio que só pode render bom dinheirinho estando as coisas como estão, Maria Dulce.
Cada um (e cada uma) sai de casa envolto nessa redoma. Além da dupla máscara, da viseira e das luvas e de galochas protectoras. E se tiver cãozinho faz o mesmo ao bicho, não vá ele depois levar “aquilo” lá para casa.
É bem triste.
Ao que nós chegámos, meu Deus!
Isto ainda não é nada. Há-de vir muito pior.
“Há-de vir muito pior.”?
A vacina que aos poucos nos transformará em autômatos zombies?
Aqui está ele o arauto da desgraça… que transforma simples faits divers em dramas novelescos.
Tó Mariano
Não é preciso haver profetas da desgraça. Mais de 15 mil mortos depois, mais de 700 mil infectados (oficiais) depois, com uma gestão catastrófica da pandemia por um governo inepto, com a maior queda do PIB português desde 1928, a realidade encarrega-se disso.
Excepto para aqueles que, como tu, andam de cabeça enfiada num buraco.