Tudo começou com a democratização do ensino. Algo que urgia, mas que esbarrou num mercado de trabalho impreparado. Num país sem investigação nem iniciativa empresarial nas mais diversas áreas, não havia lugar para muitos licenciados. Por isso no fim da linha tantos passaram a desembocar no desemprego, na emigração, ou na precariedade. A desvalorização do trabalho intelectual inicia-se assim, em meados dos anos 80, rumo à proletarização das mais diversas profissões, sobretudo na área de humanidades, mas não só.
Hoje é comum um empresário pagar mais à empregada que lhe limpa a casa do que aos licenciados que emprega no seu escritório. Isto porque as empregadas domésticas, ao contrário destes novos proletários, beneficiam da lei da oferta e da procura.
Com a crise pandémica esta vulnerabilidade aumentou. Sei de gente que esteve seriamente doente e que nunca parou de trabalhar. Isto de o trabalho intelectual poder ser feito à distância tem sido – para muitos doentes COVID e não só – uma dificuldade acrescida. Porque a entidade empregadora presume que em casa, mesmo doente, dá para ir trabalhando.
Esta pressão verifica-se sobretudo junto dos que trabalham em PME’s. Como estas constituem, como se sabe, a esmagadora maioria do tecido empresarial português, estamos a falar de muita gente. De profissionais cujas equipas se resumem, tantas vezes, a eles próprios. Em cujas funções sabem ser insubstituíveis. Circunstância que não os beneficia, pelo contrário. Pois se não podem parar, se porventura um dia o fizerem, pode significar o fim de um contrato de trabalho.
Mas entre os profissionais que não podem trabalhar à distância também vejo muitos a arriscar todos os dias um possível contágio, porque aceitam trabalhar sem condições de segurança e o motivo é sempre o mesmo: a precariedade endémica que os faz ceder a cumplicidades que lhes são impostas, de forma abusiva, a bem dos interesses da empresa. E cedem porque estão na base da cadeia alimentar que há muito vive da exploração impudica do talento. Esse bem que tantos agora gostam de louvar mas que hipocritamente, no segredo dos seus escritórios, tratam como lixo.

“Nada é menos evidente do que a Evidência” (F.Gil, 1996, IN-CM).
Talvez seja por isso, que não querem mudar este Regime Abrilista, que dura há 47 anos.
Foi ele que provocou o que este texto de Teresa Ribeiro constata.
Não foi o regime abrilista que provocou esta situação. A democratização do ensino impunha-se, como é óbvio, pois só assim um país pode aspirar ao desenvolvimento. O problema é que a economia não acompanhou esta evolução e o mercado de trabalho ressentiu-se.
1. O Regime Abrilista não é, o que a maioria da nova geração e os seus filhos querem para gerir o seu futuro, e o desenvolvimento de Portugal. Nas próximas 4 ou 5 eleições (2 a 8 anos) isso será nítido e inevitável.
2. Não é uma questão ideológica, ou de ajuste de contas. Não tem nada a ver, com o Ventura contra a Joacine, o Cotrim contra a CatarinaMartins, o RuiRio contra o António Costa, o PAN contra o CDS, etc…. Não tem rigorosamente nada a ver com esse folclore. Isso é para entreter e enganar o Povo.
3. Tem a ver com a ambição de não se ser tão medíocre e incompetente.
4. As melhorias em relação ao passado, não resolvem os desafios de competitividade do presente e do futuro. Nem com quem nos temos de comparar nas próximas décadas. O Estado Novo também melhorou muito a educação, o analfabetismo, saúde, economia e infra-estruturas, que herdou da Monarquia e da 1ª República.
5. Em 47 anos, nem num único ano sequer, o Regime Abrilista conseguiu gastar menos do que o país produziu. Viveram com o dinheiro emprestado e pedinchado ao FMI e U.E (em sucessivas bancarrotas). O índice de corrupção, compadrio e ilicitude económica deu por resultado uma Dívida monstruosa, que a geração mais nova (e os seus filhos) terão de pagar nos próximos 50 anos das suas vidas. O Regime Abrilista (esse modo de governar Portugal há 47 anos), deixa precariedade, abandono escolar, e baixos rendimentos.
5. É este Regime Abrilista, que a Teresa Ribeiro nos quer oferecer para as próximas décadas?
O “regime abrilista”, como lhe chama, é uma democracia. Só isso coloca-o acima do regime que lhe deixa tantas saudades. Não sei citar estatísticas de cor, mas isso está tudo medido e divulgado. No país que o actual regime herdou, o índice de analfabetismo era vergonhoso, ao nível do Terceiro Mundo. Creio que nem vale a pena acrescentar mais nada.
É útil consultar as Estatísticas, que estão publicadas e são as consideradas credíveis e honestas. Lá, em números e percentagens, está o tamanho do que foi feito para erradicar o analfabetismo entre 1924-1974 e entre 1974-2020.
Esse exercício de comparação e análise, poderá ser feito para todos os outros indicadores económicos, sociais e culturais.
De igual modo, podemos também analisá-los no que se refere às projeções e estimativas do que este Regime Abrilista (este modo de governar Portugal há 47 anos), em comparação com os actuais países da União Europeia (e da OCDE), nos dará nos próximos 20 anos.
Saudades da mediocridade, da ilicitude, da incompetência, da corrupção, da precariedade, da Dívida? É dessa saudade?
Democracia… Liberdade. Não dependem sempre da ideologia e da crença, de quem as afirma, e tem poder para as impor aos outros?
Dou um exemplo, para ficar mais claro.
Mostro-lhe o que o Regime Abrilista faz há 47 anos.
1. 16 de fevereiro de 2021:
2. Demitiu-se o vereador da Protecção Civil da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Manuel Castro (PS). O Vereador, juntamente com a directora do departamento de Higiene Urbana, Filipa Penedos (PS), casada com Paulo Penedos (PS) condenado no processo “Face Oculta”, foram vacinados com as sobras das vacinas que estavam destinadas aos lares de Lisboa.
3. A EMEL contratou por ajuste directo, a antiga deputada do PS, Sofia Conde Cabral, que também já foi assessora de Fernando Medina. Vai receber 20 mil euros para fazer a ligação entre a empresa municipal e a Câmara.
Esses são exemplos que servem apenas para revelar o que é a natureza humana, que não muda, estejamos sob que regime estivermos. Ou acha que foi a democracia que inventou em Portugal o compadrio?
as empregadas domésticas, ao contrário destes novos proletários, beneficiam da lei da oferta e da procura
Certo. Mas nada impede um licenciado de tentar arranjar empego a limpar casas. Há muitos licenciados atualmente a atender ou a trabalhar em lojas vulgares, onde ganham o mesmo que se não fossem licenciados. Se preferissem, poderiam ir trabalhar como empregados domésticos. Se não o fazem, é possivelmente porque consideram o trabalho nas lojas menos desagradável do que o de limpar casas.
Desculpe?! Acha que esta é a solução?
Não. Mas acho que, se uma empregada doméstica ganha mais do que um licenciado que trabalha, digamos, a vender livros numa livraria, isso é possivelmente porque o trabalho doméstico é considerado mais duro e mais difícil do que o trabalho na livraria. Ou seja, ao fim e ao cabo, é justo: o trabalho mais duro e mais difícil é mais bem pago.
Porque é que o licenciado não abandona a livraria e se vai dedicar ao trabalho doméstico? Porque (1) não sabe cozinhar, e (2) não está para passar o tempo a dar cabo dos músculos a aspirar carpetes, limpar paredes e coisas que tais. Ou seja, o trabalho doméstico é de facto mais difícil (porque cozinhar decentemente não é para todos!) e mais duro do que o trabalho na livraria. Sendo mais difícil e mais duro, é justo que seja mais bem pago.
É claro que, em Portugal, há a ideia de que uma pessoa tem o direito de receber mais por ter estudado mais. A licenciatura é um posto. (Como nas Forças Armadas quando eu era pequeno: um licenciado era automaticamente sargento, nunca soldado raso.) Mas, se se abandonar esse pressuposto e se se partir do princípio que o pagamento deve ser proporcional à dureza, responsabilidade e dificuldade do trabalho, e não aos graus académicos de quem o desempenha, então já parece justo que uma empregada doméstica ganhe mais do que o empregado de uma loja.
Balio: O exemplo que deu, de um licenciado trabalhar numa livraria, não é um bom exemplo. O que interessa aqui é discutir o que se paga a pessoas que desempenham as funções para as quais estudaram. E muitas dão a ganhar muito dinheiro a quem as emprega.
Afirmou que o trabalho braçal deve ser valorizado, porque é exigente do ponto de vista físico. Só que esse tipo de trabalho é designado como “indiferenciado”, precisamente porque pode ser feito pela generalidade das pessoas que tenham saúde e resistência física. Mas já nem todos têm talento e conhecimentos para trabalhar como designer, ou arquitecto, ou engenheiro, ou médico veterinário, ou jornalista. Tudo profissões em que sei, de fonte segura, que muitos ganham menos que empregadas domésticas. Experimente pedir a uma para lhe operar o cão, a ver o que lhe acontece…
Era isto que se pretendia quando se falava de estarmos a viver acima das nossas possibilidades.
Primeiro vieram buscar o trolha, mas não sou trolha, não me incomodei, depois foi a mulher a dias, mas não sou mulher a dias…
Isso é voar mesmo muito baixinho. Mas a mediocridade é mesmo assim…
Porque pensa que um operário pode ganhar pouco mas um licenciado não?
Há um liberalismo muito tuga que pensa que o mercado de trabalho deveria ser regulado só para os licenciados, para os outros aplicava-se a lei do mercado.
Custa a acreditar que para quem está lá longe nas europas a fazer as regras que seguimos com fervor, isto é tudo a mesma piolheira desde o dr. ao analfabeto.
Como explica que nos países em que o mercado de trabalho não está distorcido, o normal é pagar mais a quem tem mais qualificações, e exerce profissões de trabalho dito diferenciado? E porque será que nos países realmente desenvolvidos chamam um figo aos licenciados cá da piolheira? Será porque são bons?
” nos países em que o mercado de trabalho não está distorcido, o normal é pagar mais a quem tem mais qualificações, e exerce profissões de trabalho dito diferenciado?”
Ser diferenciado não é ser licenciado. É ter uma profissão que tenha mais procura do que as outras. Não há procura para licenciados, logo grande parte deles vão trabalhar como indiferenciados, até haver mais oferta do que procura, o que faz os preços dos licenciados crescerem e passamos outra vez ao mesmo. É assim que funciona. Claro que a oferta subiu com a democratização do ensino, o que faz confusão à nossa classe média que estava habituada a que o filho do dr. e do eng. tivesse um bom emprego assegurado sem ter de competir com o filho do pobre, mas é a vida.
Não percebo o seu problema, se é mais fácil ser trabalhador indiferenciado e se se ganha mais do que sendo licenciado, então a solução é simples: trabalhar como indiferenciado.
O que acontece é que muitos das nossas pseudo elites embarcaram na história da desvalorização salarial como salvação nacional e agora estão muito admiradas por os baixos salários lhes terem batido à porta.
Jo:
Se é mais fácil ir trabalhar numa loja, porque há-de alguém, que investiu pelo menos quatro anos da sua vida a estudar para se qualificar para o exercício de uma profissão mais criativa, se importar de desistir de uma carreira? – é isto que defende, não é?
Em larga escala, que efeitos tem isto num país? Já pensou?
Por outro lado, no país onde há anos se verifica um fosso salarial em crescendo, está por provar se os salários baixos se praticam por falta de recursos para pagar mais.
Texto estranho.
Os malvados empresários que pagam melhor às empregadas que “beneficiam da lei da oferta e da procura”, mas os trabalhadores “insubstituíveis” que não…
Já a gritante falta de capitalismo em Portugal, entre quais empresas para competir por esse grande talento nada… já para não falar de como tanto talento não cria empresas.
Como bem escrevia Teixeira de Bastos um socialista do sec.XIX
Assim se explica tambem o desenvolvimento da emprêgo-mania. As artes e os officios, o commercio e a industria, as profissões liberaes viram desertar das suas fileiras muitos dos seus membros que se trabalhassem diligentemente poderiam ser optimos cidadãos, para se virem alistar nos exercitos numerosos do funccionalismo. Á mesa do orçamento procuravam assentar-se todos os que ambicionavam viver regaladamente sem canceiras e sem trabalhos.
(…)
Já atraz alludimos á emprêgo-mania É com effeito um dos males que affligem as sociedades contemporaneas, e nomeadamente a portugueza. Tem a sua origem immediata na superabundancia de individuos que se dedicam ás profissões liberaes, abandonando as artes e as industrias exercidas por seus paes e avós. Em vez de procurarem na instrucção, nos estudos a que se consagram, elementos salutares e especiaes para desenvolverem e aperfeiçoarem o trabalho manual ou mechanico, aproveitam o saber que adquirem como instrumento para d’elle se tornarem independentes e invadirem de preferencia as posições officiaes. D’esta tendencia cada vez mais manifesta, apesar das difficuldades creadas com as exigencias de propinas, de exames, de concursos, tem resultado o excessivo desenvolvimento do funccionalismo. É esta, sem duvida, uma das causas geradoras da grande crise economica da actualidade, e provém ainda em parte do preconceito moral de origem biblica que faz considerar o trabalho como castigo imposto ao homem, e em parte da tradição herdada das épochas de conquista em que as artes manuaes eram o apanagio dos escravos ou dos servos. A liberdade, proclamada pela revolução que deu o triumpho politico ao terceiro estado, teve por consequencia, não tanto a rehabilitação ou a dignificação do trabalho, como a abertura das profissões liberaes aos filhos de todas as classes.(…)
Já vi que é dos tais que divide o mercado de trabalho entre os empreendedores ( os bons) e os parasitas ou “funcionários”, como lhes chama. Mas sabe que os “bons” não fazem nada sozinhos.
Excelente.
É tal e qual.
“A desvalorização do trabalho intelectual inicia-se assim”
Não sei ao certo de que trabalho intelectual fala, mas se há coisa que foi desvalorizada (financeiramente) foi o trabalho braçal.
Mesmo aqueles trabalhadores chamados de especializados (canalizadores, pintores, carpinteiros), que têm fama de ganhar bem porque há poucos, vêem o seu trabalho cada vez menos necessário pois sai mais barato comprar um artigo novo do que recorrer a um profissional para reparação. E para bater essa tendência, eles têm de baixar o custo dos seus serviços.
Isso da mulher da limpeza receber mais que o recém-licenciado também é um belo mito urbano.
Isso da mulher da limpeza receber mais que o recém-licenciado também é um belo mito urbano.
Não sei quanto costumam receber as mulheres da limpeza. Provavelmente, as que têm emprego fixo auferem o salário mínimo, as que trabalham à hora auferirão (espero eu) mais. Ora, eu conheço bastantes licenciadas que atendem em lojas diversas, a ganhar pouco mais do que o salário mínimo.
Mito urbano? Pois então conheço nem imagina os “mitos” que eu conheço, de carne e osso.
eu conto sempre esta história para dar conta do meu espanto quando voltei aqui ao país: em 2015 regressei. Logo concorri a um emprego, fui à entrevista. Função: trabalho social, em bairros degredados numa capital distrital próxima de mim. Termos de referência: trabalho de rua, contactos com administração local, interacção com doadores. E, acima de tudo, coordenação do projecto com 7 licenciados como subordinados (psicólogos, sociólogos, assistentes sociais, enfermeiros). Escolheram-me logo ali na entrevista. Ordenado? X. E eu respondi: com transportes públicos e X para almoço (7,5 euros), para além dos impostos claro, eu levarei para casa 580 euros. Como querem que eu me vista para ir falar aos tais doadores? Ou como poderei pagar um uísque ao responsáveis da administração local com os quais irei interagir? Ficaram as entrevistadoras um bocadinho surpreendidas. Insisti: coordenar 7 licenciados e ter este ordenado? O que vale o trabalho deles?
Enfim, fui À minha vida. Amigos, cinquentões como eu, também das humanidades, esclareceram-me: “agora cá ganha-se assim”.
Amigos, cinquentões como eu, também das humanidades, esclareceram-me: “agora cá ganha-se assim”.
Exatamente. Contrariamente àquilo que a Teresa diz no princípio do post, o problema não é o país não ter precisão de licenciados. Tem precisão deles, sim, mas não lhes pode pagar mais do que o que paga a trabalhadores indiferenciados.
Balio: Afinal precisa, ou não precisa? Se precisa, porque não há-de pagar de acordo com a qualificação das pessoas contratadas?
Precisa, mas não tem dinheiro para pagar.
Dou um exemplo: uma hora de trabalho de um fisioterapeuta deveria custar uns 30 euros, ou mais. Muitas pessoas precisam de muitas sessões de fisioterapia; umas oito por mês, digamos. O que faz 240 euros por mês. Coisa que muitíssima gente não tem. (Ou tem, mas prefere gastar de outra forma, enfim.) Por isso, muita gente prescinde das horas de fisioterapia de que necessita, ou então escolhe opções de menor qualidade (por exemplo, em que o fisioterapeuta só massaja durante 5 minutos, e o resto do tempo manda a pessoa fazer exercícios sozinha). Sei de fisioterapeutas que dizem que em janeiro fazem sempre muito menos horas, porque as pessoas gastaram tudo o que tinham no Natal.
Não pode? Se calhar pode. Bastaria que se moralizassem um pouco as práticas, pois como sabe, em Portugal o fosso nas empresas entre os salários mais elevados e os mais baixos é abissal. Dos mais elevados da Europa.
Jpt: A nossa cultura do trabalho degradou-se de uma forma extraordinária. Não porque o país é pobre, mas porque foi tomado por gente medíocre, que prefere investir na rede protectora das amizades e não na meritocracia. Gente que distorce o mercado de trabalho, pagando bem aos seus apaniguados e explorando descaradamente os demais. É triste.
não serei eu a negar essas dimensões “corporativas” (chamemos-lhe assim) que influenciam o mercado laboral. Mas não creio que cheguem (em termos de interpretação sociológica e em termos quantitativos) para explicar o que se passa. A degradação das remunerações da pequeno-burguesia (mais ou menos a “classe média” em termos vulgares) é enorme e não se pode restringir a isso. Saí de Portugal em tempo de escudos, passei a pensar em termos de meticais/dólares. E assistia a um efectivo aumento custo de vida quando cá vinha e tinha de transitar para os euros – eu ainda penso em escudos, ainda comparo. E os ordenados não só deixaram de aumentar como depois começaram a minguar (e até a inexistir, em alguns nichos socioprofissionais).
Dou, de novo, um exemplo pessoal. Uma minudência, mas que julgo ilustrativa: quando saí da tropa, já licenciado, nesse Verão concorri (via saudoso “Expresso Emprego”) a vários postos laborais. A primeira entrevista a que fui valeu-me um emprego (sem qualquer conhecimento pessoal que intermediasse a situação): seis meses à experiência, em Leiria. 250 contos limpos, a aumentar depois, e alcavalas (carro utilitário, gasolina. E apartamento, em São Pedro de Moel). Acabei por optar por um outro – também via Expresso Emprego, também sem “cunhas”. Em Lisboa, 205 contos limpos, a trabalhar para o Estado (e que me permitia fazer o mestrado em horário nocturno). 1990. Voltar 25 anos depois, com um currículo um bocado mais recheado, e oferecerem-me 160 e tal contos ilíquidos para gerir 7 licenciados (também sem qualquer intermediação pessoal, qualquer “cunha”), quando a vida em euros é tão mais cara (em valor facial da moeda), e isso ser considerado “normal” pelos compatriotas e colegas, não se pode explicar por “redes de influência” pessoal ou más práticas patronais. É mesmo um descalabro, sociológico. E, claro, económico.
Outros factores poderão concorrer para a degradação das remunerações, mas não explicam a questão do fosso salarial, que nos coloca no ranking europeu em lugar de destaque. Uma situação que já nos remete para o terreno escorregadio da moral e bons costumes.
Este texto sobre a valorização do trabalho de uns em relação ao trabalho de outros, faz-me sempre lembrar a anedota do corpo humano.
Qualquer órgão reclamava para si a superior importância da sua função.
O estômago era o que alimentava o corpo e sem ele o corpo morria.
O cérebro era o que decidia o que era saudável ou não e também sem ele o corpo morria.
O coração era o motor que fazia circular o sangue e também sem ele o corpo morria.
Como ninguém se entendia decidiram fazer uma votação para eleger o órgão mais importante.
No dia da votação o cu fez greve.
Não lhe parece óbvio que o trabalho seja valorizado em função da sua exigência? Qualquer um pode ganhar a vida como faxineiro, mas nem todos conseguem fazer cirurgia vascular…
A resposta a essa questão não é assim tão linear quanto possa parecer.
Há uma diferença entre preço e valor. E é essa diferença que origina a confusão entre a expectativa e a realidade.
A pessoa só pode saber o seu valor em comparação com os seus pares, e nunca em comparação com outras profissões.
Um cirurgião pode ganhar oito e outro cirurgião pode ganhar oitenta, e é nesta escala que a pessoa tem de encontrar o seu valor.
Temos o Ronaldo, temos os outros jogadores e a respectiva escala, não faz sentido misturar aqui as outras profissões, pois não?
Há uma diferença entre preço e valor. Certo. Pena essa malha ser muito mais fina cá, do que em economias onde o mercado de trabalho funciona. É por isso que os nossos valores emigram. Não estão para aceitar o preço que aqui lhes atribuem.
Os nossos valores emigram muitas vezes para fazer lá fora, o que têm relutância em fazer cá dentro, e em muito piores condições.
Segundo o seu raciocínio, o que dirão os médicos em Cuba?
Você insiste na empregada de limpeza, eu insisto no Ronaldo. O Ronaldo também não sabe fazer uma cirurgia vascular, e então? Acha que devia ganhar menos que o cirurgião?
O Ronaldo produz receitas fabulosas. Os salários extraordinários que se pagam aos futebolistas de primeira água são amplamente justificados. Eles facturam muito, mas rendem ainda mais.
Quantos aos nossos valores que emigram, como sabe, não é bem como diz. Os novos emigrantes portugueses são altamente qualificados, por isso candidatam-se às funções para que estudaram. Haverá excepções. Essas explicam-se pelo valor dos salários que conseguem auferir noutros países, mesmo fazendo trabalho não qualificado.
Como vê, o nosso valor depende da percepção dos outros em relação ao nosso trabalho e não do grau académico que possamos ter.
O valor que você atribui ao Ronaldo em nada está relacionado com a sua não licenciatura.
Para mim não passa de um miúdo que deu uns toques na bola e teve a sorte de entrar num mundo especulativo.
Quem regula o deve e o haver das profissões é o mercado. Se num ano se formarem 5000 advogados, é evidente que só meia dúzia conseguirá seguir a carreira. Provavelmente alguns, para sobreviver terão de escolher outra função.
Os novos emigrantes são como os velhos emigrantes. Os velhos emigrantes iam para as bidonvilles para limpar casas. Os novos emigrantes são mais instruídos, seguem a carreira, mas dividem os quartos com outros e sujeitam-se a condições que cá não se sujeitavam.
Carlso Sousa: O grau académico é uma métrica. Existem outras, claro.
Os novos emigrantes podem até começar por dividir um apartamento a meias, mas em regra, singram. Porque vão trabalhar para países onde o mercado e o elevador social funcionam. Caso contrário não valeria o esforço, não é?
O mercado regula, mas a cultura do trabalho também. Hoje explora-se impudicamente mão-de-obra qualificada, mesmo em empresas que se sabe serem saudáveis financeiramente. E aquelas que o não são, abusam, usando como pretexto a situação precária da empresa para pagar pouco, esticar horários, exigindo de cada um que faça o trabalho por dois. Dir-me-á: esses empregadores fazem assim porque não podem dar melhores condições a quem contratam. E eu respondo-lhe que se em alguns casos é assim, noutros trata-se apenas de puro oportunismo. É assim que uma cultura de trabalho perversa se instala.
Mas é assim aqui e é assim em qualquer parte do mundo, só que o nosso mercado é mais pequeno.
Estou de acordo consigo quando diz que é uma cultura de trabalho perversa, mas essa cultura de trabalho é o resultado de uma formação desadequada a esse mesmo mercado de trabalho.
Quando se autorizam cursos que não servem rigorosamente para nada, só se está a promover o “chico espertismo”.
Os tempos mudam e as relações de trabalho também. Um jovem hoje, tem de desenvolver, a par com a sua formação académica, todo um conjunto de competências que eram supérfluas há uns anos atrás. O emprego para a vida já não existe. O mercado é muito volátil, um jovem se não se for actualizando, ao fim de 6 meses está completamente ultrapassado.
É o que temos, e é com isto que vamos ter de aprender a lidar, infelizmente.
Teresa Ribeiro, o processo de proletarização, em Portugal, recua a muito antes dos anos 80 embora, de facto, com outras características: o medricas filho do agricultor que, com medo de “dar o salto”, preferia arriscar a aventurar-se em “Lisboa” – há uma série da RTP, “Conta-me como foi”, que retrata fielmente esse processo… a sobrevivência “remediada”, a precariedade que implicava a constante ameaça do desemprego, etc.
Sim, «a democratização do ensino (…) esbarrou num mercado de trabalho» não só «impreparado» mas acima disso, resiliente às tentativas de “democratizarem” as relações laborais (um exemplo disso é a habitual telenovela em torno das propostas de aumento do SMN). Mas mais, perante a resposta eleitoral dada pelos portugueses, à última tentativa “chilena” de aprofundar o “Ai aguentam, aguentam”, acabou por surgir, entre outros “resilientes” a Iniciativa Liberal, cujos “CEO.s” tendo descoberto que o Santo Graal estava enterrado na Irlanda, não só decidiram anunciar a boa nova mas até estão a pensar em mudar-se para lá.
António Vaz: antes do 25 de Abril qualquer licenciado conseguia emprego com facilidade, pela simples razão de que só uma percentagem ínfima da população tinha estudos universitários. Mas também é verdade que nesse tempo, mesmo a classe média era, como se dizia na altura, “remediada”. Reflexo da cultura salazarista que desincentivava o consumismo e estimulava a poupança. Nunca, porém, se observou esta distorção de que falo. Os salários, em média, eram modestos, mas eram proporcionais às qualificações.
Se eu quisesse ser irónico tinha de acrescentar que o dono da PME possuía certamente um BMW e fugia ao fisco. Esse é o cliché que se impõe quando se fala em PME’s. t/o-esbulho-fiscal-dos-salarios-11712960 , mas para um patrão poder aumentar um ordenado de 1000€ para 1100€ terá de desembolsar mais 208€, e estivermos a falar de um SMN (2020) de 650€+168€ sub. refeição (total de 746€) para 846€, terá de desembolsar mais 262€. No postal falo também no jovem engenheiro que para receber 2000€ líquidos o patrão terá ao seu encargo o valor de 3873€.
A insatisfação perante a actualidade prende-se com vários motivos, mas o que tenho para mim como sendo o principal não tem nada a ver com luta de classes mas sim com carga fiscal.
Já aqui postei sobre isso https://delitodeopiniao.blogs.sapo.p
Isto passa-se num país que cobra altas taxas de tributação. Se observarmos quem aposta exactamente no contrário, numa tributação muito menor, consegue muitos melhores resultados. O SMN na Irlanda é de 1800€ e lá uma senhora da limpeza ganha mais que um enfermeiro em topo de carreira.
Em economia existem muitos mecanismos que são contra-intuitivos. Se o estado quer aumentar as receitas tem da baixar as taxas.
Os impostos baixos destinam-se essencialmente às empresas que ainda não existem, e que se passarem a existir, os licenciados insatisfeitos terão mais alternativas de emprego. Depois disso os patrões sacanas e abusadores, terão deixar de mudar de atitude ou então perderão os seus trabalhadores. Os abusadores são protegidos pela falta de concorrência.
Foi assim que os países que saíram do bloco de leste muito mais pobres do que nós já nos ultrapassaram.
Se nos virarmos uns contra os outros, dizendo que a culpa é toda do resto da sociedade, iremos ficar bem piores, pois o que necessitamos é de uma nova abordagem.
Um ponto interessante é o da formação.
O trabalho intelectual exige estudo e formação, o braçal qualquer um faz. Não sei porquê veio à cabeça o post das casas frias e deficiente construção.
Aceitar a não qualificação de certas profissões é mais um sinal de mediocridade em que Portugal teima em nadar
De acordo, Paulo. Sabemos que essa é uma dificuldade, sobretudo para as PME’s. Mas isso não explica porque as empresas grandes e que apresentam lucros se aproveitam para nivelar por baixo, pagando salários chocantemente baixos. Também não explica porque mesmo para recrutar nas áreas onde há falta de profissionais, como é o caso das TIC, Portugal está sinalizado pelas multinacionais de recrutamento como um case study, onde a lei da oferta e da procura não se aplica. Também já o reportei aqui. A informação foi-me dada por um profissional ligado ao grupo Manpower. E o desabafo foi claro: “Mesmo os que podem pagar, resistem a fazê-lo, devido à cultura de baixos salários que se instituiu. E se os candidatos recusam as suas ofertas, ofendem-se”.
Finalmente: essa do empresário que explora os trabalhadores para conseguir margem para o BMW infelizmente não está assim tão fora de uma certa realidade. Quem não conhece exemplos? Eu, sim…
Exacto Teresa, mas são exactamente esses patrões abusadores que teriam de mudar de abordagem se o mercado empresarial português fosse atractivo para quem quer investir. Com tanto regulamento, tanta taxa e taxinha, tanta burocracia, tanto encargo social, acabam por se localizar noutras latitudes. Se o país atrair investidores haverá concorrência pelos quadros com qualificações e, por arrasto, as demais profissões irão beneficiar. Tenho várias gafes no comentário anterior. A comparação entre um trabalho não qualificado na Irlanda e alguém em topo de carreira cá é atroz. Importa ainda sublinhar que na Irlanda não existem mais recursos naturais do que cá, são igualmente um país periférico, com uma tradição de pobreza e com uma cultura tanto ou mais marcada pelo catolicismo. Tem até uma história de identidade com uma violência que felizmente nós não temos. Qual será a outra diferença?
Paulo, de acordo. O crescimento ajudar-nos-ia. Mas creio existirem razões, não apenas de ordem económica, que explicam a forma como o mercado de trabalho se degradou. Esta nossa velha cultura, tão permeável à pequena corrupção, ao nepotismo, onde falta ambição, pensamento estratégico e sentido cívico é que nos tem empurrado para este pântano, onde o elevador social não funciona e a meritocracia não existe.
Temos queixas idênticas, mas quando para entregar 2000€ a um empregado é necessário gastar 3800€… só nos podemos queixar dos salários baixos a quem retém uma parcela disforme desta dimensão.
Portugal é um país de baixos salários.
Safam-se quem tem saída e consegue ir negociando porque tem opções.
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