
Fernando Sousa: «O carro simplesmente bateu e seguiu o seu caminho, sem um chiar de travões, direito aos bairros brancos. Na esplanada, cheia de militares, a uns quinze metros, se tanto, ninguém deu por nada, nem por um baque surdo, de chapa, contra algo mole, ou pela queda de um corpo – sons que se conhecem, enfim, de ouvido. Quer dizer, a bisca lambida pode causar surdez. Na estrada, deitado, um homem contorcia-se, aos aaaaaaaais, sentando-se às vezes para olhar para a perna, de onde saía, vermelho, da pele negra, um osso, caindo depois outra vez.»
Rui Rocha: «O cada vez mais famoso Cão de Sócrates já foi notícia no El Mundo. Em declarações ao periódico espanhol, el pierrio terá dito ao jornalista “Que te pongas em guardia, compañeiro, voy habliar espanhiol!”. Por cá, prossegue na página do Facebook um inquérito que tem como objectivo escolher um nome para o canídeo. Por mim, vou participar sugerindo Rececão. E os leitores, também têm sugestões?»
Sérgio de Almeida Correia: «Francisco Louçã é uma sombra dele próprio. A acutilância sem sentido não revela coragem. É mais fastio e desencanto. Um professor que anuncia um chumbo a um mês de distância ou desconfia das capacidades do aluno ou está ressabiado. O anúncio da demissão de um membro do directório do Bloco de Esquerda (os gajos chamam-lhe a “mesa”), por causa da campanha promocional da moção de censura que terá lugar lá para os saldos da Primavera, confere um ar grotesco a tudo isto. Um líder temido e respeitado que se transforma tão rapidamente em bicha-de-rabear devia ter a lucidez para se ver ao espelho. E rir-se. Ou ir-se. Qualquer uma das decisões seria sinal de sensatez.»
Teresa Ribeiro: «O barulho irritante dos saltinhos não o deixava concentrar-se na leitura: Há receios no Ocidente de que a Irmandade Muçulmana pretenda a instauração de um regime islâmico. Olhou-a com atenção: as marcas da idade estavam lá. Se as procurasse encontrava-as sem a menor dificuldade no contorno do rosto, nas mãos, no pescoço. Remexeu-se no sofá, incomodado com uma dor que se fixara de súbito nas costas. Ontem, ontem é que foi dia de S.Valentim.»
Torquato da Luz: «Devíamos vir com livro de instruções / e prazo de validade / porque assim, valha a verdade, / é a maior das confusões: / a gente nunca sabe o dia e a hora / em que se irá embora / e, além do mais, em caso de avaria, / não dispõe de garantia.»
Eu: «Já se presumia, mas agora tivemos a certeza: para o estado somos só um número. Um número fiscal, de preferência. É a conclusão a que chegamos com o triste caso de D. Augusta Martinho, a senhora de 87 anos que morreu sem assistência num apartamento da Rinchoa e só veio a ser encontrada nove anos depois, simplesmente porque o andar tinha um novo proprietário após ter sido posto à venda em hasta pública pela administração fiscal. “Estado social”? Que “estado social”? Todas as entidades públicas falharam neste caso: D. Augusta era um número que não lhes dizia respeito. PSP, GNR, Polícia Judiciária, Ministério Público, Tribunal de Sintra, CTT, serviços de saúde, segurança social, junta de freguesia: o dinheiro dos nossos impostos sustenta todas estas entidades, que revelaram total ineficácia neste caso. Eficaz, só mesmo a máquina fiscal. Que foi capaz de confiscar o apartamento a uma morta e levá-lo a leilão, certamente na convicção de que desempenhava uma nobre missão de “serviço público”.»

A propósito do Sócrates… quando é que julgam o homem?
Porque senão, qualquer dia, ainda aparece aí como o ventura de esquerda…