Já li o livro e vi o filme (280)


Pedro Correia,

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 A LARANJA MECÂNICA (1962)

Autor: Anthony Burgess

Realizador: Stanley Kubrick (1971)

Confesso que o filme está muito longe de ser um dos meus preferidos de Kubrick. Fico-me pela obra literária que o inspirou: uma ficção futurista situada em local e tempo indeterminados, com dezenas de palavras que Burgess criou de propósito para dar mais consistência ao enredo e maior credibilidade às personagens.

34 comentários em “Já li o livro e vi o filme (280)”

  1. Gostei muito do filme, não sei qual o meu Kubrik preferido.
    Do livro, comecei a ler mas assustei-me com o vocabulário inventado logo nas primeiras páginas e virei para outra obra e nunca mais passei das 2 ou 3 páginas iniciais.

    1. Aconteceu-me isso duas vezes. Um pouco como sucede com os livros de Aquilino, um escritor que não poderia ser mais diferente de Burgess. Mas nisto encontro um ponto em comum com eles: eram ambos recriadores da linguagem e autores de imensos neologismos.

      À terceira, decidi: vai ser desta. E foi mesmo.
      Mal chegamos aí à página 20, mergulhamos naquele mundo, passamos a entender aquele vocabulário (nem que seja por associação de ideias ou analogia) e a meio já concluímos que tudo aquilo tem coerência. Mais: de certa forma nem faria sentido se aquelas personagens tão diversas do cidadão comum não falassem de maneira diferente da maioria de nós.

      Bastaria esse meticuloso trabalho ao nível da construção da linguagem para transformar este romance numa obra-mestra. Mas atinge o nível de obra-prima pelo seu carácter profético. Há meio século, Burgess anteviu aqui muito do que se passa hoje nas periferias das grandes cidades europeias ou norte-americanas, por exemplo.

  2. Não li o livro. Vi o filme logo aquando da sua estreia pós 25 de Abril. Era jovem, fiquei impressionado com a violência extrema mas não me esqueço da “mensagem”: a cura pode ser bem mais violenta que a doença apesar de ter como antídoto música clássica.

    1. Confesso que me desagradou muito a violência gratuita extrema das imagens quando vi o filme, há muitos anos. O contraste com a “terapia” estatal, na segunda parte, acaba por estabelecer um contraste chocante. Ficamos num dilema: o que será pior? Aquele mal ou aquela “cura”?
      Neste aspecto o livro, que li muito depois, é mais chocante. Uma das miúdas que o Alex viola, por exemplo, tem apenas 10 anos. Kubrick suavizou esse aspecto, mais por motivos legais do que morais.

      1. No filme nem sequer há cena de violação em casa dele, o sexo a 3 é consensual, com adultas, ou quase, e a aceleração da cena até dá um toque cómico à situação

      2. Para mim o melhor de Kubrick.
        Tal como o Pedro Correia, a segunda parte do filme é tao ao mais chocante que a primeira, esta tinha a banda sonora para a suavizar, a segunda só a brutalidade do Estado.

  3. Para mim é-me muito difícil escolher um segundo preferido do Kubrick (o preferido é óbvio). Diria que A Clockwork Orange, Barry Lyndon e Full Metal Jacket estão muito equilibrados.

    É interessante notar que o filme foi polémico pela violência física e sexual, mas em comparação com o livro até é bastante contido. E, claro, há a diferença do final.

    (A propósito de adaptações de livros para cinema, há dias li foi “The Children of Men”, da P.D. James – conhecia apenas a (grande) adaptação do Alfonso Cuarón. Sendo muito diferentes, recomendo tanto o livro como o filme)

    1. Para mim o filme é uma pálida cópia do livro, perdendo na comparação. Talvez também por seguir o desfecho da versão americana do romance, que só tem 20 capítulos: deixou cair o 21.º e último, existente na versão original, publicada em 1962 no Reino Unido. Algo que não deixa de ser muito estranho: anos depois, Burgess ainda se referia a isso com desagrado.
      O livro chegou a estar proibido na liberalíssima Inglaterra dos anos 60. É, sem dúvida, uma obra inovadora – não apenas no imaginário que desenvolve, não somente na crítica demolidora à erosão da democracia rumo a um estado totalitário (na linha de Orwell ou Huxley), mas sobretudo ao nível da construção linguística, algo que obviamente se perde na transposição para filme.
      Recomendo a excelente tradução de Vasco Gato para a Alfaguara – cuja capa aqui reproduzo. Notável trabalho que merece ser felicitado.

      Não conheço o livro, João. Só o filme. Mas já tomei nota.

      1. Por acaso não acho o livro inferior – em parte pela realização do filme, mas sobretudo pelo desempenho do Malcolm McDowell (que diria compensar o que se perde na construção linguística, inevitável como bem apontas). Mesmo “suavizando” alguns aspectos, parece-me uma adaptação mesmo muito bem conseguida. A questão do final é curiosa, até porque o 21º capítulo dá toda uma nova perspectiva àquela história. Não sei se foi acidente, ou se foi conveniente para ajustar a mensagem: talvez Alex merecesse ser curado, mas não redimido.

        Não consigo imaginar quão difícil terá sido traduzir este livro, pelo que me agrada saber que a tradução tem qualidade. Mas não me passaria pela cabeça lê-lo noutra versão que não a original.

        1. É um livro muito difícil de ler em qualquer idioma, pela inclusão permanente de vocábulos que não existem (mais de cem, seguramente), puramente inventados – ao que parece inspirados no calão russo que Burgess dominava muito bem.
          Havendo uma excelente tradução portuguesa felizmente disponível no mercado, só posso recomendá-la aos leitores do DELITO

          A supressão do capítulo final (que, como bem apontas, leva a “cura” ao último patamar, transformando-a em redenção absoluta) foi uma típica americanice. O editor americano decidiu que o “seu” público aceitaria bem melhor aquele final. E assim ficou: os americanos (incluindo Kubrick) leram um romance que terminava de maneira diferente da que leram os ingleses e todos os outros, nós incluídos.

          A evitar, portanto, essa versão.

          1. E a recomendação parece-me apropriada. Eu é que aprendi inglês praticamente sozinho há cerca de 20 anos para ler livros que não tinham tradução, ou que tinham traduções péssimas. Daí para cá, as minhas leituras em português resumem-se a autores portugueses, ou ocasionalmente a autores traduzidos de outros idiomas que não o inglês. É uma opção meramente pessoal, e da qual ainda hoje retiro algum benefício sempre que preciso de escrever em inglês (ou seja, todos os dias).

            Dito isto, reitero: agrada-me que haja boas traduções. Talvez assim menos leitores fujam para o inglês.

  4. Não li (e já vi que o deveria ter feito). Revi o filme há alguns anos. Envelheceu imenso (ao contrário do resto do realizador). Tirando o mítico 2001 o Lolita (que é um livro magnífico) é o meu preferido. E também o fabuloso Barry Lindon. E o Full Metal Jacket, que ser+a o melhor filme de guerra de sempre (aquelas coisas que se dizem que valem o que valem).

      1. Eu gosto mais do Kubrick a preto e branco. Do Kubrick do “Roubo no Hipódromo”, de “Lolita” e do “Doutor Estranhoamor”.

        Os dois primeiros já por cá passaram:
        https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/ja-li-o-livro-e-vi-o-filme-75-8071004
        https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/ja-li-o-livro-e-vi-o-filme-152-8561646

        E outros dois livros que deram filmes do Kubrick:
        https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/ja-li-o-livro-e-vi-o-filme-152-8561646
        https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/ja-li-o-livro-e-vi-o-filme-77-8112950

        Concordo contigo: “Lolita” é um romance fabuloso. Do melhor que tenho lido. Sem dúvida um dos 100 grandes romances do século XX (um dia destes divulgo aqui a minha lista).

          1. Não havia “Lolita”. Muito menos uma lolita de 12 anos, como consta do romance do Nabokov.
            Aliás hoje não haveria também algumas das séries mais emblemáticas dos EUA e da Grã-Bretanha nas últimas décadas – incluindo “All in the Family”, “Fawlty Towers”, as dos Monty Phyton e até “Friends”.

            Alguma leitura recomendada:
            https://www.independent.co.uk/arts-entertainment/films/friends-netflix-sitcom-problem-sexism-men-joey-phoebe-chandler-ross-rachel-a8168976.html

            https://abcnews.go.com/Entertainment/wireStory/episode-uk-sitcom-fawlty-towers-pulled-racist-slurs-71216277

            Nada que espante: agora até já temos madres superioras a clamar contra o “racismo” n’ “Os Maias”. Com o mesmo zelo moralista que levava as abadessas do século XIX a interditar “O Crime do Padre Amaro” por ofensas à sagrada religião.
            https://zap.aeiou.pt/os-maias-romance-racista-382342

  5. Apenas vi no cinema, nunca na TV.
    Extraordinário filme, e uma descrição interessante dos processos de educação com via a uma utopia. Muito actual.
    Do Kubrick, claro, Full Metal Jacket, dos melhores filmes de guerra, The Shining (embora o King não tenha gostado, mas aquilo mete mesmo medo), 2001, e a imparável parábola Dr Strangelove.

    1. Está a dar-me uma ideia. Deixar aqui listas dos dez melhores filmes em géneros muito diferentes.
      Começando por filmes de guerra, precisamente. No ano passado vi um dos melhores de sempre deste género: “1917”, de Sam Mendes.

      1. Só dou (e de borla) boa ideias.
        Decerto que no final dos comentários essa lista de 10 melhores filmes abrangerá uns 50.

  6. Vi o filme, quando foi estreado em Portugal, após o 25 de Abril. Não li o livro. Mas a primeira vez que ouvi falar do livro e do autor, Anthony Burgess, foi em 1973, ao Professor Adriano Moreira, no antigo ISCSPU!
    Stanley Kubrick foi um dos meus cineastas preferidos, quando ia ao cinema, nos anos 70 e 80. O filme referido, “Laranja Mecânica”, “2001 – Odisseia no Espaço”, “Spartacus”, “Shining”, “Lolita”, Barry Lyndon”, são filmes que me lembro de ter visto e todos e cada um a seu modo, me “disseram algo”.
    Não será talvez o melhor filme de Kubrick, ou até talvez seja, mas “Barry Lyndon” foi, dos que visualizei, o filme que mais me impressionou, pelo sentido estético incomparável. (Talvez só os de Visconti o ultrapassem!)
    Achei interessante referir Aquilino, pela riqueza incomensurável da linguagem. Sem dúvida. Ando a ler um livro baseado em excertos de obras de Aquilino em que ele fala de aves. Uma preciosidade: o saber, o conhecimento, a variedade de vocabulário… Hei-de “trazer” o livro ao blogue.
    Obrigado pela sua atenção e votos de muita saúde!

    1. Meu caro, obrigado por partilhar aqui essas memórias. Achei muito interessante (e revelador) o professor Adriano Moreira ter aludido ao livro, ainda antes do 25 de Abril.
      Quanto a Aquilino, que tenho vindo a ler ou reler, cada vez estou mais convicto de que é, sem favor, um dos nossos maiores criadores literários de todos os tempos. Criador, desde logo, ao nível da linguagem. Como ainda agora confirmei lendo o excelente “Terras do Demo”, de 1919. Segundo romance dele, de uma impressionante maturidade ao nível da escrita.

      Grato pelos seus votos. Boa saúde também para si.

  7. O aspecto que mais retive foi a questão da violência.
    Tarentino haveria de a recolocar de um modo semelhante.
    Refiro-me ao uso da Violência como instrumento para reflectir a «relação com o Outro».
    Em Sade (“120 dias de Sodoma”, 1785) a violência serviu para termos consciência de um “Outro sem reciprocidade”.
    Mais tarde, em Sartre, “o simples olhar de alguém sobre mim tornava-me prisioneiro do seu mundo”, transformando a existência humana (de cada um) no inferno mais absoluto.
    Para Levinas, a violência já não era um problema ontológico ou epistemológico, mas sim o momento-primeiro da fundação da Ética — “o facto de alguém me olhar, instaura em mim a obrigação de cuidar dele, tornando-me um sujeito capaz de agir”. No sentido de que, só me constituo como sujeito moral quando reconheço que a existência de um Outro «me diz respeito».
    Este aspecto da violência julgo estar subestimado na maioria das análises ao filme (e à obra de A.Burgess). Apesar de ser aquilo que mais repercuto, hoje, passados os anos da emoção do seu impacto.
    Um sentimento de revolta por a violência ser banalizada (tal como a pobreza, a doença, a velhice, ou a morte). Esse fingir quotidiano de que não se vê aquilo que nos rodeia, como se de uma ausência ou de um nada se tratasse.

      1. Sim. Concordo.
        Não escrevi mais, para não tornar o comentário longo.
        O que quis acrescentar, era o seguinte:
        Em Descartes, o Outro estava completamente interdito, por ter sentidos e sentimentos. Como no filme “Equilibrium” (2002) de Kurt Wimmer, em que Christian Bale incarna o reverendo John Preston. E onde há essas “práticas totalitárias”.
        Em Rousseau, deixamos de ver um Outro igual a Nós, ao vê-lo como um “bom selvagem”, a criança de Emílio, ou a Nova Hélouise.
        Em Lévi-Strauss, o modo de deixarmos de ver os nossos congéneres era transformá-los num Outro totalmente diferente de Nós. Em que a nossa identidade era o radicalmente oposto ao “pensamento selvagem” deles. Ou seja, só lhes permitindo «um pensamento absolutamente Outro».
        A violência nestes filmes provoca a consciência dessa ignomínia do Outro.

    1. Prefiro outros Kubricks. Do livro gostei muito, mas só entrei nele à terceira. Recomendo a todos os leitores que mergulhem nele sem parar até por volta da página 20. Se não entenderem muitas palavras, sigam em frente à mesma. Aquilo acaba rapidamente por fazer sentido.

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