Remover Padrão e afins…


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Vem aí a Primavera. E a bazooka financeira europeia, cujas virtudes indutoras não nos vão sendo aventadas, enquanto a sua fiscalização alhures foi já algo acautelada. A prevenção invernosa da epidemia foi uma catástrofe. O início da vacinação foi algo atrapalhado, com uns mariolas do poder a palmarem umas doses para uso próprio. Sob uma ministra da saúde que tende a considerar criminosos os que se lhe opõem, as críticas a tal desatino são consideradas antipatrióticas. Com tudo isso concorda um punhado de intelectuais, ditos antifascistas, que, ao consagrado estilo de José Sócrates, se erguem contra “as perguntas do Correio da Manhã“, apelando ao controlo dos meios de informação e ao descarado expurgar de críticas ao governo – entre outros surgem escritores (atrás de minha casa a escola chama-se Alice Vieira, estamos a formar crianças no respeito a uma censora e isto vem pacífico à sociedade); académicos (notória a presença do abissal CES nesse painel de patrióticos censores), ou o antigo e a actual directores do Museu do Aljube (estes dois militantes do PCP nem têm o pudor de tentar fazer esquecer o execrável vínculo  nepotista que manusearam na conquista daquele lugar na administração pública). Entretanto outras coisas menores vão acontecendo: a TAP intervencionada soçobra, com o autoproclamado “corajoso” Pedro Nuno Santos aos comandos da aeronave; ninguém atenta enquanto o engenheiro Sócrates jagoza sem acusações que se vejam; e o banqueiro do regime constata, decerto que aliviado, que nunca será Fouquet. O ministro da Educação incumpre sonantes e repetidas promessas. Os profissionais do sector cultural, na maioria de mundivisões “à esquerda”, constatam – talvez antipatrioticamente – o tipo de ministra que lhes coube em tutela. E, lá bem no fundo, até pouco relevante, a economia nacional é uma “devastada armada” e mesmo que o infame Passos Coelho nos mande emigrar não há, agora, quem e onde nos acolham…

No meio de todo este deserto de problemáticas, a actualíssima “questão colonial” veio congregar atenções, catapultadas pela investida do codicioso dr. Ba, que o demonstra poderoso ariete do “team” governamental, qual Ibrahimović (eu preferiria dizer Lukaku, até pelo seu extraordinário desempenho no último derby milanês, corolário do recente conflito pessoal entre os dois magníficos avançados. Mas decerto que, face às sensibilidades actuais, alguns diriam “racista” essa minha analogia), capaz de driblar atenções e preocupações da “moldura humana”, em épocas transactas dita, e temida, “eleitorado volátil”.

É no âmbito desta “operação racial” que a remoção do Padrão dos Descobrimentos lisboeta acaba de ser colocada a debate público pelo Partido Socialista, por intermédio de um dos seus deputados à Assembleia da República. Passada uma semana dessa proposta o carácter partidário – e não meramente pessoal – desta iniciativa torna-se notório, mesmo evidente, face ao silêncio (sempre ele anuência) que colheu da direcção do PS e, também, do presidente da Câmara de Lisboa, até porque este figura grada do partido e sempre dito putativo seu futuro líder. Para confirmar a dimensão partidária deste novo conflito político – e não meramente “questão cultural”, como alguns resumem – logo de seguida o PAN, um dos partidos que sustentam o actual governo, propôs a remoção de pinturas da Assembleia da República, devido aos motivos históricos que nelas constam. Pois dirá o dr. Costa, e seus fiéis correligionários, antes discutam a “Pátria” de antanho do que façam críticas antipatrióticas actuais. Ou seja, que digam mal do governo, como é timbre desta plebe viciosa e desrespeitosa.

Enfim, desabafo feito, digo ao que venho. Será curial mas não muito elegante aproveitar este blog para chamar a atenção para textos no meu blog pessoal, o discreto Nenhures. Mas faço-o hoje. Pois a propósito deste “bota-abaixo o Padrão” o meu amigo Tiago Matos Fernandes – que conheci há décadas em Moçambique, onde trabalhou como voluntário e depois investigou para a sua excelente tese de mestrado -, botou um belíssimo texto no facebook, “o mundo num postal de facebook” como lhe disse. O Tiago pouco ou nada concordará com o ditirambo que eu aqui acima coloquei. Mas ainda assim deixou-me colocá-lo lá no Nenhures. Não o coloco aqui pois é algo longo para um blog colectivo e generalista. Mas muito o recomendo e por isso convido os leitores do DO a lerem-no: Enquanto Vasco da Gama dormia.

 

9 comentários em “Remover Padrão e afins…”

  1. Acabo de “sair” do seu texto “Enquanto Vasco da Gama dormia” ( porque foi como se embarcasse numa viagem) e não sei como classificá-lo, como elogiá-lo, de tal forma estou sob a comoção que senti ao lê-lo. Aquelas também são as minhas memórias e por aqui me fico.
    Os Mamadus e os Fernandos Rosas e os RTavares, e quejandos deviam ler obrigatoriamente o seu texto. Muito tinham para aprender. Num ápice iriam ao centro da verdade da Histórica, ao osso, à pele, ao cerne da realidade africana que eles desconhecem absolutamente.

    1. Obrigado pelo seu comentário. Realço que o texto “Enquanto Vasco da Gama Dormia” que publiquei no meu blog é do meu amigo Tiago Matos Fernandes e não meu. Saudações.

    2. E se o Padrão tivesse sido destruído como todos os outros edifícios da Exposição do Mundo Português 1940? Lá tinha ido a ‘verdade da História’.
      Só ficou de pé o que não foi construído em material perecível: Fonte da Praça do Império, Doca, Restaurante e Esplanada “Espelho d’Água” e as instalações do agora Museu do Artesanato.
      Durante vinte anos o Padrão em gesso e outros materiais andou “fica ou não fica de pé”, e em 1960 iniciou-se a reconstrução em pedra e cimento (o actual) igual ao outro em gesso do Cotineli Telmo.
      Parece que o Asçonso teria dito ‘devia ser destruído’ naquele tempo, e não ‘deveria ser destruído’ agora.
      Digo eu para safar o homem.

  2. Obrigado jpt.
    Julgava eu que conhecia África …
    Que olhar bonito, descomprometido e sem complexos do Tiago Fernandes sobre um continente com tanto ainda por descobrir.
    O desconhecimento da verdade e a estupidez irresponsável de alguns políticos da nossa praça, são trunfos para os abutres que por aí pululam sempre prontos a renegar a História

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