Vou à terra! Que quereis que traga?


letraspequenas,

Desafiou-se a alma ao desapego, contando aliviar-se, coitada. De querer eternas as pessoas, imóveis as coisas e os lugares. A ilusão do sempre, a desilusão do fim. Mas nestas paragens, regala-se. Não há desapego com nexo, nem coisa que pese, e o que a comove, da alvorada à noitinha, é poder gozar todos os apegos. É um ror de lembranças, de expressões esquecidas, de um povo igual ao que a criou. E lides bonitas, vivas, terras milagrosas, águas que ainda correm, gente de empenhos e jeitos só seus. Regala-se, refaz-se, aqui, a alma.

 

Já vai longa a nossa história. Tu tens séculos para contar e eu décadas. Quando me acolheste era ainda uma menina. Vinha de outro hemisfério, de paisagens cheias de sonhos. Tomaste-lhe tu o lugar. Eras a terra prometida. A saída. O horizonte onde os dias haveriam de medrar. Que o passado, por amor à vida, passado era.
Em ti cresci o maior bocado de que tenho memória. E aprendi que embora aos homens fossem destinadas diferentes sortes, tu te davas de igual modo a todos eles. Nunca tiveste reservas, era essa a tua lei. Por isso depressa me apaixonei.
Foram anos e anos de repimpados banquetes, de apetitosas orgias debaixo desse teu céu. Nos invernos mais gelados, em infinitas Primaveras, a cada tórrido verão, que invariavelmente acabavas em cores de palha e com milhares, milhares de folhas pelo chão.

Ensinaste-me o teu cantar e os seus passinhos de dança. Que pujança! Mostraste a que cheiram as ervas daninhas, o valor de uma colheita, o sabor em que terminam as tuas vinhas. No som de várias enxadas a guiar os ribeirinhos, o rigor de cada trabalho, e a alegria dos domingos.
Eras uma vila airosa, onde todos se falavam. Na ponte, no rio, no largo, no chafariz, até na feira, ainda que aos gritos apregoasse uma tendeira, era esse o teu cariz. Não há pronúncia mais bela em todo o Vale do Lima e onde a língua portuguesa, mesmo em dorida expressão, teime entoar uma canção.
Hoje trazes novidades. Foste à cidade beber? Para mim ainda és a mesma, sempre, sempre o hás-de ser. A brisa fresca, a verdura insinuante, os campos até ao rio, montanhas até ao céu, a saia de florinhas, bordada a muros de pedra. Para mim, és sempre a mesma, desde aquele primeiro dia em que me deitaste a mão.
Já não tenho aquela força de te correr dia a fio, de subir a cada galha, de aguentar a geada, de amassar uma fornada. Resta-me, vila, olhar-te serenamente. Dizer para dentro de mim “soubesse as pândegas que já vivemos, esta gente…”. Agora é que sou fidalga. Repouso pelos relvados, à sombra dos castanheiros, em vez do vira, ouço fados.
Não estou diferente, não é. Sabes bem que quero é mimos. E quem melhor que tu, meu vale, para me curares a saudade e cuidares dos meus meninos? Mostra-lhes o que me ensinaste, sem que eu tenha de falar. Sopra-lhes tu aos ouvidos, reflecte nos seus peitos o que tens para lhes dar.
Que de ti se enamorem. Eles e todos os outros. Esses que por aqui vêm, sedentos de paraísos, procurando uma razão que lhes perfaça os sentidos. Isso para ti é fácil, não sabes tu outra coisa. Dá-lhes mais uma malguinha, serve-lhes o prato cheio, deixa-os debaixo da ramada encostados a um esteio. Uma coisa te garanto. Regressam agradecidos, esquecidos de todo o pranto.

 

Foto: Ricardo Polónio

 

26 comentários em “Vou à terra! Que quereis que traga?”

  1. A Gui é da Ponte do Lima? Oh que terra tão bonita.
    No verão passado passei pelas Feiras Novas, estive a molhar os pés no rio com os meus filhos.
    Olhe, fixe-se lá, se calhar é mais fácil arranjar lá emprego do que cá.

    1. Minha família é limiana. Escorraçados de Angola desembocamos ali. Sete pares de meias debaixo de umas galochas e, em Setembro, ora bem, tens umas Festas, menina… Vais gostar, prometeram-me 🙂
      E sim, Luís, é sempre uma hipótese. Custa-me é o clima…

      1. Mas as raízes dão-se em terras variadas, felizmente. Em hemisférios vários, até.
        Bem que me parecia. Eu, nada no Lobito mas criada em Lisboa por mor duma polio (embora acabada de criar em Lourenço Marques) lembro-me de ouvir falar de uns Abreus de Lima por lá. Talvez os pais, que os filhos deviam fazer meia geração de diferença, o que em criança é muito tempo mesmo.

        1. Ah, que giro, Isabel. Lobito, Lobito, quem me dera ir lá morrer. A gente morava em Benguela, naquele prédio de 10 andares, frente à praia morena. Mas foi no Alto-Catumbela que o bailarico começou. Tudo por mor da Celulose onde meu pai era topógrafo.
          Beijinho, branquinha de segunda 😉

          1. Haja esperança, Gui:
            “Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas para a sepultura.”
            Assim dizia o padre António Vieira já depois do estalo na cabeça que o fez passar de bronco a inteligente…

  2. Ah, lindeza tamanha, que consigo a escrever todos nós somos limianos…
    Já lá estive há uns anos, mas faltou-me vê-la a si para o quadro ser completo.

  3. Ponte de Lima, é um dos locais do nosso país onde passo com imenso gosto e dos poucos de que me custa despedir, no regresso.
    Gostei imenso do texto.
    E… aceitando o convite expresso no título… e porque me acho um gastrónomo de certo calibre, rogo-lhe que se arme de um “Tupperware” e sem passar a ponte para a outra margem do Lima, procure a Rua do Rosário. Aqui, encontrará uma tasquinha denominada “Os Telhadinhos”… (Hmmm??? pensou que não iria fazer uso da denominação comercial?, ora… vontade não me faltou…) e peça à Dona Márcia que o encha (ao Tupperware) com um dos seus afamados petiscos. Se quiser obsequiar-me com uma de verde branco ou tinto, é indiferente, mas do lavrador, fica inteiramente à vontade.
    ;))
    Boa viagem!

  4. De Ponte de Lima traga-me o que quiser, a beleza da alameda de choupos à beira rio, uma garrafa de verde tinto, um paio do lombo…depois e no regresso, se passar por Viana da Foz do Lima, é ir ao Manuelzinho Natário e escolher doçaria a condizer. Este ribatejano arraçado de espanhol de Castela ficar-lhe-á eternamente grato…

    1. Ah, Vossemecê quer fazer um piquenique. Está bem. Espere-me então na Estação, domingo pela tardinha, e traga o carrinho de mão ou, se tiver, com alforges, uma mulinha, seu Marialva 😉
      Um abraço grato, Fernando, pela visita

    1. Doz’Arcos, ó! Gosto muito 😉 E que lindas freguesias por aquela serra acima. Uma das mais belas janelas manuelinas que meus olhos viram está na sua terra: esculpida no granito, naquele Paço de Giela em dolorosa ruína, é uma coisa sem paralelo.
      Obrigada Agostinho!

  5. A Gui continua a oferecer-nos prosas que nos deixam ” agradecidos, esquecidos de todo o pranto”.
    Apesar de ser da planicie, no Minho, e neste caso em Ponte de Lima, sinto-me sempre em casa.
    Sou um apreciador da “cozinha minhota”; apesar disso, há lá coisa que se compare a beber uma malga de verde tinto acabado de espichar do pipo, acompanhado de um naco de presunto com brôa.

    1. Fiquei com auga na boca 🙂
      O Minho é uma província engraçada. Mas anfitriã é a Beira. Do incrível esses beirões. Repartem tudo sem desconfianças. Gente sã que encontrei sempre.
      Obrigada Alexandre. É uma honra te-lo como leitor.

  6. Uma das mais belas terras do País, numa região onde passei os melhores anos da infância. Já aqui falei nela, numa série antiga que sou capaz de reeditar este Verão.

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