Voltar ao passado na Catalunha


Pedro Correia,

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Diga o semiparlamento autonómico de Barcelona o que quiser, numa triste sessão com quase metade dos lugares vazios, não há maioria sociológica pró-independentismo na Catalunha.

Todas as sondagens confirmam isto, todas as eleições têm confirmado isto.

 

Não existe sequer um “povo catalão”, como os separatistas reivindicam. Pelo menos metade dos habitantes da Catalunha actual descendem directamente de espanhóis de outras proveniências – como é o caso da deputada da CUP Anna Gabriel, com pai nascido em Huelva e avós maternos oriundos de Múrcia.

Basta ver os apelidos de origem castelhana – começando pelo omnipresente García – que excedem os apelidos catalães. São os charnegos, como lhes chamam depreciativamente os autóctones que se imaginam bacteriologicamente puros.

 

Digam o que disserem, esta mescla tem enriquecido a Catalunha, não a empobrece. O ideal, ao contrário do que alguns afirmam, é a congregação, não a separação. Por isso costumo dizer que a União Europeia foi a única utopia realizável do nosso tempo – uma utopia que não produziu feridos nem mortos.

Bandeiras nacionalistas, fronteiras, alfândegas, guardas fronteiriços, passaportes – tudo isto pertence ao passado, felizmente, na Europa comunitária. Reivindicar tais velharias em nome dos valores da “esquerda”, que sempre foi internacionalista e agora procura colar-se à direita mais rançosa e populista, é ainda mais absurdo.

 

Leitura complementar:

Um “estado falhado”? De Jorge Almeida Fernandes, no Público 

25 comentários em “Voltar ao passado na Catalunha”

  1. independência para as sobras do que foi a Catalunha
    deu no desmantelamento do financiamento das empresas que não votam nem voltam

  2. “Diga o semiparlamento autonómico de Barcelona o que quiser, numa triste sessão com quase metade dos lugares vazios”

    Os deputados do PP e PSOE abandonaram o parlamento.
    Explicação :
    Teoricamente todos os deputados que pertencem ao mesmo partido deveriam exercer o mesmo voto sobre uma matéria: chama-se a isto disciplina de voto.

    “Não existe sequer um “povo catalão”

    Como não existe um povo português – somos fenícios, gregos, romanos, godos, árabes, berberes, francos, africanos, espanhóis. …

    “como é o caso da deputada da CUP Anna Gabriel, com pai nascido em Huelva e avós maternos oriundos de Múrcia.”

    Manuel Valls não é francês. O pai é catalão. Sarkozy é húngaro.

    António Costa é goês.

    Os Germanos são eslavos…..

    Não defendo, nem me oponho à independência. Defendo é que os catalães tenham/ tivessem o Direito de Livremente ser ouvidos. Provavelmente o Não tinha ganho e evitava-se o que agora não tem retorno. Em breve virá o País Basco, sobretudo se continuarem as políticas de austeridade e a não representatividade das instituições europeias que fazem as leis nacionais. Os nacionalismos são um sintoma da doença que é a UE.

    Porque diabos não mudaram a Constituição!!??. O Não tinha ganho!
    Rajoy e o Sánchez foram uns tolos politicamente

    1. Votarem a “independência” envergonhadamente no parlamento regional, em papel dobrado numa urna, sem assumirem às claras o voto por assumido receio de enfrentarem a lei penal espanhola, é uma forma originalíssima de decretarem a independência.

  3. Caro Pedro,
    lendo o seu texto apetece dizer que as mulheres espanholas oriundas de Huelva têm, como diz o povo, “pêlo na venta”, pois foi devido a uma espanhola dessa região que hoje Portugal é um país,e não como a Catalunha, uma região de Espanha.
    Terá dito essa espanhola face a alguma hesitação do seu marido, o duque de Bragança, uma frase famosa que o tempo deturpou:
    «Mais vale ser rainha por um dia do que duquesa toda a vida!

    Diz a Wikipédia sobre Luísa de Gusmão:
    «Da Casa Ducal de Medina-Sidónia, Dona Luísa era filha de João Manuel Peres de Gusmão, 8º duque de Medina-Sidónia, e de Joana Lourença Gomes de Sandoval e Lacerda, os senhores mais poderosos de Huelva y Sanlucar de Barrameda.»

    1. Cada país tem os “pais” da independência que merece, António. Portugal teve D. Afonso Henriques.
      Vejo Puigdemont e nada nele – mesmo nada – indicia um D. Afonso Henriques. A voz de falsete, o olhar errante, a atitude tíbia.

      1. Aí é que está…

        Mais vale ser rainha por um dia, não importa que se destrua um povo, do que duquesa num estado estável toda a vida…

        Andam tão preocupados com a Catalunha e ninguém fala de Olivença… Talvez porque, se por lá houvesse referendo, Portugal não ficaria bem na fotografia…

        A ver o que isto vai dar…

        Abraço

  4. Bandeiras nacionalistas, fronteiras, alfândegas, guardas fronteiriços, passaportes – tudo isto pertence ao passado, felizmente, na Europa comunitária

    Os independentistas catalães não pretendem recuperar nada disso – eles pretendem que a Catalunha seja mais um Estado-membro da Europa comunitária, sem fronteiras nem alfândegas tal e qual como os demais.

  5. não há maioria sociológica pró-independentismo na Catalunha

    Se esse é o caso, então porque é que o poder madrileno não colaborou ativamente na realização de um referendo (mesmo que não vinculativo, mesmo que formalmente ilegal) que o demonstrasse? Tinha-se feito um referendo (poder-se-lhe-ia ter chamado qualquer outro nome, “cnsulta popular” ou o que fosse), a ausência de maioria sociológica teria ficado demonstrada, e ter-se-ia arrumado a questão de uma vez por todas.

    Em vez disso, os centralistas madrilenos optaram por boicotar ativamente o referendo, o que não serviu para nada a não ser para agravar a questão.

    1. Por um motivo muito simples: tal referendo é anticonstitucional.
      Não apenas em Espanha mas em praticamente todos os países.
      Em Portugal, por exemplo, a Constituição estabelece que a soberania portuguesa é “una e indivisível” (art. 3) e que “o Estado não aliena qualquer parte do território português ou dos direitos de soberania que sobre ele exerce” (art. 5).

      1. É um conceito que parece difícil de perceber Pedro.

        Os líderes catalães até podiam, legitimados pelo povo, infringir as leis todas que consideram ilegítimas. O que não podem fazer, é de boa fé exigir a terceiros que violem leis que estes consideram legítimas.

        Até se poderia discutir se o governo regional tem ou não um mandato democrático para violar a constituição e o estatuto de autonomia. Eu acho que não, mas admito que outros possam achar que sim.

        Agora o que é profundamente absurdo é defender-se que esse mandato “força” terceiros a negociar coisas que não lhes cabe conceder. A grande maioria dos espanhóis, dos deputados espanhóis e dos senadores espanhóis estão com a constituição. O governo central seguramente não tem, nem nunca teve, um mandato para aceitar um referendo que a justiça diz ser inconstitucional.

        Até isso mudar, até a constituição espanhola mudar, porque a sociedade espanhola quer que mude, até que esta permita a desagregação do estado, não há (nem nunca houve) diálogo possível. O único fim possível é, e sempre foi, um golpe de estado.

        Agora é esperar para ver. Mas uma coisa é certa: o conflito está para durar, e as coisas vão piorar muito, e durante muito tempo, antes de melhorarem.

        1. Só podem piorar.
          Em termos políticos, agora que se dissolveu a coligação contranatura entre conservadores e extrema-esquerda na Catalunha.
          Em termos de convivência cívica, na medida em que o governo golpista acentuou deliberadamente a fractura social na região.
          Em termos económicos, com mais de 1500 empresas – representando 30% do emprego local – já fora da Catalunha, com reflexos inevitáveis nas componentes tributária, financeira, económica e laboral.

      2. Um referendo não é inconstitucional; o resultado dele é que pode ser.
        Se não quisessem, não lhe chamassem referendo; chamassem-lhe “consulta popular” ou outra coisa qualquer.
        O que os nacionalistas espanhóis fizeram foi sabotar o referendo organizado pela Generalitat. Recusaram-se a votar nele. Quando tinham a possibilidade de, pelo contrário, votarem maciçamente nele e assim demonstrarem a superioridade numérica de que alegadamente desfrutam.
        Organizar uma consulta ao povo não pode ser inconstitucional, ainda que essa consulta seja para decidir algo que é inconstitucional.

        1. Um referendo pode ser inconstitucional: nesse caso, o “resultado” escreve-se sempre entre aspas. Porque é irrelevante para o caso: a coisa está morta à nascença.
          Aconteceria o mesmo se um partido regionalista (proibido pela Constituição) ou de cariz fascista (proibido pela Constituição) promovessem um referendo sobre o restauração da Monarquia em Portugal (proibida pela Constituição).

          1. Faz bem em chamar à colação as proibições antidemocráticas que se encontram na Constituição portuguesa, nomeadamente de partidos regionalistas, partidos ligados a religiões, e partidos fascistas.
            Naturalmente que essas proibições são contornadas sem que o Tribunal Constitucional se pronuncie, por exemplo houve um Partido Democrático do Atlântico que era regionalista e um Partido Democrata Cristão que fazia referência à religião.
            Essas proibições deveriam, evidentemente, ser eliminadas. Essas proibições na constituição portuguesa, tal como as proibições na constituição espanhola, são antidemocráticas e só servem para barrar a entrada pela porta àquilo que depois entrará pela janela.
            Como se está a ver na Catalunha.
            E o melhor que há a fazer com tais proibições é fingir que elas não existem, tal como o Tribunal Constitucional português sabiamente fez e tal como o governo e os tribunais espanhóis fariam bem em fazer.

          2. Não fiquemos, acanhadamente, por aí… E por que não a legalização de partidos abertamente racistas e antissemitas? E por que não a legalização de partidos que advoguem a superioridade intelectual do homem sobre a mulher? E por que não a legalização de partidos que defendam o espancamento da cônjuge em caso de derrota do Benfica, o espancamento sistemático de todo e qualquer homossexual e o linchamento de todo o negro que ouse olhar para uma mulher branca? As oportunidades que estamos a deixar passar de exercitarmos a nossa sanha contra as proibições antidemocráticas, meu Deus!

  6. Lembra-me o famoso catch 22.

    Como não há maioria pró-independentista não vale a pena fazer um referendo.

    Como não se fez um referendo nunca se poderá dizer que há uma maioria pró-independentista.

  7. A Europa não está para aí virada. Sempre pensei que o fiasco da vitória do Brexit abrisse os olhos aos independentistas fartos de boa vida.

    1. Brexit, Trump, Catalunha – tudo faz parte do mesmo fenómeno: a erupção dos populismos mais rasteiros na cena política tradicional, contra os mecanismos da democracia representativa.
      É fruta da época.

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