Voltar ao metro


Teresa Ribeiro,

Não guio. Como sempre estive convicta de que um dos principais focos de contágio da Covid é nos transportes públicos, defendi-me durante bastante tempo com um esquema de boleias que me resolveu o problema. Mas a dependência cansa e às tantas entendi que já era tempo de regressar à normalidade, até porque tenho um horário flexível, que me permite evitar as horas de ponta.

Quando voltei ao metro, a minha curiosidade concentrou-se no comportamento dos utentes. E constatei mais uma vez que somos um povo obediente e ordeiro. A maioria, quando há espaço que chegue, preocupa-se com o afastamento e usa máscara. Mas claro que há excepções. Em poucas semanas vi gente ao molho, sem necessidade. Magotes a concentrarem-se escusadamente junto às portas, muito antes de o metro entrar nas estações, pessoas sem máscara por estarem a beber, ou a comer, ou porque sim. Tanto que se fala na importância do distanciamento social e muitos, sem pensarem duas vezes, sentam-se nos bancos que ficam costas com costas, de modo a quase tocarem na cabeça uns dos outros.

Nunca me apercebi tanto como agora de que há imensa gente que tem o vício de ocupar o tempo que gasta nas deslocações a falar ao telefone. Numa só carruagem é comum ver várias pessoas nesse trai-lai-lai e facilmente se percebe, porque muitas falam alto, que não se trata de telefonemas inadiáveis.

Não é preciso ser especialista em epidemiologia para perceber que o risco de contágio aumenta com este género de comportamentos, tão fáceis de corrigir. Tanto tempo que se tem gasto em televisão a entrevistar especialistas, tanto que nem os mais pacientes já  os conseguem ouvir, e ninguém se lembrou de encomendar uma campanha, feita de forma simples e divertida, que chame a atenção para a importância dos detalhes na prevenção do contágio?

Ontem não pude evitar um risinho amarelo quando entro numa estação e oiço em fundo a voz de uma funcionária avisar que “a linha verde está com perturbações”. Hoje tive a certeza que a velha rotina se tinha instalado na minha vida quando ouvi ao chegar ao metro, a voz de uma funcionária a pedir “desculpa pelo incómodo causado”, pois “o tempo de espera na linha azul” podia ser “superior ao normal”. 

E claro, escadas rolantes avariadas também existem com fartura. Há coisas que nem com a pandemia mudam…

31 comentários em “Voltar ao metro”

  1. sempre estive convicta de que

    O mal desta epidemia é haver demasiada gente que está convicta de que ela se propaga de determinadas formas, em vez de possuir conhecimento sólido, científico e, sobretudo, experimental sobre as formas como ela se propaga.

    Esta crítica não se dirige especialmente à autora deste post, claro, mas sim, sobretudo, às autoridades da DGS.

    Substituem o conhecimento científico (que é necessariamente experimental) por convicções.

    1. Balio,
      A autoridade de saúde foi muitas vezes criticada por ter dado indicações contraditórias, mas convenhamos, essas informações basearam-se nos reports dos especialistas em saúde pública e epidemiologistas que consultaram. Foram achismos? Nalguns casos veio a provar-se que sim, mas tem de haver alguma compreensão, pois a Covid foi uma novidade para todos.
      As minhas convicções naturalmente só se podem basear nas informações que fui recebendo dessas fontes e já passou tempo suficiente para se poder concluir que o distanciamento social e o uso de máscara são determinantes para prevenir o aumento de contágios. Concluir que os transportes públicos são um dos principais focos é mera dedução lógica, pois concentram muita gente num espaço fechado, onde a renovação do ar é insatisfatória.

  2. muitos, sem pensarem duas vezes, sentam-se nos bancos que ficam costas com costas

    Qual é o problema disso?

    Não há qualquer indicação, ou sequer sugestão, de que haja especial perigo em duas pessoas estarem costas com costas, desde que estejam a respirar de forma normal.

    Os perigos são: pessoas a falarem alto (ou gritarem, ou cantarem), e correntes de ar que arrastem os aerossóis contendo vírus de uma pessoa para outra.

    1. Se se estipulou que o distanciamento ideal de segurança deve ser de metro e meio a dois metros, estar a um palmo de um estranho, mesmo que seja de costas, não deve ser o mais indicado…

      1. Mas essa estipulação não tem qualquer base científica. É uma pura especulação, que uma pessoa a metro e meio de outra a contamina.
        O vírus tem que sair do corpo da pessoa infetada, e não há qualquer indicação de que o faça quando a pessoa respira normalmente. Muito menos se pode presumir que o vírus, saindo da pessoa infetada para a sua frente, vai depois para as costas dela – a não ser que haja alguma corrente de ar.
        Não é perigoso estar a meio metro de outra pessoa, a menos que se esteja à frente dela e que ela esteja a espirrar, falar alto, cantar, ou de outra forma respirar de uma forma violenta e esforçada.

        1. Anónimo,
          Segundo a DGS – lembro-me bem de ter ouvido essa explicação – o que se expele enquanto se respira de máscara sai, sobretudo, por trás, através da folga que se forma entre o rosto e a máscara. Logo, duas pessoas costas com costas podem contagiar-se se estiverem a uma distância muito curta.
          Quanto à distanciação recomendada: se não seguirmos as indicações dos especialistas – e note-se que há um largo consenso quanto a isto – seguimos as indicações de quem?

  3. ninguém se lembrou de encomendar uma campanha, feita de forma simples e divertida, que chame a atenção para a importância dos detalhes na prevenção do contágio?

    Tem a Teresa toda a razão. Infelizmente, nesta epidemia as autoridades sempre se concentraram em proibições e limitações generalizadas à liberdade, em vez de se concentrarem em pedir às pessoas que utilizassem os seus neurónios e adotassem comportamentos racionais.

  4. Há uma semana atrás vi um indivíduo num supermercado baixar a máscara para facilitar o espirro. Nada de novo.
    Do que presenciei no Metro da metrópole de cima, era entrar até caber. Quando uma carruagem vem de 20 em 20 minutos e há transbordos, é pegar ou largar.

    Quem me dera aqui ter metro para me poder queixar :/
    Saudade do “tempo de espera superior ao normal” e do “tenha a bondade de me auxiliar”

  5. Se a Teresa vê nos transportes públicos alguém a falar alto ao telemóvel, deve dirigir-se a essa pessoa e pedir-lhe que fale mais baixo. Eu geralmente faço isso, com sucesso: as pessoas passam efetivamente a falar mais baixo e, não raro, encurtam também o telefonema.
    É que, muitas pessoas falam especialmente alto ao telemóvel porque têm a ideia de que a outra não as ouve. Mais ou menos como o meu pai, quando eu era criança, começava automaticamente a gritar sempre que fazia um telefonema de longa distância.

  6. 999 em cada 1000 contágios acontecem em ambiente de amigos-familiares ou em diversão.
    Portanto, a probabilidade de ser contagiada num transporte público (mesmo que super lotado) é mais pequena que gastar 1 euro numa raspadinha e ganhar 10000 euros. Agora se for, com 3 amigos, pouparem dinheiro a circular no mesmo carro, de janelas fechadas, para usar o ar condicionado, evitando o calor… aí sim, poderá passar 4000 horas numa carrugem do metro super lotada e não ser infectada e fazer 25 minutos de viagem de carro e na semana seguinte estar infectada, mesmo que nenhum dos outros apresente sintomas.
    É por pensamentos como o da Teresa que tanta gente é infectada… pois os negacionistas aproveitam essa ideia e apagam a parte que mais importa: os momentos onde ocorrem 99% dos contágios.

    1. Durante uma das ondas (já não sei qual) constou que a maioria dos focos na Grande Lisboa provinham da periferia, portanto das zonas onde há grande concentração de gente que frequenta os transportes suburbanos. Ter-se-iam todos infectado em casa? Como se pode afirmar, com toda a certeza, de que foi assim e não nos movimentos pendulares feitos de comboio ou de autocarro?

  7. Estou convicto que se as pessoas convictas respeitassem as convicções dos outros, esta pandemia seria muito mais fácil de suportar.
    Mas a malta gosta é de “reality shows” o que é que se há-de fazer.

  8. País triste de abatidos entregue a bandidos. Nem vale a pena enumerar os problemas com que nos debatemos, mas a abertura dos noticiários diz-nos que Ronaldo não quer continuar na Juventus. Vão fecundar a prima gorda ou para o raio que os parta.

  9. Também não conduzo e “vejo a coisa” mais ou menos como a Teresa.

    Hoje é o 4º dia de Greve dos STCP este mês.

    A propósito, acrescento que à falta de civismo de alguns utentes, junta-se má-criação e incompetência de alguns motoristas.

    Na semana passada tive oportunidade de assistir à cena de um motorista a destratar (além de não ajudar e impedir que outros a tentassem ajudar) uma utente com deficiência motora por ter ousado pedir para usar o mecanismo de ajuda no desnível da porta sem a antecedência que sua excelência exigia (ele que conhece bem a utente em causa, que todos os dias à mesma hora sai naquela paragem, como sabiam quase todos os que seguiam no autocarro). Acabou por fazer descer a rampa mas sempre de maus modos e a contra gosto.

    Assisto há anos à cena e o grosso dos motoristas porta-se como é sua obrigação nestes casos. Aquela foi uma excepção. O problema é as várias más excepções fazem a vida dos outros um inferno.

    Antecipando o comentário do Balio: sei, devia ter repreendido o motorista e devia ter feito uma participação. É capaz de ter razão, mas se fosse uma tomar atitude sempre que reparo em gente a ser injuriada ou em mim própria a ser injuriada, não fazia outra coisa na vida.

    1. Eu quando há meia dúzia de anos estive na Suíça assisti à seguinte cena. Uma mãe imigrante (via-se pela raça nã́o-branca) com um filho ao colo e outro numa cadeira de bebé tentava debalde fazer descer a cadeira de bebé (carregada com o bebé) do autocarro. Tentou uma, duas, três vezes sem conseguir. O autocarro parado, de porta aberta, a mãe tentava, não conseguia, ninguém ligava, todos os suíços olhavam para a frente ou para o lado, nada tinham a ver com o caso. Até que eu, farto daquela tristeza, me levantei lá do fundo do autocarro onde estava e vim ajudar a mãe a carregar o carrinho de bebé para fora do autocarro. Nenhum suíço que estava perto da senhora foi capaz de fazer o que eu fiz.

      1. Fez bem, Balio. Já perdi a conta às vezes que fiz descer o cadeira de rodas da dita senhora. Não fazemos mais do que a nossa obrigação. E, aliás, ao contrário dos seus suíços por cá é comum ver ajudar nesses casos. A questão era a das excepções e a da falta de vontade de confrontação (certa cobardia) ao não reagimos em situações inadmissíveis por receio às respostas boçais.

        Em matéria de comportamento na era covídica não devo dar bitaites uma vez que cheguei a fazer uma viagem de autocarro sem máscara (de todo), ser chamada à atenção sem perceber que era para mim (olhei à volta, verídico), só tendo dado pela asneira à entrada do escritório. Isto na altura do primeiro confinamento. Nessas coisas tenho alguma tolerância, por saber que todos em algum momento fazemos asneiras e tentei não entrar nos “vai na rua e leva a máscara abaixo de nariz, acima do nariz, de pano e devia ser descartável”, “vai à praia e devia estar casa”, “sai à rua depois das 13h” etc. Foi tempo de um mundo de implicações, em que cada um parecia ter a sua verdade e estar pronto a condenar o comportamento perigoso dos leprosos.

    2. Isabel,
      Essa sua história faz-me lembrar outra situação: a esmagadora maioria dos motoristas não têm a delicadeza de deixar entrar os utentes antes da hora estipulada para iniciarem a sua marcha, nem que troveje, chova torrencialmente ou faça um frio de rachar. Bem sei que é um direito que têm, o de só abrir as portas dentro do horário, mas ficar estacionados a poucos metros de distância das paragens a olhar para as pessoas que se alinham na rua, à espera do momento em que eles se dignem abrir a porta – o que geralmente acontece no último minuto – revela uma falta de civismo que até dói.

      1. Devia ser assim em tudo.
        Supermercados com filas à porta, abrem às 8h00 mas os funcionários estão lá dentro às 6h00, deviam deixar entrar as pessoas, coitadinhas que estão na rua.
        Nos Bancos, igual.
        Abrem as 08h30as há funcionários lá dentro às 7h00, então? qual a razão para não abrirem logo?.
        Falta de civismo!

      2. Só me aconteceu isso uma vez. Um dia de trovoada terrível, numa paragem regada a chuva e vento (daqueles dias em que só se sai de casa porque se tem mesmo de trabalhar). Estávamos todos ensopados, numa fila com umas quarenta pessoas e a motorista, ao contrário do que fazia o motorista habitual, resolveu não abrir a porta. Mas como digo, só aconteceu uma vez. Eu e mais algumas pessoas, antes de tirarmos o passe, resolvemos enxugar os casacos junto à motorista, enquanto nos certificávamos que tossíamos o bastante na direção dela (sempre pedindo desculpa, claro). É engraçado que ela nunca mais repetiu a graçola. Mesmo em dias solarengos.
        Foi uma terrível falta de civismo da nossa parte, mas serviu para ela perceber o que tinha feito.

  10. Não é preciso ser especialista em epidemiologia para perceber que o risco de contágio aumenta com este género de comportamentos, tão fáceis de corrigir…………. Coitados dos países e estados que proíbiram máscaras, confinamentos e distanciamento chossial, segundo esta hipocondríaca nesses lugares todos morreram, ou não, se calhar até têm números melhores que nós. basta pesquisar.

    1. Não se compreende como um país um elevado grau de educação e informação como é a Suécia não tenha entrado na loucura dos confinamentos e mascarilhas – ou só o fizeram em modo restrito.
      Burros.
      De certeza que já morreram todos.
      Pois se andam aos papéis para explicar como é que na Nova Zelandia após semanas sem casos aparece um (unico) fecha tudo outra vez o pior é explicar como se infectou, pois parece ser uma só pessoa já isolada e confinada… “auto-infectou-se”…

  11. O titulo é “Voltar ao Metro”.
    Tirando as criticas que faz ao comportamento das pessoas, e elas devem ser feitas, o resto é um assunto seu. Claro que pode falar nele, não compreendo é como os assuntos privados de alguns se tornam assuntos com interesse geral, temos de saber que voltou a usar o Metro.

    Também há imensa gente que tem o vício de escrever sobre tudo e sobre nada, gastando recursos em vão.

    1. Anónimo,
      Se há coisa que não enfio é essa carapuça. Não é preciso fazer um desenho para perceber que o objectivo deste postal não foi anunciar ao mundo que tinha voltado ao metro.

  12. mesmo com o post a dizer mal, é daquelas coisas que ninguem leva a mal, para alem dos cronicos voluntarios do like.
    Nem sequer posso dizer que ter razao é tao fácil.
    Se ao menos, nos comentarios, houver acrescento, novidades .

  13. vou ja acrescentar …
    Sim, do ponto de vista do utente, debaixo da agressividade do clima, ter de aguentar ate que o autocarro, a um minuto de partir, abra a porta, é deveras lixado. Uma das desvantagem de utilizar o transporte coletivo.
    Na principal estaçao de metro, cruzamento de metros, uma escada avariou. Penso que normalmente só param por qualquer coisinha, mas que é preciso repor a marcha. A escada era unica, para sair dali. E, claro, vi cenas de fazer chorar o coraçao. Dirigi-me logo a um dos seguranças que andam por ali a dar apoio, e que estava a dar apoio na compra de bilhetes nas maquinas automaticas, e se ligou ao que eu disse, continuou no mesmo oficio.
    Toda a gente tem para contar.

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