A distinção bacoca dos géneros voltou ao Parlamento. José Sócrates deu logo o sinal de partida, ao notar «mais de cem deputados e deputadas» e ao dirigir-se mais a eles e menos a elas sempre que disse «senhoras e senhores deputados». Com este vocativo, dispensou-se simultaneamente da fórmula simples e correcta ("senhores deputados") e da fórmula bacoca e escusada ("senhoras deputadas e senhores deputados"). Ficou-se pelo meio termo incorrecto e deu a ideia de que os senhores são deputados e que as senhoras são qualquer outra coisa indefinida.
Como nota curiosa, merece destaque Sócrates ter dito repetidamente que a promessa de fazer isto «vai de encontro» àquilo. Já começaram os embates?

Num deserto de convicções
inundado de inautenticidade
emergem as vis aberrações
convictas da sua falsidade.
De espinhas curvadas
e olhares periclitantes,
são posturas avivadas
por prosápias irritantes.
De um regime polvilhado
por negociatas imorais,
emerge um país retalhado
de verborreias viscerais.
Aberrações? Verborreias? Gostei.
É uma das manifestações do politicamente correcto que mais me irritam. Se cuidassem de uma forma séria da igualdade de oportunidades em vez de perderem tempo com essas mesuras é que faziam bem.
É mesmo irritante, Teresa. Ainda por cima, são mesuras bacocas que passam facilmente a erros, imprecisões ou desfeitas. Passo-me com isto.
Cito, com a devida vénia, a voz autorizada do professor Vital Moreira:
«Há erros de expressão grosseiros que se vão banalizando, mesmo entre pessoas que tinham obrigação de os não dar. Este fim de semana dei conta de dois dos mais comuns.
O presidente de uma junta de freguesia festejou uma decisão judicial que suspendeu o processo de co-incineração na cimenteira local declarando que ela veio «de encontro aos interesses da freguesia». Obviamente, ele queria dizer o contrário, ou seja, “ao encontro dos (…)”.
Numa crónica de um semanário, um jornalista da casa escreveu esta pérola: «uma coisa nada tem a haver com a outra». Evidentemente, ele queria dizer: ” (…) nada tem a ver com a outra”.
Se pessoas destas falam e escrevem assim, como nos poderemos surpreender com a generalização destes e de outros erros?!»
In Causa Nossa, 16 de Fevereiro de 2009
Assinalou Vital Moreira muito bem. Que é o que ele faz quando quer, compadre.
Haja paciência.. se o homem tivesse dito ‘senhores e senhoras deputados’ já não discriminava ninguém. Se não tivesse dito nada era mal-educado. Se tivesse dito outra coisa era porque dizia outra coisa.. Bacoco, bacoco é escrever um post sobre isto…
A sua conclusão, meu caro, é brilhante. A sua afirmação de que “senhores e senhoras deputados” não discriminaria ninguém é de grande perspicácia.
Releia o que eu escrevi e aproveite para acrescentar uma poeira aos seus conhecimentos profundos, já que não aprendeu nada.
Só não escrevo mais ‘posts’ sobre isto porque é trabalho gratuito. Mas já escrevi alguns e outros hão-de vir. Fique atento, pois.