“Viver é desenhar sem borracha”


Pedro Correia,

 

Millôr Fernandes foi talvez o primeiro escritor brasileiro com quem travei conhecimento, ainda criança, através da secção ‘Pif Paf’, do Diário Popular. Eu era ainda muito miúdo mas já tinha o gosto dos jornais: no cinzento Portugal pré-25 de Abril, as prosas de Millôr (nome que não tardei a fixar), as piadas de Millôr, os bonecos de Millôr tinham um colorido muito próprio. Sendo brasileiro, era um autor universal. E um cultor inigualável do nosso idioma, além de um genial produtor de frases que tinham um duplo condão: faziam-nos sorrir e faziam-nos pensar.

Os últimos textos que li dele foram na Veja, onde tinha há muito uma página com nome próprio. Sem nunca perder a irreverência, sem nunca perder a verve. A idade aguçou-lhe o engenho, a malícia, a arte do trocadilho inteligente que tantas vezes lhe permitiu fintar a feroz censura das décadas de 60 e 70.

 

Tenho anotadas nos meus cadernos várias frases dele. Eis algumas:

«Deus fez o mundo. O homem o faz imundo.»

«Nunca ninguém perdeu dinheiro apostando na desonestidade.»

«Hay gobierno, soy contra. No hay gobierno, también soy.»

«Todo governo é um acto de depravação.»

«Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim.»

«Fiquem tranquilos os que estão no poder – nenhum humorista atira para matar.»

«Jamais diga uma mentira que não possa provar.»

«O que vive repetindo a palavra indubitável é, indubitavelmente, um mentiroso.»

«Anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que nas mulheres fica muito melhor.»

«O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde.»

«O homem é um animal inviável. Graças a Deus. Senão o mundo seria de uma monotonia insuportável.»

«Claro que não se pode evitar o nascimento nem a morte. Mas não dá para melhorar um pouco o intervalo?»

 

 

Millôr, o homem que a sorrir nos fazia pensar. O homem que nos ensinou que “viver é desenhar sem borracha”. O homem que parecia eternamente jovem deixou-nos há dias, aos 88 anos. Despeço-me dele quase como de uma pessoa de família: há 40 anos que o lia – sempre com gosto, sempre com prazer, sempre com proveito. Procuro um obituário digno desse nome na imprensa portuguesa e quase nada encontro – a excepção, nesta busca não exaustiva, é um bom texto de Isabel Coutinho no Público. Quase tudo o resto é prosa seca e árida e estéril, misto de agência e wikipédia, corta-e-cola, repetindo os mesmos factos, os mesmos dados. Sem emoção, sem brilho, sem colorido, sem sombra de graça.

Millôr merecia mais. Merecia melhor do que estes parágrafos de amanuenses produzidos provavelmente por quem nunca o leu. Nem se sentiu mais pobre de espírito por causa disso.

8 comentários em ““Viver é desenhar sem borracha””

  1. Deixou-me com uma curiosidade imensa em relação a este escritor brasileiro, que desconhecia completamente, perdoe-me a ignorância. Agora preciso de lê-lo e vou com certeza comprar um livro.

    1. Gostará, seguramente. Mas julgo que terá que encomendar. Só por acaso as livrarias portuguesas, tantas vezes demasiado desatentas, terão à disposição dos clientes alguma obra do Millôr.

  2. Auto Retrato

    ” Chamo-me Millôr Fernandes, o que, já não sendo uma novidade, ainda não é uma elegia. Sou um homem de estatura mediana, idade mediana, inteligência mediana, razoável de saúde. Nasci no Méier, subúrbio baixa-classe-média do Rio, atravessei socialmente esta cidade, e hoje vivo pegado ao Coountry Club — mas não se assustem que não sou sócio.
    Sou magro e tonto, vago e preocupado. Gostaria de ter a beleza física de uma Allan Delon, o génio de Sean O’ Casey e a inevitável simpatia do Pato Donald, mas como o destino poderia me ter dado a fúria negativa de um Goldwater, contento-me com o que sou.
    Só uma coisa me causa mau humor: o mau humor dos outros. Sou considerado comunista por alguns reacionários e reacionário por alguns comunistas e todos têm razão pois sou inengajável. Como revolucionário mexicano, trabalho por conta própria. Eu mesmo faço fogo, eu mesmo grito por socorro, eu mesmo uso o extintor — não tenho salvação. Sou popular por natureza, por mais que me esforce para ser hermético e profundo. A mim, infelizmente, todos me compreendem. O maior dos meus orgulhos profissionais é ter sido publicado no almanaque farmaceutico da Saúde da Mulher.
    Creio no racional, mas também no amor á primeira vista. Creio numa lógica de ferro, mas também no alogico, no ilógico, no sensorial, no subjectivo, no subliminal. Meu lema é “tem de tudo”. São precisos muitos tiques e muitos toques para fazer um mundo.
    No escuro não enxergo, não entendo do que não sei, páro onde me detenho, vou e volto cheio de saudades. Pois, se fico, anseio pelo desconhecido. Se parto, rói-me a separação. Dou um boi para não entrar numa briga. Dou uma boiada para sair dela.
    Sou hesitante, tenho muitas vezes, o temor de desagradar, nem sempre sinto coragem de dizer exactamente o que penso ou tudo que penso, emprego palavras mais suaves do que o criticado merecia, ou perco a cabeça e uso um padrão de julgamento agressivo e injusto. Sou, em suma, como todo o mundo.
    Como quse todo o mundo. Pois há os duros, os verdadeiramente sábios, e há os santos. Nem por brincadeira devemos negar a existência dos previlegiados. Que existem e nos salvarão a todos. Não perguntes por quem os sinos dobram.
    Com esta crónica planto aqui uma bandeira que esvoace a todos os ventos da nossa triste e sufocada língua. Minha intenção é falar do circunstancial, do surpérfluo, do mínimo, do dispensável. Daquilo em que nós, cariocas, somos excelentes — não a grande retórica mas a miúda conversa do pé de ouvido, se possivel ouvido, ai, que nem nos ouça. Vou falar desta cidade que não entendo para esse vasto mundo de que não entendo.
    Os que, por acso, forem um dia atingidos por qualquer pedra minha, que se defendam como os lagos, na beleza indorida dos círculos concêntricos. O que eu houver dito será somente uma opinião, pessoal e duvidosa. Como todo o jornalista tenho esmagadora vantagem de ver minha palavra multiplicada pelo número de exempalres do jornal em que escrevo. Mas é sempre bom lembrar: por mais potenciado que seja o que digo, jamis passará de uma opinião. Assusta-me influir mais do que devo — e mereço.
    Estou longe de poder querer ser a palmatória do mundo.
    E isso por motivo simples: acredito que, por meu comportamento, trabalho, e modo de viver, qualquer um pode aceitar, sem muito sforço, como um “homem-de- bem”. Mas estou certo também de que, se a minha vida fosse examinada rigidamente, à luz dos códigos, eu pegaria pelo menos trinta anos de cadeia.
    E, não sendo hebreu, u beijo as plantas da mulher de Putifar.”

    In “Millôr Fernandes
    O independente

  3. Sempre gostei muito dele. Por termos amigos comuns, um dia apanhou um livro meu. Algum tempo depois, recebi um livro em formato de bolso, chamado «A Bíblia do Caos». Vinha do Rio de Janeiro e trazia um autógrafo e um desenho de um homem que à primeira vista parece estar a mergulhar sobre os prédios, saltando do Corcovado. Pedia que na escrita eu não o decepcionasse daí em diante. Mas eu, claro, não consegui cumprir.

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