Nunca andei na guerra, mas através da literatura e do cinema já muito me foi revelado. De algumas cenas induzidas por livros ou exibidas em ecrã jamais me esquecerei. E nessa escala impressiva entre a violência explícita e implícita, venha o diabo e escolha. Em contrapartida tenho mais dificuldade em recordar as imagens das guerras verdadeiras que me foram diariamente mostradas pela televisão. Dessas, apenas gravei na memória as que a Imprensa captou nos instantâneos que ficaram para a História.
Não creio que seja por hipocrisia que me comovo mais com a ficção do que com a realidade. Acredito tratar-se sobretudo de uma questão de autopreservação. É incomparavelmente mais fácil suportar a consciência da bestialidade que faz parte do meu código genético se o fizer através da arte. Além de que é catárctico assimilar as catarses dos outros. Faz-me sentir agradavelmente limpa de todas as baixezas, sendo a minha comoção a prova evidente da minha pretensa superioridade ética e moral.
Acabei por estes dias de ler outra história, desta feita assinada por um ex-repórter de guerra, Arturo Pérez-Reverte. Nunca o tinha lido. Não sei se é o melhor que escreveu, há críticos que juram que sim. Trata-se do romance O Pintor de Batalhas, editado entre nós pela ASA em 2007. Há obras que são claramente um monólogo, mas esta interpela-nos do princípio ao fim, ao mesmo tempo que nos coloca no lugar.
Somos meros sofredores de poltrona. Todos os que se chocam confortavelmente com a natureza humana e nunca foram testados no terreno não sabem nada. Pérez-Reverte confronta-nos com esta verdade insofismável e obriga-nos a nunca perder este foco, sem cair na tentação de se colocar num plano moral superior ao dos seus inexperientes leitores.
Somos, pois, levados a assumir uma atitude mental invertida. Acostumados que estamos a acoitar-nos na nossa comovente sensibilidade, longe do mundo, estranhamos o desconforto quando percebemos que não é possível saltar fora enquanto progredimos na leitura, convencermo-nos de que jamais, em situações extremas, resistiríamos à indignidade: “Cada vez que tropeço num sobrevivente pergunto a mim próprio do que terá sido capaz para continuar vivo”, desabafa uma das suas personagens. E a cisma passa inevitavelmente para nós, por osmose.
Ler O Pintor de Batalhas é, neste sentido, um exercício de humildade, mas também uma importante reflexão sobre a cobertura mediática da guerra e o desempenho que nela têm os repórteres. Muito cru, o autor fala-nos do que sabe usando as palavras como um zoom, abrindo e fechando planos sobre as batalhas que testemunhou e todas as outras, porque afinal todas as guerras são a mesma guerra. No fim, como bónus, tira-nos o retrato. Um retrato impiedoso como o são todos os retratos de guerra.


Muito bem.
Será por isso, que retive uma expressão de um antigo oficial combatente em África, anos depois de 74.
Que acabava por se considerar agora de certo modo um pacifista.
Teresa, o autor diz que é o seu livro preferido, aquele onde se revê mais, talvez por ter sido repórter durante anos. Há outros livros dele de que gosto e os meus filhos são loucos pelo Capitão Alatriste:) beijos
Não sabia que era essa a opinião do autor. Não me surpreende embora não tenha um ponto de comparação. Nota-se bem até que ponto ele se deu nesta obra. Tomei nota do Capitão Alatriste, obrigada 🙂
O capitão alatriste é uma espécie de mosqueteiro mais rafeiro (rimou mas não faz mal), é uma coisa infanto juvenil, mas eu confesso que me divirto muito. Há outras coisas deste autor de que gosto, quando voltar a Lisboa mando-te uma lista se quiseres. Beijos