Violência gratuita


Sérgio de Almeida Correia,

A página 23 do Público de hoje não devia ter existido. Aquela página não devia ter passado para a tipografia. Saber que quase 700 pessoas foram enforcadas no Irão desde o início do ano já de si é uma notícia tristíssima, que não devia ter existido. Não porque existindo não tivesse de ser dada, ou porque devesse ser censurada. Nada disso. Mas porque é uma vergonha para a nossa espécie. É uma vergonha para as Nações Unidas e uma vergonha para a causa dos direitos humanos saber que ainda há tanta gente que é enforcada no século XXI. Lê-la ilustrada com uma fotografia colorida onde estão pendurados pelo pescoço outros seres como nós é ultrajante. A foto do Público é de uma violência inaudita e em nada contribui para melhorar a situação dos direitos humanos ou a informação dos leitores. E acontece no mesmo número do jornal em que se lembra o Prémio Mandela e se entrevista Jorge Sampaio. Eu sou leitor do Público e gosto de ler o Público. Só que a foto do Público que ilustra a notícia não devia ter sido publicada. A foto do Público é um mau serviço ao jornalismo e aos leitores. A foto humilha os próprios desgraçados. A violência existe, é lamentável. Não tem é que ser promovida. Já basta a simples notícia. O Público devia pedir desculpa aos seus leitores pela foto que publicou esta manhã. Aqui não será reproduzida.

0 comentários em “Violência gratuita”

  1. É execrável! Olhando noutra perspectiva, observamos que na nossa realidade, não enforcam as pessoas, mas obrigam-nas a enforcarem-se porque chegaram ao fim das suas forças e já não conseguem lutar, contra a vida que as obrigam a viver e para a qual não têm forças e o único que lhes resta, é isso que tanto lamentamos. Afinal uns são enforcados, outros enforcam-se porque já nada esperam, a não ser o desespero que os conduz a isso.

  2. «A foto do Público que ilustra a notícia não devia ter sido publicada. A foto do Público é um mau serviço ao jornalismo e aos leitores. A foto humilha os próprios desgraçados. A violência existe, é lamentável. Não tem é que ser promovida. Já basta a simples notícia. O Público devia pedir desculpa aos seus leitores pela foto que publicou esta manhã.»

    A minha primeira reacção foi pensar que você estava a ser irónico… mas depois apercebi-me de que não. «O Público devia pedir desculpa»? Não, você é que devia pedir desculpa por este texto absurdo.

    Nunca é de mais lembrar, mostrar, o que o regime de Teerão é capaz de fazer… e faz. Regime esse que, agora, graças a Barack Obama, foi como que «branqueado», reintroduzido no mundo civilizado… e, com as sanções suspensas, vai poder fazer (mais) comércio e ganhar (mais) dinheiro, sem, obviamente, quaisquer garantias de que acontecerá nas terras persas uma democratização, mesmo que ténue. À semelhança, aliás, do que o Sr. Hussein decidiu (e está a) fazer com Cuba. No caso iraniano, com o «bónus» adicional de que a construção e a utilização de armas nucleares não foi, efectivamente, impedida.

    Há claramente um (preocupante) padrão quando os democratas estão na Casa Branca. Com Jimmy Carter os «ai-as-tolas» conquistaram o poder e criaram o maior Estado terrorista e fomentador mundial de terrorismo. Com Bill Clinton tentaram igualmente impedir a Coreia do Norte de obter a bomba atómica (alguns dos «negociadores» de então são os mesmos de agora)… e viu-se o (mau) resultado. Nada de novo, portanto. Infelizmente.

  3. Concordo em absoluto com o que diz, e ainda há pouco tempo escrevi sobre isso, num outro assunto. Não aprecio de forma nenhuma o sensacionalismo, que quanto a mim desrespeita ainda mais a natureza humana, no final de todo o derradeiro percurso de violência. As notícias são para ser dadas, sim, mas em respeito por quem focam, não em exploração da imagem…

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