Ventos favoráveis.


Luís Menezes Leitão,

 

Leio aqui que Passos Coelho resolveu citar Os Lusíadas numa sessão de homenagem a Adriano Moreira, dando razão à velha afirmação de que Portugal é um país de poetas. A estrofe 66 do canto V justifica no seu entender que, apesar da corrente que nos empurra para trás, há ventos favoráveis na economia. A estrofe é assim:


<Daqui fomos cortando muitos dias,
Entre tormentas tristes e bonanças,
No largo mar fazendo novas vias,
Só conduzidos de árduas esperanças.
Co mar um tempo andámos em porfias,
Que, como tudo nele são mudanças,
Corrente nele achámos tão possante,
Que passar não deixava por diante>.

 

Curiosamente vejo esta citação, pelo contrário, como um reconhecimento subliminar das dificuldades que Passos Coelho presentemente atravessa. Ele já tinha tido “entre tormentas tristes e bonanças” as “árduas esperanças” de transferir o pagamento da TSU dos empresários para os trabalhadores. Mas como encontrou na manifestação de 15 de Setembro uma “corrente“, “tão possante que passar não deixava para diante“, lá foi obrigado a arrepiar caminho e substituir essa medida por mais um aumento de impostos.

 

Vale a pena citar a estrofe seguinte que é assim:

 

<Era maior a força em demasia,
Segundo pera trás nos obrigava,
Do mar, que contra nós ali corria,
Que por nós a do vento que assoprava.
Injuriado Noto da porfia
Em que co mar (parece) tanto estava,
Os assopros esforça iradamente,
Com que nos fez vencer a grão corrente>.

 

Ou seja, Passos Coelho acha que, apesar da força da corrente que contra ele está, e apesar de “injuriado” continuamente, como se viu na própria sessão de homenagem, esforçando-se como o vento, através de “assopros“, há-de conseguir “iradamente” fazer “vencer a grão corrente“. O problema é a falta de fôlego, que há muito parece atingir o seu governo.

 

É talvez por isso que João Salgueiro veio agora dizer que Passos Coelho não estava preparado para tomar conta do poder. Eu confesso que percebi isso antes da eleições. E o que me fez perceber foi o mais inacreditável acordo alguma vez feito na política portuguesa: o acordo com Fernando Nobre, a quem foi prometida a presidência do Parlamento se concorresse nas listas do PSD. Passos Coelho não conseguiu cumprir a promessa, o que o levou Fernando Nobre a renunciar ao mandato. E agora, quando o governo decide fazer um corte de 30% nos subsídios pagos à Fundação a que preside, Fernando Nobre diz que só pode tratar-se de um mal-entendido. O actual estado do país só me faz lembrar a canção de Amália Rodrigues: “Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado“.

3 comentários em “Ventos favoráveis.”

  1. Foi pecado, foi pecado, foi pecado sim senhor. Arrepia, arrepia, e arrepia sim senhor. Vira o barco e cai marujo ao mar. Vai ao fundo, vou ao fundo, vai ao fundo sim senhor.

    Se me permite, eu junto a minha cantiguita à sua. Certamente que já reparou que eu sou danatido para a cançãozita. Só não danço o tango, porque o tango dança-se a dois (eu, nós, sou, somos, povo); e o nosso Passos não quer entrar no tango.

    Então é assim:

    http://www.youtube.com/watch?feature=related&hl=en&v=82m1YyyMfd4

  2. Concordo com este seu texto, de início a fim.
    Somente o posicionamento de duas vogais me impede de estar completamente de acordo a 100 por cento.
    Precisamente na última palavra; as ditas vogais deveriam estar trocadas para conferirem uma maior veracidade à actualidade que nos impingem.
    É a minha opinião, cuja validade…

    Cumprimentos.

  3. Estava a ler uma notícia, que anexarei no fim do comentário, e a única questão que se me levantou foi a seguinte:
    Ou eu sou um doido varrido e estou a ler mais do que devia ou este país anda mesmo louco.

    Será possível que isto possa acontecer?

    http://www.omirante.pt/noticia.asp?idEdicao=54&id=53843&idSeccao=479&Action=noticia

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