Vencedores e vencidos


Sérgio de Almeida Correia,

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(AFP) 

VENCEDORES

1. Passos Coelho e Paulo Portas – Vence eleições quem chega à frente com mais votos e mais deputados. Foi este o caso da coligação PSD/CDS-PP. Com mais truques ou menos truques, com mais ou menos propaganda, aqui não há volta a dar. Ganharam, estão de parabéns, mas vão governar, se conseguirem fazer aprovar um programa de governo, em cima de gelo fino. Ao menor deslize estampam-se.

2. Catarina Martins – O BE ressuscitou graças a ela. Não interessa, por agora, se os bloquistas foram buscar votos ao PS, à direita, à CDU ou à feira da ladra, mas o facto é que passaram de uma votação de 5,19% e 8 deputados para 10,22% e 19 deputados. Se o BE radicalizou o discurso, se sofreu uma sangria com a saída de dezenas de elementos, se quem lá ficou foram os ex-UDP, e ainda assim sobreviveu à saída de Louçã e a uma atípica liderança bicéfala, para depois obter um resultado destes, é difícil dizer que os votos obtidos se devem aos extremistas. Porque se o fossem, seria então caso para dizer que a extrema-esquerda também renasceu das cinzas.

3. CDU – Jerónimo de Sousa e Heloísa Apolónia conseguiram mais um deputado. Ganharam “poucochinho” mas ganharam alguma coisa. Para quem pensa “pequenino” e sempre dentro da sua zona de conforto deverá ser motivo de satisfação, mas convenhamos que não foi pelos “trabalhadores” que a coligação PSD/CDS-PP perdeu a maioria absoluta. Com mais um deputado vai aumentar a alegria no trabalho.

4. Grupo Parlamentar do PS – Passou de 73 para 85 deputados, correspondendo ao aumento da percentagem global do partido de 28,05%, em 2011, para 32,38%. O resultado é importante para os aplausos e os apartes e garante emprego a alguns que estavam ansiosos por se mudarem para Lisboa durante os dias úteis. 

5. PAN – Elegeu um deputado à custa da sua concentração de votos em Lisboa, vai ganhar visibilidade e tempo de antena e os animais e a natureza ganham um porta-voz. Pode não servir para muito, nem sequer para aprovar ou chumbar orçamentos, mas sempre é melhor do que nada.

6. Abstenção – Pouco passava das 20h de Lisboa quando Rodrigues dos Santos anunciava a projecção da abstenção, e com a pompa habitual vaticinava uma abstenção “historicamente baixa”. Falhanço rotundo. A abstenção voltou a subir e conseguiu ser superior à de 2011, passando de 41,08% para 43,07%. Com nulos e brancos são mais de 46% os portugueses que não se revêem nos actuais partidos. Dava para uma maioria absoluta. Como desta vez todos se poderão queixar da abstenção, pode ser que para as próximas legislativas as coisas já sejam diferentes e o pivot possa finalmente acertar.

7. Sondagens – Os resultados que foram sendo apresentados fizeram muita gente duvidar. Tanto a coligação vencedora como o PS fizeram tudo para não acreditar no que ia saindo. No final, confirmou-se que venceu quem surgia à frente, não houve empate, não houve maioria absoluta e a diferença foi de cerca de 6%. Com a incerteza diária e projecções feitas a partir de amostragens muito reduzidas para o universo de eleitores, penso que seria difícil fazer melhor.

 

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 (AFP)

VENCIDOS

1. António Costa e o PS – O PS pode continuar com o secretário-geral que o trouxe até aqui. Até às presidenciais ou até que apareça alguém capaz de federar o partido sem errância e liberto de alguns espantalhos que agora foram mandados para o parlamento. Mas é inegável que o resultado obtido não é “poucochinho”. O resultado obtido é miserável. O PS não ganhou, inviabilizou uma solução compromissória ainda antes das eleições, que agora vai ser obrigado a aceitar contrariado, alienou uma boa parte do seu eleitorado e conseguiu transformar dois líderes sofríveis – Passos Coelho e António José Seguro – e uma novata arreliadora e bem preparada – Catarina Martins – em estrelas.

2. Livre – As deserções do BE de figuras com algum peso mediático e tribunas regulares nos jornais, rádios e televisões, a inovação nos procedimentos, a abertura demonstrada nas directas e alguma simpatia, transmitiram a ideia de que poderiam ir muito mais longe. Eu próprio me convenci disso. Podem queixar-se, apesar de tudo, de algum voto útil, mas os 0,72% alcançados, correspondentes a menos de 39 mil votos, são pecúlio muito parco para quem tinha ambições. Reduzido à sua insignificância, o Livre deverá transformar-se num clube de amigos.

3. Coligação PSD/CDS-PP – Em 2011, quando se iniciou o programa com a troika, os votos somados dos partidos da coligação ascendiam a 50,37%. Agora, essa percentagem passou para 38,55%. Foram menos quase 12%. É muito. Em muitos círculos a coligação PSD/CDS-PP de 2015 teve menos votos do que o PSD sozinho de 2011. O número de deputados agora obtido beneficiou das regras do nosso sistema eleitoral, mas em termos globais, embora vencendo, a percentagem conseguida não pode nessa parte deixar de ser considerada um mau resultado. Um resultado de Pirro para as louras afectadas poderem celebrar.

4. Cavaco Silva – Não foi o Presidente da República quem perdeu com estas eleições. Nada de confusões, quem perdeu foi o titular do cargo. À beira do final de um mandato em que tudo fez para beneficiar a sua família política, até na hora da marcação das eleições o tiro lhe saiu pela culatra. Nenhum partido obteve maioria absoluta, a abstenção aumentou, as soluções de governabilidade e de estabilidade são menores que zero. Passos Coelho vai ter de lhe emprestar o crucifixo que lhe ofereceram para Cavaco Silva ter alguma coisa a que se agarrar no final de um mandato feito de equívocos e gaffes, com muita miopia a dar ares de aleivosia.

0 comentários em “Vencedores e vencidos”

  1. Bom dia caro Sérgio,
    Permita-me acrescentar à sua brilhante análise aos resultados das eleições de ontem um vencedor: António José Seguro.

    O que me diz?
    Que análise faz?

  2. Quando é que o António José Seguro dá uma entrevista na televisão?

    Depois daquele que o Sócrates irá dar, com toda a certeza, deve ser outro momento da política, neste outono bem quente.

    Aguarda-se, pois, esse momento de televisão!

  3. Isto só revela que o povo português não tem cultura político e os políticos ainda os fazem mais apolitizados. PAN elegeu um deputado é de todo ridículo, animais à assembleia, povo ao charco. O CDS ganhou porque se fosse só, estaria de rastos, assim conseguiu estar na ribalta sem mérito que é coisa que nunca teve. Coligação cantou vitória e agora como é? Ou fazem orçamentos que a esquerda aprove ou rua. É uma vitória amarga que lhes vai dar muitas dores de cabeça

  4. Felizmente o PS foi humilhado em toda a linha, o eleitorado do centro ou não alinha em mais aventuras como as que eram propostas pela tralha que manda no PS ou decidiu emancipar-se de vez de um partido que de esquerda nada tem dando o seu voto ao BE .
    Sempre previ que o BE desapareceria quase nestas eleições (enganei-me redondamente), uma líder com carisma, propostas bem vincadas, a simpatia da comunicação social e uma nada subtil campanha dos apoiantes Paf pela líder bloquista permitem ao BE renascer das cinzas, veremos se não será outro PRD.
    O Livre, criação de uma unica pessoa e que foi o 1º a fazer a festa, logo ás 20h, provou ser um balão que rapidamente se esvaziou, além de que aquela colagem ao PS não ajudou muito.
    A estratégia de Cavaco Silva resultou muito bem, os seis meses que deu a mais de mandato á coligação permitiram que esta preparasse o caminho com o tempo necessário para os resultados dos truques de governação a que nos habituou surtissem efeito, apesar do ultimo (venda do NB ) não ter resultado mas ao adiar o seu desfecho permitiu que o assunto saí-se da agenda mediática e apenas mais um resultado desastroso e doloso na governação fosse conhecido com a campanha já em curso e sem capacidade para influenciar decisivamente o resultado final.
    Considerando que estas eleições eram muito importantes, outro factor que jogou muito a favor da coligação foi a elevadíssima abstenção que tem como causas próximas a própria acção governativa que lançou dezenas de milhares de pessoas na indigência, dezenas de milhares de emigrantes e o facto para mim incompreensível de haver dezenas de milhares de pessoas que tiveram de trabalhar, que por esse motivo próximo não podem ir votar e desses ninguém fala, “preocupando-se” alguns com os jogos da Liga.

    1. Cavaco Silva não “deu seis meses a mais” à coligação, tal como não deu mais oito ou novo meses a Sócrates em 2009. Cavaco Silva limitou-se a seguir os prazos previstos pela lei – que vem, curiosamente, dos tempos em que Guterres era PM.

      1. Os Gregos é que estão certos, fazem referendos em 15 dias e entronizam governos em 10, por cá mantém-se prazos bizantinos que só servem ao arco da desgovernação.
        Este sistema politico (de poder) está podre, o resto é conversa.

        1. Eu não disse que acho a lei correcta. Na verdade, concordo que os nossos prazos são demasiado dilatados e rígidos.

  5. Nesta alongada prosa, fala só de “Lesboa”, e mesmo aí,com exclusivo enfoque em certos bairros seleccionados – ‘sei lá’ daqueles muito repletos de gente com “consistência curricular, académica e profissional”(..) salientado-se por “ter uma escola, um passado e uma carreira que são conhecidos de todos,”, e que até á núltima semana, deviam compor a “amostra” usada pela Eurosondagem e onde a xuxa prensa da capital ia colhendo ‘narrativas’ para ilustrar o ‘pulsar do povo’. A chatice ou estucha disto, que enquadra muito da presente insuficiência, ou o “poucochinho”, é que as eleições foram ..nacionais.
    E mesmo nessa estreiteza geográfica omite um fundamental que é bem sintetizado por VPV
    “o Partido Socialista de Mário Soares [e daquela versão mais recente, mas igualmente superficial mas maquilhada por arrogância e pedantismo intellectual inerente á permanente auto-contemplação] deixou de existir como força agente e movente do regime democrático português. A derrota de António Costa foi a derrota de uma época. Corrupto, irresponsável, envelhecido e caótico, o PS teve o fim que merecia.”

  6. É muito raro falarem da “abstenção técnica”. Num país com 10,2 milhões de residentes e com 9,5 milhões de eleitores, e com a dificuldade que tenho ouvido referir do voto por correspondência, será de esperar uma abstenção “bruta” altíssima. Gostava de saber quanto costuma ser a abstenção “não técnica”. Conhece algum site onde falem deste tema?

    1. Tem razão, o número de eleitores está fortemente inflacionado.
      Quando será que os nossos partidos vão decidir alterar este estado de coisas? Neste capítulo somos, verdadeiramente, um país de outro mundo, até a Grécia nos ultrapassa. Uma vergonha.

  7. A maior perdedora:

    HELOISA APOLONIA:

    Finalmente, vai ter de estudar zoologia; barragens, poluição, eucaliptos, gatos, sapos, gafanhotos,touros, cachorrinhos, etc
    Logo agora que estava quase na reforma!

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