Esta é a história da Maria Odete. Maria Odete não foi sempre assim. Muito antes deste mal que lhe afligia os humores e a fazia espojar-se no chão como uma égua relinchante, tempos houve em que Maria Odete era mulher pujante, equilibrada em saltos vertiginosos, prazeirosa em ostentar roupas, ouros refulgentes e carros vistosos na proporção dos restantes acessórios. Maria Odete casara-se num ímpeto desconhecido, atribuído aos repentes que dão às mulheres fêmeas obedientes e submissas, as peças imprescindíveis aos machos dependentes e incapazes, acessórios tão preciosos na cozinha como a máquina de lavar roupa, um gadget mais valioso que qualquer robot de cozinha. E assim foi. Ao macho fazia jeito uma fêmea que lhe ajeitasse o lar, à fêmea fazia falta um macho, a idade talvez assim ditasse, ou um macho apenas que a fizesse resfolegar de prazer e lhe oferecesse roupas e carros para alardear na cara da vizinhança e demais conhecidos. E depois vieram filhos, feitos como os filhos são mas sem a própria Maria Odete saber como foi. Dizia-se àquele tempo que Maria Odete tinha as miudezas encarquilhadas e, por conseguinte, Maria Odete admirou-se quando se viu inchar como se tivesse deglutido uma melancia, a pança que nem um balão, as mamas hirsutas e superlativas. Teria sido num desses dias em que o marido veio da obra, a fornicação aliviava-lhe os nervos fracos e era cumprida num ritual terapêutico. Resfolegaram em uníssono, livres, e, sabendo-se incapaz de gerar fruto, resfolegaram ainda mais sofregamente, libertando odores e secreções, entregues ao prazer supremo da carne que não geraria fruto. Mas o Senhor foi amigo e para salvar Maria Odete deste pecado original, a pobre acorria com frequência às confissões do prior da freguesia, plantou-lhe no ventre o que seria a sua primeira filha. E agora ali estava Maria Odete, divorciada do marido das fornicadelas terapêuticas, com dois filhos adultos. A filha tinha ido buscar as crianças à escola quando o telefone tocou. Uma maçada, logo naquele momento em que o Bernardo lhe pedia colo e a Margarida a desafiar decibéis numa birra descomunal. Era a mãe. Mal falava. Acorreu a casa da progenitora. Encontrou-a estiraçada no chão da sala, em cima da carpete de Arraiolos, a revirar os olhos num leve estertor e a espumar pela boca que mais parecia ter engolido o frasco do detergente da louça. Chamou-a três vezes Mãe, ó mãe p’amor de deus, não se ponha assim. A mãe nada, nadinha, népia, nicles. Ó mãe continuou Ó mãe. Maria Odete ficou dois dias no hospital. Enquanto isso, os filhos decidiam das suas vidas e da vida da mãe. A filha tinha as crianças para cuidar, o filho vivia numa casa pequena, logo o que fazer com a espumacenta mãe sobre os Arraiolos da sala da casa numa zona nobre da capital lusitana? Mesmo antes de saber o veredicto final e do parecer clínico, – não seria por acaso algo passageiro? – decidiram metê-la num lar mediante o seu julgamento de filhos dedicados. Que era o melhor. Que não podiam. Maria Odete saiu do hospital pelo seu pé, – velha não era e estava recuperada de algo que não se soube o que foi – e voltou à sua casa. Logo agora que já estava tudo tratado com o lar lamentaram os filhos Ó mãe, sente-se mesmo bem? Ó mãe, veja lá, parece que a vi cambalear… Maria Odete perguntou-se para que serviam os filhos afinal mais céleres a descartar-se dela do que em ir vê-la ao hospital, mais rápidos a arranjarem-lhe um lar do que a saber o que tinha. E a história da Maria Odete é esta. Apenas um dos rostos visíveis e apenas uma das Maria Odetes que outrora foram mulheres e mães e agora são apenas velhas descartáveis à mercê do egoísmo dos filhos.No Dia do Idoso

Muito bem, Leonor. Dia Internacional do Idoso. Dia das Marias Odetes. E de outros(as).
Infelizmente não é a única, joão. É impressionante a situação de abandono social e familiar em que se encontram os nossos idosos.
Bravo Leonor, gostei muito.
Obrigada, Ariel.
Tantas Marias Odetes e tantos filhos…
Como já disse em cima, infelizmente.
É muito triste haver tantas Marias Odetes.
Felizmente também temos Marias e Joaquins que têm/tiveram a felicidade de ter uma filha que se dispôs a cuidar deles sem os retirar do seu torrão.
Um idoso da minha família disse: “Chegar a velhos, chegamos; o pior é passarmos a velhice”.
Este tipo de histórias deprimem-se… Porque é que a velhice deixou de ser respeitada para passar a ser um estorvo, uma morte antes da morte?
É verdade, ainda vai havendo filhos que cuidam dos pais, mas o que me arrepia, além das pensões de miséria, é chegarmos ao Natal e abandonarem os velhos nos hospitais. É absolutamente inacreditável. É mais fácil abandonar tudo o que se torna incómodo, as crianças ao deus-dará, os velhos nos hospitais e os animais na rua no Verão. Fico a pensar que raio de gente é esta.
Leonor, peço desculpa por mais este comentário.
O que a Leonor escreveu é bem verdade, o abandono dos idosos é um facto.
Li os comentários e permita-me dizer que, por experiência própria, muitos deles estão errados.
ex. o Mike, anda a fazer como o meu pai fez; arranjou um lar para onde ir quando fosse velho mas, em 2006, com 80 anos teve linfoma, ficou paraplégico com uma hérnia na cervical, foram dois anos de fisioterapia intercalada com quimioterapia, morreu em 2008, sem nunca ter falado no lar, e tão dependente da família como um recém-nascido.
Nunca posso esquecer os ‘obrigado filha’ e aquele olhar de agradecimento quando sentia o carinho com que era tratado.
A minha mãe teve um AVC em 2002 (com 76 anos) o que fez com que eu deixasse o meu trabalho e a minha casa e viesse para casa dos meus pais; depois disso teve enfarte de miocárdio e um sem número de episódios inerentes à sua idade; tem agora 83 anos.
Peço desculpa por me alongar; quando somos novos e gozamos de boa saúde até dizemos que não nos importamos de morrer, mas é ver os idosos a agarrarem-se à restea de vida que lhes sobra e sentirem o pavor de morrer.
Leonor…sem palavras…
Beijinho carinhoso.
Ana Mestre
Beijinho também, Ana
Muito bom post, Leonor. Gostei de ler.
No meu caso, já avisei os meus filhos (e estava a falar a sério) que quando a hora chegar quero ir para um lar e não quero discussões sobre o assunto. Se não tiver dinheiro para isso, paguem eles. E se eles também não tiverem dinheiro, peçam um empréstimo. Em casa deles não fico. E gosto muito (e espero continuar a gostar) dos meus filhos.
Mas isso é opção sua, Mike e é uma situação diferente e que compreendo na perfeição, por uma questão de independência e de não se tornar um fardo para nehum deles. este texto foi originado por uma situação que ouvi relatar e que me deixou a pensar durantes vários dias. É que a mulher nem pôde ter uma indisposição, quiseram metê-la logo num lar. O que vale é que ela trocou-lhes as voltas a anda por aí lampeira.
Gostei muito deste texto, Leonor. Tens uma escrita com excelente ‘ouvido’, que capta muito bem os diversos linguajares. Ficou uma vez mais demonstrado isso.
Obrigada, Pedro. É engraçado dizeres isso, porque nunca tinha pensado nesse meu ‘bom’ ouvido. Tenho por aí outro texto sobre uma velha que também tem linguajares mas dois textos sobre velhas no mesmo dia é capa de ser fastidioso.
Nunca é demais, vindo de quem vem…
O ‘ouvido’ é fundamental para um escritor. Cardoso Pires e Lobo Antunes, por exemplo, são autores com excelente ouvido (sem ironia, no caso de ALA, que até tem problemas auditivos). Há outros escritores, inversamente, que ouvem mal. E isso reflecte-se penosamente na sua escrita, sobretudo nos diálogos – muito mais difíceis de redigir do que muita gente imagina.
Esta história comoveu -me, Leonor, uf…Lembrei-me da minha mãe quando ela nos dizia – embora o sofrimento da doença que a levou à morte o ano passado – quão feliz se sentia por ter os filhos que tinha e como eles a tratavam…Estou muito grata aos meus irmãos que, eu estava longe não a pude acompanhar tanto, todos os dias se desdobravam em turnos para nunca a deixarem sózinha.
Pois, este país não é para velhos.
Isso preocupa-me menos do que achar que também não o é para jovens, Teresa. Eu que já estou mais perto de ser velho que jovem.