Escrever direito por linhas tortas


Pedro Correia,

  

 

“Os últimos serão os primeiros.” Quem não usou já esta expressão? O que poucos sabem é que se trata de uma frase bíblica – vem no Evangelho Segundo São Mateus (19-30) e no Evangelho Segundo São Lucas (10-31).

Inúmeras expressões que utilizamos neste quotidiano laico e secular, tal como a maioria dos nossos nomes próprios, têm a sua origem no livro sagrado do cristianismo. Expressões tão vulgares e tão diversas como “a carne é fraca” (São Mateus, 26-41, e São Lucas, 14-38), “ninguém é profeta na sua terra” (Evangelho Segundo São João, 4-44), “lançar pérolas a porcos” (São Mateus, 7-6), “nem só de pão vive o homem” (Deuteronómio, 8-3, e São Mateus, 4-4), “quem semeia ventos colhe tempestades” (Oseias, 8-7), “meter foice em seara alheia” (Deuteronómio, 23-26), “dois pesos e duas medidas” (Provérbios, 20-10), “separar o trigo do joio” (São Mateus, 13-30) e “olho por olho, dente por dente” (Êxodo, 21-24, Deuteronómio, 19-21).

 

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De facto, a nossa linguagem comum está cheia de expressões colhidas na Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamento, o que se confirma também nestes exemplos, que estão muito longe de serem exaustivos: “bode expiatório” (Levítico, 9-15), “dia da ira” (Sofonias, 1-13), “choro e ranger de dentes” (São Mateus, 8-12, 13-42, 22-13, 24-51), “pedra sobre pedra” (São Lucas, 13-2), “voz no deserto” (São João, 1-23).

Ou ainda as designações “sal da terra” e “luz do mundo”, popularizadas no Sermão da Montanha e que originaram, respectivamente, o título de um célebre filme de Herbert Biberman e um dos melhores contos de Ernest Hemingway.

E quem não conhece expressões como “crescei e multiplicai-vos” (Génesis, 1-22 e 1-28), “nada há de novo debaixo do sol” (Livro do Eclesiastes, 1-9), “lobos disfarçados de cordeiros” (São Mateus, 7-15) ou “lavar as mãos como Pilatos” (São Mateus, 27-24)? Ou adágios tão conhecidos como “ninguém pode servir a dois senhores” (São Mateus, 6-24), “pelos frutos se conhece a árvore” (São Mateus, 7-20 e 12-33), “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (São Mateus, 22-21, Evangelho Segundo São Marcos, 12-17 e São Lucas, 22-21) e “quem estiver sem pecado que atire a primeira pedra” (São João, 8-7)?

 

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A Bíblia é ainda um riquíssimo viveiro de aforismos que nada têm a ver com o “manual de maus costumes” de que há dias falava José Saramago para promover o seu romance Caim.

Aqui ficam alguns: “A maldade é a mãe da fome” (Tobias, 4-13), “a sabedoria vale mais que as pérolas” (Livro de Job, 28-18), “quem ama a violência odeia-se a si mesmo” (Os Salmos, 11-5) ou “o que perturba a sua casa herdará ventos” (Provérbios, 11-29). Este deu origem ao título de uma excelente longa-metragem de Stanley Kramer, protagonizada por Spencer Tracy.

Na verdade, não é possível compreendermos grande parte do último milénio da arte ocidental, nas suas mais diversas expressões, sem conhecermos a Bíblia. Isto inclui os próprios livros de Saramago, como O Evangelho Segundo Jesus Cristo ou o seu mais recente romance. Afinal “Deus escreve direito por linhas tortas” (Génesis, 50-14).

56 comentários em “Escrever direito por linhas tortas”

  1. Não estou a ver bem onde quer o Pedro chegar. Demonstra que a nossa cultura tem uma matriz bíblica. Muito bem, penso que ninguém jamais o nega ou negou. E daí? Que segue? Que se conclui?

      1. Repito, do seu texto só se deriva uma trivialidade: que a nossa cultura está fortemente impregnada de um legado bíblico. Isto é uma trivialidade que ninguém nega e que todos (mesmo os ateus, mesmo aqueles que dizem cobras e lagartos da Bíblia) reconhecem. Por ser uma trivialidade, não precisa de ser reafirmada. Logo, este texto, só por si, é um non sequitur.

        1. Acha, portanto, que o trabalho exposto não contribui para um conhecimento um nadinha mais amplo sobre o tema que o Luís tão profundamente conhece? Nem um pouquinho? Desculpe lá, mas isso já não é só sobranceria: é deselegância gratuita.

        2. Dou-lhe os parabéns por conhecer os textos bíblicos tão profundamente que sabia de cor e salteado tudo quanto aqui foi escrito e nada para si foi novidade, Luís Lavoura. É um prazer termos leitores com uma cultura tão enciclopédica como a sua – e também com a sua notável capacidade de argumentação.

          1. Se com este post Pedro Correia queria mostrar que a Bíblia não é um manual de maus costumes, falha rotundamente.

          2. Vocês a fazer troça de quem vos lê ( e discorda) são os maiores. Já a argumentar…..

          3. Descobrir a “careca” do post é semear ventos? Não me parece. O Pedro Correia e o João carvalho deveriam ter maior poder de encaixe.

  2. Voltei para confirmar que não sei se a Capela Sistina foi obra de Deus, mas que é notável e belíssima não tenho quaisquer dúvidas, embora muito pouco mística mas com tantos turistas e tão pouca fé da minha parte não é de admirar.

      1. Teve mais sorte que eu, Pedro. Estive em Roma apenas uma vez, durante 3 dias; lamentavelmente, um era o da chega, outro era Domingo, e o seguir era feriado Santo, pelo que bati com o nariz na porta dos Museus do Vaticano e da Capela Sistina. Tive de compensar com a subida à cúpula de S. Pedro (a pé, uma experiência exaustiva!); ao menos vi o Papa (João Paulo II) passar a poucos metros de mim.

        1. Aconteceu-me na primeira vez que fui a Roma, João Pedro: bati com o nariz na porta, a capela estava a ser restaurada. Serviu-me de motivação acrescida para voltar. E ainda bem que o fiz: valeu a pena.

      2. É absolutamente assombroso, Pedro, agora, e já que confessaste vou ter de o fazer: também eu. Tenho um problema grave, nestes locais tenho uma vontade doida de tirar uma fotografia e já passei por uma ou outra vergonha mas mais por distracção. Uma vez no Museu D’Orsay tirei uma fotografia com flash a um auto-retrato do Van Gogh e levei uma descasca merecida de um americano ao meu lado. Fiquei de tal forma extasiada com os quadros, que me esqueci de tirar o flash.

          1. Mas o americano tinha razão, Pedro, o que me doeu foi não poder ripostar. Quanto ao resto, foi um momento especial, adoro aquele museu e deixei-me levar pela emoção.

          2. Os americanos a fazer turismo na Europa nunca têm razão, Leonor. Faz-me lembrar aquela anedota dos americanos que compraram uma viagem em pacote para conhecer 10 países da Europa numa semana e lá vieram alegremente num vasto grupo.
            Às tantas, um deles vira-se para outro e pergunta:
            – Já perdi a noção do tempo. Que dia é hoje?
            – Terça-feira.
            – Ah. Então isto deve ser Paris…

    1. Não sei o que Saramago sabe sobre a Bíblia, meu caro. Mas as declarações que ele fez sobre a Bíblia, a propósito do lançamento de ‘Caim’, foram profundamente infelizes. Como se a Bíblia não fosse, como é, património cultural da Humanidade.
      Um abraço

      1. Mas o Saramago alguma vez disse que a Biblia não é isso? Mas pronto, o Pedro Correia fez uma excelente recolha de aforismos da Biblia. Melhor que o Borda d’Água.

        Pedro

  3. Bom, o trabalho apologético aí está, está bem feito, é exaustivo e é empenhado. Leia-nos agora o outro livro que também emana da bíblia, o tal de que Saramago falava, o dos maus costumes. Sugiro-lhe a artigo e tomo de igual liberdade para sugerir o título, que tal ‘Escrever torto por linhas direitas’ ?

    1. E que tal lembrar-se de que Saramago não falava “do outro livro”, mas da obra no seu todo? Ele referiu-se à Bíblia generalizada e indistintamente, lembra-se?

      Portanto, nunca se esqueça de escrever direito por linhas direitas, se é isso que espera dos outros.

    2. Caro Paulo Quintela:
      Como poderia eu ousar entrar no terreno eleito de José Saramago? Competir com um Nobel não está ao alcance de qualquer um…
      De qualquer modo, agradeço-lhe as palavras de incentivo.

  4. Acho que continua a haver pouca vontade de compreender (ou de aceitar) aquilo que Saramago disse. Ele ate explicou uns dias depois que entende a Biblia como um patrimonio cultural e belissimo do ponto de vista literario. Isso nao impede que a Biblia esteja cheia de exemplos de maus costumes, sejam eles louvados ou nao. Nesse aspecto podera ser perfeitamente, na optica de muita gente, um manual de maus costumes, mesmo que muitissimo bem escrito. Tenho a certeza que, com base na lista do post, muita gente considera a iblia um manual de bons costumes. E tambem com razao. Porque razao nao podem os outros considerar a Biblia um manual de maus costumes sem perder a sua razao?

    Ja agora uma nota: nao me admiraria nada que muitas dessas expressoes nao sejam de origem biblica. Poderao ter origem muito anterior e variada, sendo que os variados autores da Biblia terao copiado ou adaptado as mesmas. Nesse aspecto a Biblia seria por vezes uma copia, mas isso nao a tornaria menor, uma vez que serviria o nobre proposito de guardar no patrimonio colectivo tais expressoes.

    1. Caro João André: estas expressões foram fixadas, popularizadas e generalizadas pela Bíblia, o livro (entendido aqui como conjunto de livros) mais influente de toda a história da Humanidade. A questão Saramago está para mim ultrapassada. Já disse o que tinha a dizer sobre o assunto, aliás bem acompanhado por muita gente que também se pronunciou sobre o tema: é uma estupidez catalogar a Bíblia como um ‘manual de maus costumes’. Sobretudo quando isso é dito em pose de guardião dos bons costumes, que até recomenda aos pais não deixarem as criancinhas terem acesso à obra.
      Há mais – muito mais – Bíblia para além de Saramago. Com o levantamento que aqui deixo procuro simplesmente demonstrar até que ponto a Bíblia influencia a nossa vivência colectiva muito para além de aspectos religiosos. Mesmo pessoas que nunca a leram usam hoje no dia-a-dia expressões que a Bíblia consagrou, tanto no Antigo como no Novo Testamento. O mesmo se aplica a episódios bíblicos, como a Torre de Babel, a arca de Noé, David e Golias ou a cabeleira de Sansão.

  5. vou aproveitar que está aí para transcrever mais uma frase bíblica:
    é mais fácil fazer passar um camelo por um buraco de uma agulha que um senhor ateu que enriqueceu à custa de romancear episódios religiosos entrar nos reinos dos céus.

  6. em fim de noite festa em porto de mós dois apontamentos:
    1- Pedro Correia um bloger fantástico.Abraço amigo.post maravilhoso.
    2- quando fui a Roma fim de ano 2008 o museu do vaticano foi o local mais maravilhoso que visitei até hoje, e não sou dos que me fico pelos rios lena,lis e mondego, os meus amores do coração .

    1. Como diria o Chico Buarque: ainda bem que a festa foi boa, pá. Agradeço essas palavras amigas e aproveito para anunciar que em breve retribuirei com uma série sobre rios que irá decorrer aqui no DELITO durante todo o mês de Novembro.
      Grande abraço.

  7. Bom trabalho. É isto que faz falta: apresentar argumentos nas discussões. E apreciei tanto o texto como a elevação bem-disposta das respostas às críticas. Vou utilizar o texto para trabalho com os meus alunos do secundário, referindo, obviamente, a autoria.
    Parabéns.

  8. Mas Gênesis 50:14 diz: “Depois de sepultar seu pai, José voltou ao Egito, com os seus irmãos e com todos os demais que o tinham acompanhado.”

  9. Só ditos populares nada mais 2 Timóteo 3.16 não nos aproxima nem mesmo da tal pergunta DEUS escreve certo por linhas tortas apenas mitos…….esta palavra .nem almenos existe na escritura sagrada…

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