Vasco Pulido Valente


José Meireles Graça,

Uma das coisas mais estúpidas que se dizem é aquela “os cemitérios estão cheios de gente insubstituível”.

São muito raros esses, os insubstituíveis, mas existem.

Vasco Pulido Valente era um deles e, podendo haver em cada geração mais do que um, não me lembro de mais ninguém.

Não mais quem diga muito com pouco; não mais quem veja no nevoeiro e na confusão do presente os ecos do passado que tornam inteligíveis os nossos dias e nos lembram a nossa condição inelutável de portugueses; não mais quem, para falar dos casos da semana, do mês, da década ou do regime, utilize uma forma superior de português de lei; e não mais quem, amado por uns e odiado por outros, fazia ver o óbvio, que só o era depois de ele o mostrar.

Não usava, para falar de pessoas importantes, a maior parte das quais conhecia pessoalmente, o dorso da colher; e era implacável com os tiques, as mazelas, as vaidades irritadas e irritantes do mundo oficial.

Adeus, Vasco. Nós, os que para descobrirmos a nossa opinião precisávamos de conhecer a tua porque, concordando ou discordando, o edifício lógico se erigia como por mágica diante dos nossos olhos, vamos ter de pensar sozinhos.

Não vamos pensar melhor.

9 comentários em “Vasco Pulido Valente”

  1. Não vamos pensar melhor. E não faltará quem festeje este dia. Há menos um incómodo – um “irritante”, suponho, na novilíngua consagrada – por aí.

    Tempo de voltar a “De mal a pior”.

    Costa

  2. O último dos queirosianos ( ” cheira” a lugar comum , sim, mas é pura verdade), um Homem que , mais do que uma geração, redimiu , pelo menos, e ecoando-o, meio século “da paróquia”.
    R.I.P , Doutor.

    JSP

  3. Um dos grandes historiadores portugueses, um dos maiores prosadores da língua portuguesa, uma das grandes figuras da intelectualidade nacional.
    Um dia triste.

  4. É com pesar vê-lo partir. Nem sempre concordei com seu pensamento.

    Porém depois de fazer o que devemos fazer, seremos servos inúteis. Podemos ser servos inúteis, mas não as obras feitas. Estas são as que demonstrarão a utilidade da vida.

  5. Aplaudo a homenagem. Vasco Pulido Valente é mesmo insubstituível. E ajudava-nos a pensar, sim.
    Mas olhe que, para quem os gosta, os cemitérios estão mesmo cheios de insubstituíveis. Vasco Pulido Valente estará nesse e também noutro patamar, é insubstituível num âmbito muito mais alargado e mercê de qualidades próprias que soube impôr. A minha vénia.

  6. O excelente português, a forma desassombrada com que expunha as suas idéias e o chamar os bois pelos nomes, desde há décadas, fizeram de VPV um quase proscrito na nossa sociedade, sempre muito respeitadora e muito temerosa. Socialismo há 44 anos “oblige”. Embora já venha de trás.

    A melhor homenagem que posso fazer a VPV é “classificar” os portugueses onde, obviamente, me incluo: “biblicamente estupidos”.

    Até sempre Vasco.

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