Um comentário em “Vá-se lá saber porquê…”

  1. É sabido que o regime criou a sua casta de sacerdotes. Espécie de guardiões do (seu) templo que, como tal, resistirão o mais que conseguirem e custando o que custar (aos outros) a alterações desse estatuto. Mais não seja por, décadas passadas de constantes favores intra-casta e por conta da coisa pública, ser esse estatuto e as defesas que em torno dele criaram o que os livra, sejamos directos, da cadeia. Ou pelo menos do fim de um feliz estilo de vida que o mérito por si só, em igualdade de armas com os restantes cidadãos, não garantiria necessariamente.

    Tudo o que digam ou escrevam – todos eles, de todas as “cores” – e mesmo que contingentemente num ou noutro depositemos alguma céptica esperança e o desesperançado voto que lhe corresponda, terá sempre que ser interpretado tendo isso em conta.

    Isto é assim, cada vez mais tal se torna evidente, implicando para os outros (nós) e na melhor hipótese a escolha de um mal menor. Ou que pelo menos pareça menor. Ou mais suportável.

    As tentativas até agora conhecidas de romper com esse eternizado estado de coisas não parecem fadadas ao mais consolador sucesso. Seja porque sirvam de máscara – mas mascarando pouco – à implantação de opções ideológicas baseadas em ainda mais, e mais generalizada, pobreza e escravidão intelectual (e cuja falência o tempo tratou de demonstrar à saciedade) e na afirmação de uma casta superior ainda mais descarada e fechada em si mesma, seja por demonstrarem, independentemente da carga ideológica em que se fundem, visões de uma ingenuidade e inexequibilidade gritantes. As quais redundariam no mesmo: mais e mais generalizada pobreza e uma famélica autarcia vegetativa para (quase) todos. Mesmo que com exuberantes e impecáveis coreografias na praça pública e em datas consagradas.

    Haverá sempre alternativas à TINA. Tantas, se se quiser, quantos todos nós (se há campo para treinadores de bancada, é afinal este). Para mal dos nossos pecados, todavia, a TINA ainda é capaz de ser o menor – grande que seja – dos males. A aventura grega está aí para demonstrar que mesmo o mais decidido grito de morte à austeridade, o alegadamente mais puro, lídimo e desinteressado gesto de repulsa por ela, é por ela encarado com paciência verdadeiramente asiática, um sorriso e um encolher de ombros. E a certeza de um seu regresso em força.

    É terrível, mas há que pagar o que se deve. Ou pelo menos prestar garantias susceptíveis de ser aceites de que isso que se deve será, ao longo do tempo, tempo de gerações, pago. Ou enfrentar ainda pior.

    O resto, a desfaçatez dos “dirigentes” que causaram – pelo menos aceitaram e nele prosperaram e prosperam – este estado de coisas que, goste-se ou não, está para ficar (com mais ou menos breves intervalos de recreio, à razão da tão reconfortante reposição de uns cêntimos nas pensões, anunciada como vitória decisiva sobre a austeridade) é, perante o despudor reiterado da casta, um caso de polícia e tribunais.

    Mas a casta soube montar a sua defesa: a polícia pouco pode actuar e os tribunais enredam-se laboriosamente em rendilhados castradores. Nao esperaria muito disso.

    Costa

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