Universidades digitais


joaomsandre,

 

Na Economist desta semana vem um trabalho especial sobre a influência que o mundo digital e a internet estão a ter sobre as universidades. No artigo faz-se referência aos MOOCs (Massive open online course) mas também às diferentes parcerias que vão sendo criadas (especialmente a da Starbucks com a Universidade do Estado do Arizona para oferecer cursos universitários aos seus empregados).

 

Confesso que torci o nariz a estas inovações à medida que iam surgindo. Vi-as essencialmente como uma técnica das universidades para ganhar mais dinheiro (agora que se começa a notar que o investimento num curso superior começa a ser cada vez menos rentável) e para se publicitarem. Vi durante muito tempo a importância do mundo digital para a universidade mais como uma forma de disponibilizar conteúdos aos estudantes e fornecer a oportunidade a não-estudantes de aceder a bases de dados que dificlmente estariam disponíveis de outra forma. Para mim, a ausência de uma sala de aula e, especialmente, contacto directo com o professor, seriam aspectos que tornariam estes cursos como pouco desejáveis.

 

Obviamente que esta visão sofria de miopia devido a dois aspectos:

 

1 – vi as necessidades de ensino como relacionadas com a actividade futura e neste aspecto concentrei-me na minha própria experiência. Como necessito de preparar relatórios, apresentá-los em público, discutir planos, projectos, etc, muitas vezes de froma presente – a interacção pessoal é muitas vezes subestimada – acabei por considerar que a vertente humana seria descurada.

Obviamente isto esquece que muitas profissões não necessitam dessa componente (mesmo que sejam enriquecidas por ela). Para muitas pessoas não fará muita diferença ter os dados a ser transmitidos oralmente por uma pessoa à nossa frente; num ecrã de computador ou simplesmente de forma escrita no tablet. Por outro lado, a maioria das gerações mais jovens que se sentirão à vontade neste ambiente de ensino digital também terá a capacidade para, usando simplesmente os dispositivos digitais actuais (ou futuros), criar laços de relação pessoal semelhantes àqueles que a minha geração cria apenas com interacções mais físicas.

 

2 – o mundo necessita de um repensar da universidade. Neste aspecto não falo do óbvio relativamente ao digital e online, mas antes perante a cada vez maior disseminação de graus académicos. Ao contrário do passado, há hoje tantas pessoas com estudos superiores que se torna difícil distinguir aqueles que têm uma formação de facto superior dos que simplesmente têm um diploma na parede. Isto não se refere apenas a diferenças entre bacharelatos, mestrados, doutoramentos e outros que tais. Entre dois doutoramentos as diferenças podem ser abissais.

Desta forma, os MOOC vêm preencher uma lacuna: a da criação de cursos e formações tão específicas quanto os estudantes as desejem. Será então possível criar um especialista em história da filosofia da biologia da mosca da fruta sem ser necessário criar um curso de 5 anos para tal. A famosa engenharia do sapato (ou hortofrutícola) que deu origem a tantos comentários no passado, poderia ser reintroduzida sem custos acrescidos e fornecer especialistas a uma indústria sem que, após um curso generalista, estes tivessem que passar mais um ano a aprender as especificidades do seu trabalho (e sem o risco que a seguir se fossem embora).

 

Ou seja, os MOOC podem então oferecer um outro tipo de ferramentas de ensino, especialmente indicadas para determinadas profissões e, ao mesmo tempo, reintroduzir uma certa distinção entre níveis de ensino sem que deixem de criar especialistas em determinadas áreas. obviamente que continuo a ter grandes reticências: como avaliar os estudantes? Em casa, correndo o risco que outra pessoa faça o exame por eles? Na universidade ou noutro local designado, sabendo que alguns estudantes poderão não ter a possibilidade de se deslocar? Como compensar para vertentes de trabalho em equipa, apresentações orais (é bem diferente apresentar em pessoa ou por videoconferência) ou outros aspectos que não estou agora a recordar? Como reproduzir um aspecto frequentemente esquecido ou menosprezado: a “ida ao quadro”, com o que isso ensina sobre confrontar uma situação de stress?

 

Ainda faltará até que a destruição criativa dos MOOCs (e semelhantes) mude o panoramena do ensino superior, mas haverá certamente aspectos que só poderão melhorar o ensino – e, consequentemente, a sociedade.

5 comentários em “Universidades digitais”

  1. Como necessito de preparar relatórios, apresentá-los em público, discutir planos, projectos, etc, muitas vezes de froma presente – a interacção pessoal é muitas vezes subestimada – acabei por considerar que a vertente humana seria descurada.

    A minha experiência é a oposta – a interação pessoal é frequentemente inútil. Mais de metade dos meus artigos de investigação foram feitos sem que eu tivesse alguma vez falado sobre eles, de viva voz, com os meus colaboradores: toda a interação entre nós – troca de ideias, etc – foi feita por escrito, através da internet, com milhares de quilómetros de distância a separar-nos.

    Eu acho que a interação pessoal constitui, frequentemente, uma grandessíssima perda de tempo.

    1. Precisamente por isso comentei que há experiências diferentes e que eu estava a esquecer estas nas minhas primeiras reflexões.

      Na área das ciências exactas ou engenharias, especialmente desde que haja um experiência laboratorial, é frequentemente necessário ester presente fisicamente para se compreender certas coisas, para percebermos (ou simplesmente notarmos) pequenos pormenores, etc. No trabalho que faço hoje em dia, com projectos na área de engenharia, tenho muitas vezes que ver os equipamentos em pessoa, não sendo possível guiar-me apenas por desenhos ou fotografias. Necessito de ver os objectos e falar com as pessoas que os manuseiam, por exemplo. Há experiências de todos os tipos. E para algumas delas, de facto, os MOOC poderão ser mais valiosos que os cursos tradicionais.

  2. Vai acontecer às Universidades o que aconteceu aos jornais.
    Nos EUA então irá ser um choque.

    Algumas mexem-se:
    http://www.youtube.com/user/YaleCourses

    Exemplo de um curso de Yale com certificação
    https://www.coursera.org/course/financialmarkets

    É claro que isto não toma em consideração vários factores como razão para se ir para uma Universidade que não tem nada que ver com aprendizagem: Moda, Estatuto, Contactos , Sexo/Escolha de parceiro para Casamento.

    1. Penso que será um choque em todo o lado, mas em alguns aspectos as universidades americanas estarão em condições para o absorver melhor que outras (pelo menos as grandes). Poderão investir no nome que já têm, nos professores que lá dão aulas e criar cursos online por todo o mundo. As universidades mais locais ou nacionais poderão sofrer mais. Imagine-se uma pessoa que tenha como melhor possibilidade ir para a Universidade de Coimbra. Poderá optar antes por ficar em casa, ser trabalhador estudante, e fazer o curso de Harvard, Yale, Singapura, Munique ou outro online. Poderá ter mais estatuto e poderá muito possivelmente sair mais barato.

      Obviamente que inicialmente se irá criar uma diferenciação: “curso online ou tradicional?” entre os empregadores (semelhante ao “licenciatura antes de ou pós-Bolonha?“). Com o tempo o futuro neste aspecto ficará mais claro.

      1. Concordo, a peneira e isso é muito claro nos EUA tem é de ser cada vez mais do lado dos empregadores, já não podem confiar em “ratings” e classificações. e não só por causa dos cursos online, mas também pela inflação de notas em vigor,
        Provavelmente está aqui uma área de expansão para Randstads e outras.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *