Uma questão de perspectiva


Cristina Torrão,

rapariga mulher outra.jpg

«as pessoas passavam por mim e diziam palavrões, quase ninguém era simpático

entrava num estabelecimento e era sempre a última que eles atendiam, podia ter chegado primeiro e dava igual

ia pela rua a empurrar o carrinho de bebé onde levava a Shirley, depois levava os dois meninos pendurados em mim, um de cada lado, e os carros passavam de propósito nas poças para molhar a gente

e uma vez deixaram-nos uma ratazana morta à porta de casa, claro que fui eu a ver

e fui eu que tive de passar dias a fio a ver aquele VOLTEM PARA A VOSSA TERRA pintado a letras brancas na nossa porta, até o Clovis lhe passar tinta por cima

e era eu que passava os serões sozinha e aflita com medo de eles atirarem um trapo com gasolina a arder para dentro de nossa casa»

(pp. 278/279)

 

Essa coisa de ser atendida em último lugar, num estabelecimento, apesar de ter chegado primeiro, aconteceu-me nos primeiros tempos de Alemanha (1992/1993). Ficava furiosa, mas dizia a mim própria que tal era devido à estupidez do dono do estabelecimento (apesar de os outros clientes aceitarem, sem hesitar, a “amabilidade” do homem). Acabei por contar o sucedido a uma vizinha alemã que, numa ocasião, entrou no dito estabelecimento, quando eu lá estava, e não gostou da maneira antipática como o tal comerciante me tratou. Aconselhou-me a apresentar queixa contra ele. Mas nunca o fiz. E, até este momento, as únicas pessoas que sabiam do sucedido eram o meu marido e a tal vizinha.

Já não sei, porém, como agiria se um colega de trabalho me mandasse para a minha terra, sem a menor vergonha, perante milhões de testemunhas. É preciso ter um estômago bem forte para aguentar tal humilhação.

34 comentários em “Uma questão de perspectiva”

  1. A Cristina chegou à Alemanha quando eu já de lá tinha saído!

    Nunca na Alemanha me aconteceu tal coisa, ser mal ou tardiamente atendido num qualquer estabelecimento. Nem, claro, jamais me aconteceu ser mandado para a minha terra. Toda a gente sempre foi deveras correta para comigo. Mas, é verdade, eu vivia numa cidade grande (Dortmund), ao contrário (presumo) da Cristina.

    Só tinha algum receio de me aproximar da estação central, à noite, onde acampavam uns indivíduos a beber cerveja que me lançavam olhares pouco amigáveis. Apesar de eu ser branco, mas porque usava uma boina basca, que os alemães identificavam como sendo distintiva de franceses (não de bascos nem de espanhóis).

    1. Eu gosto de estar na Alemanha, já cá estou há quase trinta anos. E parte da minha família é alemã. Já agora: isto aconteceu numa cidade grande, Hamburgo, onde vivi os primeiros sete anos.

      Mas, meu caro anónimo, não nos desviemos do assunto! Isto que eu descrevi não acontece apenas na Alemanha. Acontece em todo o lado, Portugal incluído. Era esse o ponto do meu texto, uma chamada de atenção, para não subestimarmos nem menorizarmos estes pequenos gestos racistas. Porque basta mudar a perspectiva para nos apercebermos da sua crueldade.

      Também nunca me mandaram para a minha terra, felizmente. É uma atitude de extrema arrogância e desprezo; uma atitude profundamente racista, que ninguém merece. E o Ventura tornou a fazê-lo, nas redes sociais, recentemente, em relação à mesma pessoa. Não nos recusemos a ver o óbvio: o Ventura é racista!

      1. Isto que eu descrevi não acontece apenas na Alemanha. Acontece em todo o lado, Portugal incluído.

        Wirklich?!

        Eu já vivi na Alemanha e nos EUA, e já estive em diversos outros países. Nunca no estrangeiro fui propriamente destratado, muito menos de uma forma que possa considerar racista.

    2. Cristina Torrão, ontem quando passei pelo DO já eram altas horas por aqui onde resido, pelo que não consegui deixar a minha mensagem de apoio a este seu (mais um) “post”.
      Ontem, talvez nem fizesse muito sentido o que vou dizer a seguir, porque até eram poucos os comentários inseridos aqui, suscitados pelo mesmo: gabo-lhe a pachorra de estar a responder, taco a taco, a todos os comentários* que aqui foram inseridos que, como deve ter notado, até têm em comum a tentativa de negar a existência de racismo na Alemanha (em Portugal ou onde os brancos predominam). Aparentemente, pelo que fui lendo neles, o racismo pode ser reduzido a apenas uma manifestação de “malcriação”, “estupidez”, “falta de profissionalismo” ou surpresa das surpresas, «uma expressão popular portuguesa, bastante utilizada quando se discorda de alguém» ou até a, como nos elucidou um dos intervenientes, «hoje em dia confunde-se bastante as duas coisas» e até se confunde “mulatos” (ou os que nem as mulas) com “negros”, pelo que, para não cairmos em tentações racistas, temos de especificar qual o grau de pureza racial das pessoas que mencionamos! No meu caso é, julgo eu, 99,9% branco mas lá está, não sei se o espelho até me consegue dar um resultado fidedigno!
      Claro, é evidente que o racismo é um estigma da Humanidade. Aqui onde resido (Tailândia), com a crise pandémica, ele até se tornou mais evidente: não só um ministro resolveu postar, num daqueles habituais meios de comunicação social a que os populistas gostam de recorrer, que os brancos (“falangs” na língua local) eram porcos e cheiravam mal, pelo que o vírus até supostamente tinha uma predilecção por os escolher (apesar dele ter surgido na China); como até o meu único vizinho, numa festa, na sua casa, em Agosto passado, resolveu repetir o mesmo chavão (o de que os “falangs” são porcos e cheiram mal) várias vezes e em voz alta… mas nada disso até o impediu de, na semana passada pular o muro e vir ajudar-me num problema que tive com o sistema eléctrico da minha casa.
      Porque é que o racismo local até nem me incomoda? Porque o meu rendimento é quase 10 vezes superior ao da média do cidadão nacional: eu estou como a Isabel dos Santos, essa “mulata” mais do que evidente, que nunca sentiu qualquer problema de racismo… todos os que a rodeavam eram naturalmente não-racistas. Claro, ela até poderia ter escrito um comentário, a propósito do seu “post”, a dizer que nunca sofreu de qualquer manifestação de racismo. E se fosse um “twitter” até o Ventura clicava que gostava dele.

      * Nem todos os comentários. Há excepções: o “Anónimo” das 18:08 do dia 23 é o único exemplo deles.

      1. Permita-me defender o meu comentário.
        Em lado nenhum o senhor consegue retirar das minhas palavras a negação do racismo. O racismo existe e existirá sempre.
        Mas ao contrário de algumas pessoas, das quais o senhor poderá fazer parte, exacerbar o racismo e generalizá-lo, eu prefiro não o fazer.
        Antes de mais porque acredito nas pessoas e antes de fazer análises precipitadas, opto por me inteirar do assunto e de tudo o que o envolve.
        Provavelmente onde se encontra, não lhe chega todo o conteúdo que originou o post.
        Para além de que, a definição de racismo, constante no código penal português é bastante compreensível e não dá azo a exageros. Ou seja, não permite que se veja racismo em todo o lado.
        A expressão vai para a tua terra, é de facto uma expressão popular portuguesa. Não questiono se quem a fez, a fez por ser racista, acho que não, acho que a fez a uma mulher negra, que o atacou, como faria a uma branca de origem diferente da portuguesa, que o tivesse atacado, como já o fez. E por isso é que isto não é racismo, porque não é possível legalmente cominar esta expressão como racismo.
        A generalização de um problema, não ajuda a resolve-lo. Muito pelo contrário, aumenta a fratura.
        Ver racismo em todo o lado é até o primeiro passo para banalizar o problema, pois arriscamo-nos a chegar ao ponto em que ninguém o leva a sério.
        E de exageros está o mundo cheio. Como a nova política de algumas marcas de cosméticos, que deixam de utilizar a palavra branqueador, como se isso fosse ofensivo a alguém.
        Por isso peço não interpretar o meu comentário dessa forma tão extrema, porque em nada o meu comentário teve o propósito que o senhor lhe deu, nem pretendeu disfarçar absolutamente nada. Haja ponderação e crença nas pessoas. Que é algo que faz muita falta.

        1. Caro “O Inconveniente”, confesso que não conheço «a definição de racismo, constante no código penal português» mas peço-lhe que até nem leve a mal se, independentemente dessa minha ignorância, lhe disser que nem preciso dela para reconhecer esse fenómeno onde ele até se revele, quer seja na Alemanha, da Cristina, no nosso Portugal ou até aqui na Tailândia, onde resido… é que eu nessas coisas, estou como os britânicos (e mais tarde, os seus descendentes do outro lado do Atlântico) a propósito de patos: «Se se parece com um pato, nada como um pato e grasna como um pato, provavelmente é um pato!» e isso não é exacerbar, nem generalizar seja lá o que V. quiser: é apenas, como diria qualquer português, “chamar os bois pelos seus nomes”!
          Não sei onde descobriu “expressões” da Joacine “não piores” do que as do Ventura (e confesso que até gostaria de as conhecer… porque, evidentemente, essa é – supostamente – uma falha minha! Ou um “exacerbar” seu…) mas o que lhe gostaria mesmo de dizer é que, como até ontem tentei explicar no meu comentário, o racismo está rodeado de uns pequenos pormenores que, evidentemente, até permitem que quem não se sinta atingido, o reduza a uma questão “fraturante”, ou a um mero “exacerbar” ou “generalizá-lo”.
          E não, meu caro, “banalizar o problema” é o que V. tenta fazer quando o descreve como «Não questiono se quem a fez, a fez por ser racista, acho que não, acho que a fez a uma mulher negra, que o atacou, como faria a uma branca de origem diferente da portuguesa, que o tivesse atacado, como já o fez.» – a questão não está no suposto direito dele contra-atacar mas no conteúdo do seu contra-ataque…
          O preocupante na maioria dos não-racistas portugueses é que eles não querem perceber que a sua argumentação acaba por ser tão racista quanto até a daqueles que usam tatuagens racistas: o Ventura nunca utilizaria «A expressão vai para a tua terra» (mesmo até sendo «de facto uma expressão popular portuguesa») para “atacar” a Marisa Matias… e eu até sou generoso ao ponto de aceitar que V. até sabe isso e que sabe que ele não é um idiota: que ele consegue distinguir a raça da Joacine da da Marisa e… é nisso que ele aposta!
          Eu, por acaso até nasci em Angola, mas tenho a certeza que o Ventura nunca me mandaria de regresso à minha terra e ambos até sabemos porquê!

          1. Para além de não conhecer a definição do termo racismo no CP português, parece que tem uma ideia incompleta do termo no dicionário português.
            E digo incompleta porque racismo é ter uma atitude agressiva, baseada na superioridade biológica de um em relação ao outro. De forma SISTEMÁTICA. E isto de sistemático é que faz toda a diferença. Faz toda a diferença no tal exacerbar a que eu que referia.
            Repare, eu não estou a dar a minha opinião pessoal. Eu estou apenas a defender que não é por alguém expressar uma frase sobre outra pessoa de outra raça, que é necessariamente racismo.
            E essa errada percepção ou entendimento de racismo, é que muitas vezes cria conflitos e motiva certas pessoas e grupos a cometerem actos vis.
            Reagir ao racismo é necessário, mas devemos ter a noção ponderada sobre o que é racismo e o que não é.
            Por exemplo, o episódio que a autora aqui descreveu, sobre a sua experiência na Alemanha, poderá sem dúvida ser entendido como racismo. E porquê? Porque foi sistemático. Não aconteceu isoladamente e não aconteceu como resposta a nada. Resta apenas saber se para além do sistemático, também aconteceu por superioridade de um sobre o outro.
            Como disse antes, provavelmente não lhe chega a informação toda. E a culpa não é sua, até aqui, para a termos, temos de escavar.
            Mas sobre se Ventura é mais racista que Joacine, eu acho que se é, não parece.
            Tenho vários amigos estrangeiros e colegas de trabalho de outros países e raças. E cheguei a questionar alguns deles sobre isto. E foi unânime a opinião de todos. Se isto é racismo, tudo é racismo. Outros acrescentaram que ela se pôs a jeito. E para terminar, nunca ninguém se apercebeu que a ministra da justiça nunca seguiu pelo caminho de que Ventura, as suas declarações, ou o próprio partido é racista? Porque será? Se calhar porque é uma mulher mais esclarecida, menos conspirativa e não tem nada de fundamentlismo dentro de si. E demarcou-se, desde o início, de Joacine.

          2. «Atitude ou comportamento sistematicamente hostil, discriminatório ou opressivo em relação a uma pessoa ou a um grupo de pessoas com base na sua origem étnica ou racial, em particular quando pertencem a uma minoria ou a uma comunidade marginalizada».

            “racismo”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/racismo [consultado em 26-11-2020].

            Inconveniente, penso que a expressão “sistematicamente hostil” não tem a ver com o facto de um ataque vindo de uma pessoa tenha de ser sistemático, mas com uma atitude que se repete (independentemente de ser sempre a mesma pessoa, ou outras pessoas). Se eu considerar, por exemplo, que determinada etnia é inferior à minha, mas não o expressar, ou só o expressar uma vez, não sou racista?! Olhe que isto é mesmo perigoso, pois permite-me negar ser racista, quando efectivamente o sou.

            A Joacine pôs-se a jeito? Desculpe, mas sou alérgica a expressões deste tipo, que permite, entre outras coisas, desculpabilizar violadores.

            Mandar alguém para a sua terra é racista, sim senhor! É uma forma profunda de discriminação. Repito o que disse no post: se alguém aqui tivesse uma atitude dessas comigo, eu sentir-me-ia inferiorizada e humilhada.

          3. Atitude ou comportamento sistematicamente hostil, discriminatório ou opressivo em relação a uma pessoa ou a um grupo de pessoas com base na sua origem étnica ou racial,

            “racismo”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/racismo [consultado em 26-11-2020].

            Lá estamos nós a cometer uma incorreção, que é ler apenas o que nos interessa para a colar na nossa narrativa, ou no nosso ponto de vista.
            Esse é um dos motivos porque as coisas tomam proporções desastrosas.
            Tal como comparar situações incomparáveis. Comparar uma expressão destas, com uma violação é profundamente exagerado. É mais do que isso, é um insulto a quem já passou por uma experiência tão cruel. Fazer este tipo de comparações não exagera somente o problema, diminui e banaliza aquele que é realmente grave.
            A questão é, se for racista e não o expressar, eu nunca vou saber. Mas se não for e por uma vez se virar para um indiano, no meio de uma discussão encrispada e o mandar para a Índia, já é?
            Não sei se me consigo explicar convenientemente, mas faço um esforço para transmitir a minha leitura. A balança que pesa o racismo, não pode ser diferente da que pesa o não racismo.
            Também não posso.esquecer que são os próprios brancos que tendem a levar as palavras tão ao exagero Os negros não o fazem. Pelos menos aqueles moderados. Um grande amigo negro disse-me há pouco tempo: estes exageros fazem-me sentir realmente mal. Eu quero que falem comigo, que discutam comigo, que vociferem comigo, tal e qual como o fazem entre si. Porque se não o fizerem, aí eu vou-me sentir diferente e eu não quero.
            Isto quer dizer muito. Quantas vezes as pessoas do Porto ouvem isto em Lisboa e os de Lisboa no Porto? E vamos levar ao extremo? Se for um negro africano é mais grave? Fazer disso mais grave é que é diferenciar a pessoa.
            Acredite, já não sei se isto foi uma lavagem ao cérebro geral, ou uma doutrinação em massa, mas que esta sensibilidade não existia há bem pouco tempo, não.
            Parece uma moda, veremos se passa.

          4. No máximo, ó “O Inconveniente”, da sua parte, confesso que apenas estava à espera das tais mencionadas «“expressões” da Joacine “não piores” do que as do Ventura» mas lá está, V. não tem qualquer obrigação de atender às minhas expectativas de o considerar como intelectualmente honesto e isso até fica claro quando escreve uma vez mais, na mesma onda, que «Mas sobre se Ventura é mais racista que Joacine, eu acho que se é, não parece» – não sei se “achismos” seus como este até provam algo mas acredito que neste blogue, isso é até sagrado: é que aqui no DO respeita-se a o “delito de opinião”! Mais o delito do que a opinião…
            Sobre a minha suposta «ideia incompleta do termo no dicionário português» quase que deixo em branco porque a Cristina Torrão até já abordou quase exaustivamente a questão! Como lhe disse antes: «Se se parece com um pato, nada como um pato e grasna como um pato, provavelmente é um pato!»…e lá está, quando menciona que tenho «uma ideia incompleta do termo no dicionário português» tudo até fica mais claro: pelos vistos até há um “dicionário português”: qual? Não o revela! Nem tem de o revelar!
            Mas, inevitavelmente, até nem conseguiu escapar a recorrer ao estafado argumento de todos os racistas do momento, o do «Tenho vários amigos estrangeiros e colegas de trabalho de outros países e raças.» – a propósito dessa suposta Uau! novidade, só me ocorre até lhe dizer: os meus parabéns! V. deve ser um verdadeiro cosmopolita! E com um pouco de lábia até será um expert na matéria e isso nunca será até uma novidade… a teoria de que o branco não é racista mas apenas reage, obrigado a ser racista, ao racismo das outras raças, é uma lengalenga que, para além do seu “non sense” racional, até consegue impor-se como qualquer enredo ficcional: eu até adoro ver o “Gone With The Wind” mas isso é por que vejo nas suas personagens, o que eles são: brancos a berrarem o que nunca foram: superiores!

          5. Tem de ler o meu último comentário, onde completo o significado de racismo, que a autora transcreveu, mas de forma incompleta.
            Seja como for, as opiniões são mesmo isso, opiniões. Eu não sou racista, nem vejo racismo em todo o lado. É a minha opinião. O senhor terá a sua. Em lado nenhum escrevi que o branco não é racista. Dizer isso como o senhor disse, é uma desonestidade para muitos brancos, incluindo eu. Porque ao dizer isso, parte do princípio que basta ser branco para ser racista. O racismo existe e não é exclusivamente branco. Existe, mas eu não generalizo. Não é justo. Porque se o generalizar, então o senhor, se for branco, também é. E com certeza não gosta do rótulo. Eu não gosto.
            Quanto aos relacionamentos, não entendo o problema, nem o porquê de ser um argumento menor. Serão as verdadeiras vítimas, certo? Então se são, a sua opinião é muito mais válida que a sua, que a minha, ou que a de outro qualquer que não passe por isso.
            Eu recuso o racismo sistémico português, porque acho que não existe. E ver a reportagem, penso que do JN, sobre famílias de refugiados negras, que se estabeleceram no interior do país, e ler o que dizem sobre os portugueses, enche-me de orgulho e dá um profundo golpe em quem titula o português de racista congénito. E estamos a falar do interior, de aldeias, não de grandes centros urbanos, com pessoas mais cosmopolitas. E são famílias de negros que negam e até ficam exasperados, quando se lhes coloca a ideia do português racista.
            Temos leituras diferentes, mas isso é algum problema? Eu não entro no tom jocoso consigo, só porque tem uma opinião diferente. Dou o meu ponto de vista e respeito o seu. Bastava isso. Dar o seu ponto de vista e respeitar o meu.

  2. Não conheço a Alemanha como a Cristina,mas de 1988 até 1991 estive lá quatro vezes.Isto para dizer: que em 1990 tive um Professor português de Alemão que ainda hoje me lembro dele como um dos poucos professores de excelência que tive,( nunca fui fluente em Alemão e hoje pouco ou nada sei) e que dizia a turma que depois da 2 guerra mundial, Alemanha se tornou o povo mais hospitaleiro da Europa.
    Bem, ainda hoje não tenho essa ideia! Na altura da guerra do golfo estive em Munique e fui a uma cervejaria Histórica (a fazer lembrar a Portugalia) com um grupo de amigos demasiado jovens e comportados, e para nosso espanto era uma cervejaria cheia de vida, cantava-se, algumas pessoas tipicamente trajadas, mas rapidamente saímos(sem beber ou comer nada) ao sentir que apenas não olhavam para nós, como diziam com ar de desprezo “auslânder”, eramos brancos,relativamente altos acima do 1.80, mas pequenos ao pé dos Alemães que se encontravam na cervejaria. Tendo eu visitado vários países da Europa, nunca me tinha sentido assim, e hoje muito mais velho ainda penso o porquê?
    Mas também é verdade que não esqueço uma senhora “gorda” na Baviera num restaurante que nos tratou muito bem e a comida era excelente, e um outro senhor para os lados da Floresta Negra que já fora de horas fez questão de servir os Portugueses e falava de Portugal maravilhado com as sardinhas e o vinho, de uma extrema simpatia.
    As peripécias foram muitas, mas nunca esqueci aquele dia na cervejaria de Munique.

    Ricardo Santos

      1. Cristina, é claro que sim! (mas aquilo na cervejaria foi mais uma estupidez daquelas pessoas em concreto )
        Basta ter tido o exemplo do meu pai que esteve em ultramar na guerra 2 anos e tal..(numa experiência que hoje sei, foi muito má…) nunca o ouvi a dizer mal de Angola ou de alguém de cor, muito pelo contrário.Posso dizer que há 25 anos atrás no centro comercial de Benfica(Fonte Nova) um rapaz de cor estava a ser agredido por brancos, e o meu pai rapidamente foi intervir tendo inclusivamente sido agredido.
        Jamais poderei aceitar discursos de ódio venham de brancos, amarelos, verdes,pretos do que for.

        Ricardo Santos

  3. Boa tarde,
    Só para que conste, isso já me aconteceu em Portugal, Lisboa, apenas por não ser cliente habitual da loja. O proprietário servia primeiro os clientes habituais.
    Nunca mais lá voltei por causa da falta de profissionalismo.
    Será que afinal foi racismo?!

    1. Qualquer forma de discriminação é lamentável.

      Mas aconselho-a a não brincar com o termo “racismo”. Depois de ler o excerto do livro, não sentiu nada? Ficou indiferente? Se sim, desculpe ser tão drástica, mas receio pela sua saúde mental.

        1. No caso do livro, tem a ver com racismo. Ela e a sua família eram os únicos negros numa pequena cidade inglesa, nos anos 1950. E eu assisti a este género de racismo numa pequena aldeia transmontana.

          A Susana acha que maldade não é tão grave como racismo, é isso? Fosse por maldade ou por racismo, o certo é que a família do livro era vítima de discriminação. Ora, discriminar é tirar a dignidade humana a alguém, pois, quando discriminamos, vemos essa pessoa num patamar inferior, ou seja, consideramos, por preconceito, que vale menos do que nós. Acha que chamar-lhe maldade torna o gesto menos grave?

          1. Ela e a sua família eram os únicos negros numa pequena cidade inglesa

            Segundo leio na wikipedia, Bernardine Evaristo é filha de mãe branca e pai negro. Ela própria, pela fotografia, é mulata, não é negra.

            Não se trata portanto de uma família de negros. Trata-se de uma família de mãe branca, pai negro, e filhos mulatos.

            Os racistas têm um conceito muito abrangente de “negro”.

            Convém não usarmos os mesmos conceitos que os racistas.

          2. Caro Anónimo, é preciso explicar tudo? Não sabe o que é um romance, uma obra de ficção?

            Este livro não é sobre a vida de Bernardine Evaristo. É um romance. Um romance é como um filme, percebe? Conta uma história (aliás, neste caso, várias histórias), mas trata-se de ficção. Isto não quer dizer que não retrate a realidade. Há milhões de exemplos, mas, para dar um que talvez conheça (ou já tenha ouvido falar): “Os Maias”, de Eça de Queirós, também é uma ficção, mas retrata na perfeição a alta sociedade lisboeta do fim do século XIX. Assim como “O Crime do Padre Amaro” é uma ficção, mas retrata algo que acontecia na realidade. Percebeu agora?

            Voltando ao livro de Bernardine Evaristo e à cena da tal família numa pequena cidade inglesa nos anos 1950: trata-se de um casal originário de Barbados (não são africanos, mas são negros os dois). A mulher chama-se Winsome, o homem chama-se Clovis, a filha mais nova chama-se Shirley, os meninos são o Tony e o Errol. Não se trata da família de Bernardine Evaristo!

            Espero que tenha percebido.

          3. Cristina, não se abespinhe. O racismo é uma forma de maldade, isso não há dúvida. Agora eu não tenho uma escala de maldade. Não me parece pior ser racista do que odiar (e maltratar) gordos. Ou mulheres. Ou ruivos. Ou albinos. É tudo igualmente condenável.

    2. isso já me aconteceu em Portugal, Lisboa, apenas por não ser cliente habitual da loja. O proprietário servia primeiro os clientes habituais

      Pois. A mim também já me aconteceu.

  4. A expressão foi profundamente infeliz. Mais ainda vinda de quem tem uma certa responsabilidade política e social. Mas daí a categorizar uma pessoa de racista por ter dito isto, é demasiado exagerado. Conheço imensas pessoas que utilizaram a mesma expressão, relativamente à mesma pessoa, depois de terem conhecimento de certas considerações por si feitas, e nenhumas delas é racista.
    E lá voltamos ao mesmo ponto. A autora postou há dias ” a minha ditadura é melhor que a tua “. E este assunto vem na mesma corrente. As expressões de Ventura não são piores que as de Joacine. E ainda recentemente fez uma extremamente infeliz, sobre a letra de uma música, que choca e indigna bastante qualquer português.
    Mas como escrevi, uma coisa não justifica a outra e tanto um personagem, como o outro, já deveriam ter percebido, que este ping pong é fraturante.
    Nem consigo imaginar o que sentiu, aquando do episódio que descreveu, mas terá sido racismo, ou falta de educação? E não estou a colocar em causa, apenas a tentar perceber, porque hoje em dia confunde-se bastante as duas coisas.
    E permita-me que exponha aqui outra questão.
    O que aconteceu consigo, foi lamentável. E foi principalmente porque nada terá feito para receber aquele tratamento.
    Mas imagine que durante o ano anterior, tinha andado a gritar aos quatro ventos, que as pessoas da cidade onde vivia eram racistas, que eram mal formados, que tinham sangue nas mãos e uma herança medíocre. Não acharia natural que alguém a destratasse?
    E repare, a Alemanha tem de facto uma herança pesada, mas será justo catalogar a gerações atuais pelos erros do passado e qualificar de forma tão negativa as pessoas que fazem a Alemanha de hoje?
    Em suma, a expressão foi infeliz, tal como o posicionamento da visada é infeliz. E na mesma medida é exagerado qualificar alguém de racista por causa desta expressão, quando não se qualifica da mesma maneira quem tem dito infelicidades de teor tão mais grave e em grande quantidade.

    1. No que respeita ao meu caso, a tal vizinha disse ter presenciado como o comerciante em questão (um açougueiro) protestou por ter de esperar bastante tempo, quando foi matricular o filho à escola. A razão da sua fúria prendia-se por ter famílias turcas à sua frente, que iam igualmente matricular os filhos. Achava ele que, como alemão, devia ter passado à frente deles. Desde que ouviu isso, essa vizinha ficou de pé atrás com ele e, por isso, me abordou, quando o achou antipático comigo. Além disso, ele começou igualmente a olhar o meu marido alemão de lado, quiçá pensando que ele não tinha nada que ter “ido buscar” uma mulher ao estrangeiro. Se isto não é ser racista…
      Enfim, não ficámos naquela zona muito tempo, pois o nosso apartamento era minúsculo e mudámos de casa, assim que tivemos oportunidade. Nunca mais tive experiências do género, felizmente.

      1. Ok. A sua experiência acaba por servir de comparação na exata medida, para perceber porque razão Joacine recebe este tipo de presentes. E o de André não é o único, é apenas aquele que importa valorizar.
        E porquê? Porque a sua experiência com esse indivíduo miserável, não permitiu que a autora expandisse essa experiência para além desse mesmo indivíduo. Não foi por ter vivido essa experiência negativa, que passou a medir todos os alemães pela mesma bitola. Ou seja, aquele singular, não passou a ser um plural. E esse é o motivo porque Joacine é brindada com estes comentários. Mais lamentável é o facto de a mesma fazer questão de lhes dar eco, quando já recebeu e recebe, bem piores. Mas obviamente, por questões de doutrina e não de intelectualidade, lhes dá mais ênfase público.
        O post versava sobre o vai para a tua terra. Antes de mais, é uma expressão popular portuguesa, bastante utilizada quando se discorda de alguém.
        No caso, foi utilizada como troco a uma alfinetada da própria Joacine, que foi quem despoletou a troca de galhardetes. E logo com quem se foi meter, alguém que não consegue estar calado e que jamais iria permanecer em silêncio perante a provocação. Dever-se-ia ter elevado. E era tão fácil, apenas demorado. Porque se a multa em si é absurda, mais absurdo é o motivo. E mais ainda ter sido multado por isto, que tem fundamento científico e isento, quando já disse bem pior, sem fundamento científico e isento.
        Por isso, bastaria esperar pelo arquivamento judicial óbvio, para responder com nível. Mas já se percebeu que com estes dois, isso nunca vai acontecer (responder com nível).

        1. Sim, é importante não tomar a parte pelo todo, generalizar é um grande erro, pois, ainda assim, a maioria das pessoas age como deve ser (pelo menos, quero acreditar que sim). Mas André Ventura, como político, tem responsabilidades acrescidas. É perigoso um político apelar aos maus instintos, pois muita gente, que só a custo se segura sem fazer asneiras, pode tomar atitudes dessas como um modelo, uma legitimação, para soltar os seus maus fígados. É esse o truque dos populistas.

          1. Está-se a esquecer que Joacine também é política. E as responsabilidades de Ventura são exatamente iguais às de Joacine. Não tendo intenção de desculpabilizar um em relação ao outro, não acho justo direcionar as armas apenas para um lado. Ventura tem mais mediatismo, e provavelmente onde a autora está, chega-lhe mais Ventura, mas se pesquisar o que Joacine diz e escreve, e que não é difundido pelos media, irá com certeza pasmar-se com as suas declarações e provocações.
            Nesta análise tento ser o mais isento possível, mas a verdade é que invariavelmente, Ventura responde, não toma a iniciativa. Aliás, até foi Joacine quem iniciou as hostilidades, ainda em período de campanha eleitoral.
            Infelizmente também se verifica um assobiar para o lado, sobre as polémicas da deputada. Que vão desde os seus colegas da assembleia, aos observatórios e acabam nos media.
            No final, o único que vai respondendo e não consegue ficar calado é Ventura, e obviamente, queima-se.
            Ventura por vezes é indelicado com Joacine, mas não nos esqueçamos que Joacine é indelicada com milhões de portugueses. E é-o porque ainda ninguém com bom senso, ponderação e responsabilidade, a chamou à razão e a alertou para o péssimo exemplo que tem sido.
            E a maior desilusão é que Joacine poderia ser uma voz ativa e positiva e marcar de facto a diferença, se optasse por um discurso menos fraturante, mais pedagógico e menos injurioso.

          2. Concordo!
            Só discordo de achar que Joacine e Ventura são políticos, pois na minha opinião são apenas oportunistas e muito mal formados.

            José Silva

          3. «Só discordo de achar que Joacine e Ventura são políticos, pois na minha opinião são apenas oportunistas e muito mal formados.»
            Mas caro “Anónimo” das 19:37 do dia 24, lá o que se possa dizer sobre os achismos, pouco há para dizer… é que eles nem têm a preocupação de serem fundamentados… são apenas achados!

  5. Há dias esperava pela minha vez num Centro de Saúde com o nº 56. Uma jovem cigana entrava e saía constantemente para dentro de um carro que a esperava.
    Chegada a minha vez não reparei na cigana e aproximei-me do guichê e disse, sou o 56. A cigana salta atrás de mim ( eu que já tenho alguma idade ) e gritou enraivecida, sou o 55!
    Eu: desculpe, não sabia o seu número e repeti pedindo desculpa.
    Ela: não desculpo nada e grosseiramente aproximou-se do guichê.
    Há uns tempos nos Correios chegada a minha vez, de repente aproxima-se uma cigana jovem com um bébé ao colo e grita, tenho prioridade.
    Recebeu 800 e tal Euros de 3 crianças. Cá fora esperava-a um Mercedes fumado de 100.000 Euros. Entrou para o banco de trás.
    Lecionei uns anos e um dia 2 africanos lutavam e um deles a cada soco gritava ” toma lá preto” Apartei-os com dificuldade e disse para o tal; então está a chamar preto ao seu colega? ´Resposta; ó professor ele é preto ou não é?
    Obs. O Ventura tem um secretário preto que é um grande orador. É agradável ouvi-lo.Cumprimentos

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