Uma imagem do Estado a que isto chegou


Paulo Sousa,

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A conferência de imprensa da DGS de ontem foi liderada pelo Dr. Rui Portugal. Sabemos que a Drª Graça Freitas está infectada com o Covid19, tendo sido por isso substituída por um dos seus Subdirectores-Gerais.

A sua intervenção foi transmitida pela televisão e seguiu directamente para as redes sociais onde foi gozada até à exaustão.

Independentemente do teor das piadas, o que retive foi que este senhor, juntamente com a Drª Graça Freitas, serão dedicados servidores públicos, e não duvido que estejam a empregar o melhor das suas capacidade no combate a esta pandemia. No entanto não pude deixar de me questionar se estas serão as pessoas mais habilitadas para transmitir aos portugueses, com a clareza que se impõe, a informação que importa. Serão estes os técnicos de saúde pública mais capacitados para liderar a DGS, ou apenas os melhores que o Estado consegue atrair e manter nos seus quadros?

Como se podem atrair e manter motivados quadros qualificados? Sabemos que no actual enquadramento legal isso não é possível. E não estamos a falar necessariamente de mais dinheiro mas sim de uma re-organização focada numa correcta gestão de recursos humanos.

Anos e anos de reformas adiadas, motivadas por taticismo político e por ideologia, colocaram o interesse público no fim das prioridades. Quando nos rimos do Dr. Rui Portugal, da mesma forma que nos ríamos da Drª Graça Freitas, estamos no fundo a rir de nós próprios e da nossa incapacidade de nos levarmos a sério.

38 comentários em “Uma imagem do Estado a que isto chegou”

  1. Não consigo rir da conferência de imprensa da DGS, de tal modo absurda e ofensiva. Esvaiu-se-me o sentido de humor com discurso dominante no mundo. Vivemos num infantário.

    1. Sim eles tratam-nos como crianças. Quem se der ao trabalho de assistir à conferência de imprensa, está a contar que a qualquer momento nos expliquem que para caminhar é preciso avançar com um pé, e só depois, e este detalhe é importante, só depois se pode avançar com o outro.

  2. Além do crescente proselitismo dos funcionários públicos, já de si um pouco repugnante e cada vez mais circunscrito a uma elite das avenidas novas, desligada da realidade de um País que estão a destruir e a encher de gente esquisita (porque não tem de viver com eles a não ser quando vai uma empregada lá a casa fazer as limpezas, ai são tão simpáticos, coitadinhos, não percebo o racismo com os ucranianos) — chamo a atenção para o facto de cada vez mais o Estado se imiscuir na vida privada e um tipo meio médico e meio desdentado como o Dr. Portugal (belo solipsismo) vir agora em tom de tutoria dar instruções sobre a forma como as pessoas, na sua própria casa, devem estar na sala e à mesa a passar o Natal. Chegámos à enfermagem obrigatória e a partir daqui, com esta gente sempre pronta a obedecer, não é difícil imaginar o que poderão vir a ser os fascismos do futuro se as pessoas não abrirem a pestana.

    1. O Dr. bigodes (monárquico ?) foi o que se arranjou. Tinha que ser um responsável a emitir a comunicação, não era só escrever e dar a outra pessoa a ler. Tá bem que o stor não tem jeito pr’aquilo, agora o que não seria ter havido um “estranho” ler o comunicado. ‘É uma vergonha, lá estão os jobs a boys a facturar’ dizia-se.

  3. Isto pode ter várias leituras.
    Uma delas poderá ser uma total falta de cultura de marketing, ou relações públicas. Que poderá eventualmente acontecer por incompetência, ou inoperância, mas também por uma cultura de sobranceria.
    Sobranceria porque é muito comum no nosso país alguém achar que por ocupar determinado cargo, é logo o máximo em tudo. Até na capacidade comunicacional.
    A figura de relações públicas, não é habitual no nosso país. Ter alguém com capacidade e imagem para passar a mensagem, não é utilizada. Em vez disso, temos qualquer um, independentemente da sua competência para o cargo que ocupa, achar-se capaz de comunicar e achar-se dono de uma imagem que seja capaz de convencer. Sim, porque os olhos também comem.
    Costumo dar o exemplo americano. Os sucessivos governos têm sempre os seus press secretaries. Que são nada mais nada menos que relações públicas. São pessoas escolhidas a dedo, não só pelo seu compromisso com a administração, mas também por terem capacidade de oralidade acima da média e uma imagem agradável.
    Esta figura começou a ganhar maior relevo com Nixon e Gerald Ford, dois presidentes com visíveis limitações de comunicação.
    Mais recentemente Bush filho teve como press secretary Ari Fleisher, ou Scott Mclellan, dois comunicadores natos. O segundo, que exerceu o cargo durante a guerra do Iraque foi um dos grandes responsáveis pela reeleição.
    Mais tarde Obama e Trump relegaram estas figuras para segundo plano. Ambos por vaidade, por egocentrismo e por um profundo culto do eu. Se Obama nunca mudou a sua estratégia, talvez por ter alguma pinta e uma legião de groupies qual pop star, nomeadamente na imprensa, Trump percebeu tarde a importância do press secretary. E só em 2019 elegeu uma verdadeira máquina para a função, Kayleigh McEnany. Se se tivesse lembrado mais cedo, poderia ter outro resultado. Mas lá está, o culto do eu, dá nisto.
    Muitas vezes menos é mais. E quando alguém não tem perfil para falar às massas, deveria optar por um porta-voz. Cavaco Silva, por exemplo tinha imensa dificuldade de oralidade. Atualmente, Eduardo Cabrita é um caso gritante. O próprio Costa é alguém limitado neste aspecto.
    A sobranceria é pois um problema enraizado na cultura portuguesa. E é fácil de ver quando acontece. Basta verificarmos a quantidade de vezes que alguém aparece, em contradição com o seu antecessor. O diretor da PSP é um bom exemplo. Menos é mais. E talvez por isso se fale tanto na PSP, porque o próprio diretor se mostra demasiado e por vezes diz o que não deve. Como recentemente.

    1. Óptimo comentário.
      Fez-me lembrar o dia em que a Ana Avoila passou a ir ao cabeleireiro, depois de anos e anos em que aparecia nas TV’s como se tivesse acabado de sair da cama.
      Curioso, era suposto os socialistas terem aprendido as lições do “animal feroz” e os seus “Luís, estou bem assim?” Mais uma herança desperdiçada, pelo que se vai vendo…

    2. Para um cargo técnico desta natureza, as capacidades exclusivamente técnicas não são suficientes. Sem capacidade de comunicação a mensagem segue mas de forma deficiente, e em casos como uma pandemia isso pode custar vidas.
      Uma seleção criteriosa faz todo o sentido, mas talvez não existam condições para conseguir atrair quem reúna essas condições.

  4. “(…) ou apenas os melhores que o Estado consegue atrair e manter nos seus quadros?”
    Um subdirector-geral, não tão pouco como isso. E se aliarmos a segurança de um emprego na administração pública, com o prestígio que um lugar destes dá a quem o desempenha com eficácia, penso que não seria difícil, ao Estado, recrutar pessoas competentes, dispostas a ocupar um lugar dessa natureza.
    O mal é que o Estado foi capturado pelos Partidos e o recrutamento faz apenas nesse círculo de “amigos”.
    Além disso, basta lembrar o que o actual PM fez à CRESAP, entidade que tinha sido criada no governo do Passos e que o Costa depressa desprezou.
    Dificuldade em o Estado recrutar gente capaz? Não! Façam concursos públicos vejam como aparecem candidatos habilitados e com potencialidades, capazes de desempenharem, competentemente, lugares ao mais alto nível na administração pública.
    Limitar o recrutamento ao grupo de amigos, chama-se nepotismo, que é o que mais se vê em Portugal.

    1. A Drª Graça Freitas já fez muitos ziguezagues nas suas recomendações. Muitas das vezes foram claramente a reboque das instruções do governo.
      Mas se este é um cargo técnico que se quer independente, até porque o governo já tem os seus spins e porta-voz, levanta claramente a suspeita de que se trata de mais um caso de jobs for the boys, girls, etc. Mas esse é o estado a que chegamos.

  5. Corrigindo:
    “(…) ou apenas os melhores que o Estado consegue atrair e manter nos seus quadros?”
    Um subdirector-geral não ganha tão pouco como isso. E se aliarmos a segurança de um emprego na administração pública, com o prestígio que um lugar destes dá a quem o desempenha com eficácia, penso que não seria difícil, ao Estado, recrutar pessoas competentes, dispostas a ocupar um lugar dessa natureza.
    O mal é que o Estado foi capturado pelos Partidos e o recrutamento faz apenas nesse círculo de “amigos”.
    Além disso, basta lembrar o que o actual PM fez à CRESAP, entidade que tinha sido criada no governo do Passos e que o Costa depressa desprezou.
    Dificuldade em o Estado recrutar gente capaz? Não! Façam concursos públicos vejam como aparecem candidatos habilitados e com potencialidades, capazes de desempenharem, competentemente, lugares ao mais alto nível na administração pública.
    Limitar o recrutamento ao grupo de amigos, chama-se nepotismo, que é o que mais se vê em Portugal.

      1. Acredito que sim. E foi subindo, subindo, até atingir o seu nível de incompetência, como é normal na administração pública.

  6. O Dr. Costa vive dos seus sacos de pancada para se proteger, com a cumplicidade de Sua Excelência o labiríntico Marcelo.

  7. Ainda vais a tempo de trazer os teus amigos Passos Coelho e Vítor Gaspar para fazer a citada conferência,acessorados pela luminosa inteligência do Bastonário dos Médicos e pela Cavaca, Bastonária das Enfermeiras…
    Isso sim é que seria serviço público,isso é que era só saúde !!!
    Avança,em segunda linha, com o Presidente do SIM,que também é danado para a pancada,e que já venceu várias vezes o Covid,no prato,está claro…
    Porque não se calam ???

  8. Infelizmente esta situação não é exclusiva do estado. Atravessa toda a sociedade não só nacional como também internacional.
    Há mais de 50 anos que está documentado, e talvez não fosse má ideia tentar perceber o seu conteúdo ” num sistema hierárquico, todo o funcionário tende a ser promovido até ao seu nível de incompetência ” .
    Apesar de muitos não o levarem a sério, o ” Princípio de Peter ” demonstra a sua eficácia em qualquer hierárquicologia.
    Não vale a pena bater no “ceguinho” a culpa não é do homem, é somente do sistema.

    1. Não parece que este senhor tenha atingido o seu nível de incompetência ao ser nomeado subdirector-geral. Ele já era incompetente na função anterior, com certeza.
      Mas isso nunca deveria acontecer no Estado. A nomeação para lugares nos níveis mais elevados da administração pública, deveria ser sempre precedida de um concurso público. E se assim se fizesse, os incompetentes teriam muita dificuldade em ser nomeadas, sobretudo se as cunhas fossem abolidas.

      1. Como é que poderia ser avaliado em “comunicação para a imprensa” se nunca tinha acontecido nem sequer se previa acontecer.
        O Director-Geral da Saúde anterior, o lacinhos George esteve na DGS em vários governos.

        1. Caro anónimo, então um subdirector-geral da administração pública não é suposto que saiba comunicar em público com eficácia? E não é fácil ver se os candidatos possuem ou não essa qualidade?
          Difícil é acabar com as cunhas, com o nepotismo. Essa é, a meu ver, a maior causa do nosso atrazo como país.

  9. Confesso que não percebo a surpresa. Isto, mais Pedrogão, mais Tancos, mais sucessivas bancarrotas é consequência natural do sistema social de incentivos e punições que a Escola Publica(não existe privada) e o Jornalismo criaram
    durante décadas.
    É simplesmente a engenharia dos socialismos para formar pessoas inaptas e assim dependentes da Política.
    Para uma imagem ainda pior a que o Estado chegou veja-se isto:
    “Médico que fez a autópsia alertou a PJ para homicídio de imigrante ucraniano
    Ministro diz que DIAP recebeu informação de que a morte se deveu a causas naturais, mas não é isso que está no processo”
    A ser verdade temos um ministro a mentir descaradamente, e o que fez a PJ entretanto?

    1. Não escolhi o título inocentemente. “O estado a que isto chegou” foi uma expressão usada por Salgueiro Maia quando se dirigiu aos seus homens ainda em Santarém para lhes explicar o que iam fazer.

  10. “Como se podem atrair e manter motivados quadros qualificados? “

    A resposta é óbvia, fazendo o mesmo que qualquer empresa ou organização.
    O dinheiro conta, naturalmente, mas não é tudo.
    Seria um exercício estatístico interessante saber quantas pessoas saíram do funcionalismo público para o privado (onde, dizem FP que conheço, a vida é bem melhor. Quando me ofereço para apresentar os cv deles nunca obtenho resposta).

  11. A Sábado descreve Rui Portugal desta forma:
    “Monárquico, católico religioso, homem de causas, conservador nos costumes, Rui Portugal é muitas vezes apontado como sendo ideologicamente próximo do CDS. E há até quem o descreva como “um tio”, para dar nota do meio social em que se move. Mas ao longo da sua carreira foi trabalhando de perto e sem atritos com pessoas que lhe estavam muito à esquerda.”

    1. A Sábado, sem querer, veio confirmar que, na administração pública, existem grupinhos, formados de acordo com a simpatia partidária de cada um. Mas não deviam existir esses grupinhos.
      Os funcionários públicos deveriam trabalhar sem olhar à cor política do colega; as altas esferas da administração pública, essas deveriam trabalhar respeitando as leis e, em questões políticas, seguir a orientação do governo eleito democraticamente. A cor política de cada um, assim como a religião, deveriam ser postas de lado.
      O dr. Portugal ter sido capaz de se relacionar cordialmente com colegas que perfilham ideologias ditas de esquerda, não deveria ser notícia – essa deveria ser a norma, mas infelizmente não é.

    2. Normal, em qualquer entrevista de emprego uma das questões colocadas é “está disposto a trabalhar e colaborar com pessoas à sua esquerda?”. O feng shui laboral é muito importante, distribuir os “colaboradores” pela esquerda e direita é levado bem a sério.

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