Esperava um local maior. Espera-se sempre um local maior ou, pelo menos, diferente. Da mesma forma que Praga é demasiado bela, demasiado ampla e, acima de tudo, demasiado luminosa para ser a cidade de Joseph K., do Golem e das cabeças de líderes protestantes espetadas em estacas durante anos na Ponte Carlos, a cripta da Igreja Ortodoxa de S. Cirilo e S. Metódio é muito mais acanhada do que a leitura dos relatos me deixara antever. No entanto, apesar das flores e das velas e de algumas fotografias, não é menos impressionante por isso. Pelo contrário: as dimensões reduzidas fazem com que imaginar os acontecimentos daquela manhã de 18 de Junho de 1942 deixe uma marca ainda mais forte.
Reinhard Heydrich é o Reichsprotektor de Praga, nomeado por Hitler para eliminar a resistência e germanizar os checos. Heydrich prova ser o homem certo. Ameaça, persegue, deporta e mata mas, num acto de inteligência, não apenas os opositores declarados do regime; também todos aqueles que no mercado negro, dos agricultores aos distribuidores, dificultam a vida ao codadão comum. Escrevi-o num post anterior: Heydrich fascina-me. O cérebro de Himmler, como alguns alemães diziam (Himmlers Hirn heisst Heydrich, ou O Cérebro de Himmler é Heydrich, ou HHhH, título do livro de Laurent Binet que devo aconselhar novamente). Um dos organizadores da Noite de Cristal. O principal mentor da Solução Final. Um monstro. Mas também um executante do violino e um apreciador das artes que considera incultos muitos colegas do topo da hierarquia do Reich. No exílio em Londres, o presidente checo, Edvard Beneš, decide tentar matá-lo. Será um sinal para o Terceiro Reich e para o mundo, por parte da primeira nação espezinhada durante a Segunda Guerra Mundial (na verdade, ainda antes, em 1938). A operação recebe o nome de «Antropóide». Após um período de treino na Escócia, dois pára-quedistas, um checo (Jan Kubiš), outro eslovaco (Josef Gabčik), são lançados sobre território checo. Com eles, seguem outros homens, encarregados de operações de recolha de informação. Kubiš e Gabčik passam meses em Praga, escondidos em casas de família, preparando o ataque com o apoio de elementos locais da resistência e dos outros infiltrados. Executam-no a 27 de Maio de 1942. São dez e meia da manhã e Heydrich desloca-se do castelo nos arredores onde se instalou com a família para a cidade. (Sim, os monstros têm família, a quem muitas vezes são dedicados – Heydrich gosta de brincar com os filhos; o que não têm é consciência de que são monstros ou não a suficiente para que ela se sobreponha ao prazer de utilizar o poder conseguido.) Numa curva da rua Holešovičkách (hoje completamente diferente), Kubiš e Gabčik atacam. Mas a metralhadora Sten de Gabčik encrava. É então que o motorista de Heydrich comete um erro (o outro, mais grave, da responsabilidade do próprio Heydrich – deixará Hitler extremamente irritado mas é sintomático de quão invulnerável ele se devia sentir ou de quão impotentes considerava os checos –, é não existir escolta) e, em vez de acelerar e desaparecer dali, trava, decidido a lutar. Kubiš usa uma bomba artesanal que, apesar de mal apontada, fere o Reichsprotektor. Os dois pára-quedistas fogem, sem saber se conseguiram. Conseguiram. Apesar dos esforços dos alemães, Heydrich morrerá a 4 de Junho, no hospital. Por essa altura, o inferno já se mudou para Praga.
E a propósito do inferno, antes de chegarmos aqui, à igreja e à cripta: quando é que um acto deste género é lícito e não terrorismo? Aceitamo-lo e glorificamo-lo por ocorrer durante uma guerra e ser cometido pelo lado justo (e neste caso é fácil; quase todos aceitamos o mesmo lado como sendo o justo) ou por Heydrich ser um monstro? Talvez mais importante: quando é que um acto destes vale a pena? Na sequência do atentado, os nazis mataram, torturaram e deportaram centenas de pessoas. Seguindo uma suspeita infundada, arrasaram a aldeia de Lidice, a noroeste de Praga (173 homens entre os quinze e os oitenta e quatro anos foram fuzilados de imediato, 26 foram mortos mais tarde em Praga, 88 crianças foram gaseadas em Chelmno, na Polónia, e 53 mulheres morreram em vários campos de concentração). Todos as pessoas envolvidas na preparação do atentado, ainda que de forma circunstancial, foram mortas (incluindo, evidentemente, os clérigos da igreja de São Cirilo e São Metódio e as familias que esconderam os pára-quedistas). No outro prato da balança, o atentado abanou de facto a confiança do Terceiro Reich, mostrou que a ocupação da República Checa estava longe de ser pacífica e, mais importante, o massacre de Lidice provocou reacções de horror a nível internacional, expondo o regime nazi como de facto era: brutal. Ainda assim: valeu a pena?
Seja a resposta qual for (e creio que, para uma tal questão, só pode haver respostas individuais), Kubiš e Gabčik merecem a nossa homenagem. O acto custou-lhes a vida mas os nazis quase falharam nos esforços para os encontrarem. Com outros cinco elementos infiltrados (Josef Valčik, Jan Hruby, Jaroslav Švarc, Josef Bublík e Adolf Opálka; falta um e isso revelar-se-á crucial), Kubiš e Gabčik estão escondidos na igreja de São Cirilo e São Metódio, no número nove da rua Resslova. Hoje, é uma rua larga, movimentada, com semáforos e passadeiras para peões, que vai dar ao rio e ao famoso edifício de vidro, metal e betão conhecido por Casa Dançante ou Ginger e Fred. Na época, teria a mesma largura mas desconheço se existiam semáforos; quanto a Ginger e Fred, só existiam os verdadeiros, fazendo filmes em que acontecimentos deste género não têm lugar. Os nazis revistam casas mas, estranhamente, não igrejas. Prometem uma recompensa a quem der informações que permitam a captura dos homens que mataram Heydrich e garantem uma bala a quem, tendo-as, não as forneça. Passam-se dias e ninguém avança. Os nazis percebem que o medo das consequências assusta os possíveis denunciantes e, a 13 de Junho, jogam uma última cartada: apesar do tempo que decorreu, quem avançar terá o dinheiro e total imunidade. Mas a oferta só dura cinco dias. Trata-se de um acto de desespero que pode correr mal: se nos cinco dias não acontecer uma denúncia, certamente já não acontecerá. É então que o elemento em falta (chama-se Karel Čurda e será julgado e executado depois da guerra) entra na sede da Gestapo e, em troca de vinte milhões de coroas, denuncia Kubiš e Gabčik. Ele não sabe o sítio exacto onde eles se encontram mas conhece muitos contactos, incluindo pessoas que os acolheram. É o suficiente. A prisão e a tortura fazem o resto. Às duas da manhã de 18 de Junho, a igreja é cercada por oitocentos soldados. Às quatro e um quarto, o assalto começa.
É esta cripta. Acanhada, escura, fria, bruta. Mas não morrem aqui os sete. Kubiš, Bublík e Opálka morrem lá em cima, na nave, depois de resistirem a partir da galeria até às sete da manhã. Só depois os nazis se apercebem da existência dos restantes. Gabčik, Valčik, Hruby e Švarc aguentam cinco horas, aqui em baixo. Os nazis não conseguem descer (os soldados que, cumprindo ordens, procuram fazê-lo são recebidos com tiros nas pernas) e revelam-se estranhamente ineficazes na resolução do problema. Resolvem inundar a cripta através da seteira que dá para a rua e, ao mesmo tempo, lançar granadas lacrimogénias cá para dentro. Mas os métodos têm efeitos contraproducentes (a água no chão diminui o efeito das granadas permitindo que seja possível atirá-las de volta para a rua) e os sitiados conseguem, com uma escada de mão, ir empurrando a mangueira da água. Entretanto, vão escavando na parede, tentando atingir uma qualquer conduta subterrânea que passe sob a rua Resslova (a seteira, ou respiradouro, ou o que lhe quiserem chamar, está aqui, a uns dois metros e meio de altura, e o buraco na parede também, quase por baixo, desviado para a direita). Finalmente, por volta do meio dia, tudo acaba: na nave da igreja, os nazis rebentam uma laje e abrem outro acesso à cripta. Gabčik, Valčik, Hruby e Švarc percebem que o jogo acabou e suicidam-se.
É sábado, 2 de Junho, e apercebo-me de repente que foi há setenta anos. Há setenta anos, Heydrich estava a morrer no hospital e homens condenados ocupavam esta cripta. Sinto-me indisposto, aqui dentro, como turista, máquina fotográfica na mão. Mas provavelmente é a única reacção adequada.
(Os retratos são de Kubiš e Gabčik, tal como aparecem nos painéis informativos existentes na igreja. As fotos da cripta são actuais, tiradas por mim. Os dados foram recolhidos do folheto oficial, comprado no local, do livro HHhH, de Laurent Binet, e da internet.)





Boa história.
Respondendo à pergunta posta: o ato em questão não é terrorismo, uma vez que não se destina à população civil anónima e não pretende, portanto, lançar o terror ente os inocentes. Um ataque que não se destina a lançar o terror não deve ser apodado de terrorismo. Tratou-se de um homicídio com motivos políticos, o que não tem nada a ver com terrorismo.
Luís: OK, é a forma tradicional de fazer a distinção – e, formalmente, não é má. Ainda assim, desconfio que para muita gente, a nível instintivo, as coisas não funcionarão bem assim. Por exemplo, um americano talvez não deixe de encarar um atentado contra uma patrulha do seu exército no Afeganistão como um acto terrorista. E, no limite, uma embaixada (ou o Pentágono, atingido no 11 de Setembro), ao representar o Estado, poderia ser vista como alvo legítimo de um acto de guerrilha (e não terrorismo). Mas enfim, como escrevi acima, aceito que é a forma mais correcta de fazer a distinção.
Para sabermos se o assassinato de Heydrich valeu a pena, se foi bom ou mau, é preciso sabermos quantas pessoas mais (ou menos) teriam sofrido e morrido se Heydrich tivesse continuado no poder em Praga, em vez do seu sucessor. É uma questão deveras insolúvel.
Sabemos quantas pessoas morreram na vingança do assassinato de Heydrich, mas não sabemos quais teriam sido os custos humanos de Heydrich prosseguir o seu trabalho.
Aqui já não concordo tanto. Ou melhor: não creio que seja assim tão simples. Por um lado, Heydrich foi, obviamente, substituído e as mortes continuaram. Por outro, um regime totalitário e ocupante como o nazi vive do medo que inspira. Se os ocupados começam apenas a pensar em termos de represálias, ficam manietados e já perderam. Para mim, é este o principal ponto que justifica manter a luta, independentemente das eventuais consequências negativas. Mas, claro, falar é fácil. No caso do atentado contra Heydrich, sabe-se que Kubis e Gabcik souberam do massacre de Lidice e ficaram de rastos, sentindo-se responsáveis por todas aquelas mortes.
Boa lição da História (muito) recente. 012/06/02/o-fim-do-euro-ou-o-iv-reich/ 012/06/05/lacaios-secretarios-de-estado-d o-novo-imperio-alemao-encontram-se-com-r asputin-do-novo-imperio-russo/
É sábado, 2 de Junho, e apercebo-me de repente que foi há setenta anos.
Em setenta anos quanto poderão ter mudado as intenções dos poderosos nesta desgraçada Europa? Aqueles que foram capazes de cometer essas atrocidades em nome de uma ideologia, não serão capazes de voltar a cometê-las em nome de uma outra?
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http://umjardimnodeserto.wordpress.com/2
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http://umjardimnodeserto.wordpress.com/2
zedeportugal: acho perfeitamente legítimo que não se goste da posição actual da Alemanha; mas parece-me bastante exagerado – e até contraproducente – comparar reticências quanto à política monetária da UE com o nazismo.
Acha? Então pense, por favor, e enumere quais são as causas de todos os conflitos armados. Deve constar lá o dinheiro, certamente. E o poder, ou melhor, o domínio, seguramente. E o território com os seus recursos. Qual acha que é o móbil dos alemães? A paz, a harmonia e a igualdade entre os povos europeus? Ora, ora… com que então contraproducente! o-dinheiro-lucius-annaeus-seneca)
Olhe, dê uma espreitadela ao post mesmo abaixo do seu; veja do que fala e do move os homens ao mal, ao desespero, à destruição dos seus irmãos (figurativa e literalmente) mesmo à custa da sua própria.
O dinheiro suscita a maior parte das vociferações que ouvimos: é o dinheiro que fatiga os tribunais, é ele que coloca pais e filhos em desavença, é ele que derrama venenos, é ele que põe a espada nas mãos dos assassinos e das legiões; ele está manchado de sangue nosso; é por causa dele que as discussões de marido e mulher ressoam na noite, é por causa dele que a turba aflui aos tribunais; por causa dele, os reis massacram, saqueiam e arrasam cidades que demoraram séculos a construir, para procurarem ouro e prata entre as cinzas. …
Séneca, in ‘Da Ira’
(http://www.citador.pt/textos/a-loucura-d
Excelente texto, Jaa. Uma história terrível, e deve ter havido tantas destas durante esses anos de inferno…
Não tenho – acho que nunca terei – resposta para a tua inquietante pergunta. Penso sempre que é muito cómodo ter havido alguém que fizesse “o que tinha de ser feito” para que outros, mais tarde e já beneficiários desses actos (a quem as consciências foram poupadas), pudessem criticá-los, condená-los ou louvá-los no conforto dos seus sofás. Julgar é fácil.
Mais interessante ainda é a outra questão que pões: o eterno mistério que é o ser humano. Não, não é incompatível a monstruosidade com o amor à família, nem a insensibilidade à dor alheia com o amor às artes. A História está sempre a provar-nos isso. Somos assim mesmo, caixas de Pandora ambulantes ao sabor das circunstâncias.
Obrigado, Ana. Claro que sim, que houve muitas outras – infelizmente. Como respondi ao Luís Lavoura, o ponto que me faz acreditar que vale a pena lutar apesar das possíveis consequências é a sensação de que não o fazer é aceitar a chantagem dos regimes totalitários – e permitir-lhes a vitória. Mas falar é fácil, de facto. Quanto ao ser humano, ei, eu nunca fui Rousseauniano e tu é que és a optimista… 😉
Percebo o que dizes. Aconteça o que acontecer, ficar imóvel é ainda mais insuportável.
O meu optimismo tem limites, Jaa, e não vai ao ponto de achar que somos bonzinhos por natureza… ou melhor, o que acho é que somos bons E maus simultaneamente, e que a personalidade que nos vai aparecendo ao serviço depende muito das circunstâncias. 🙂
Texto muito bom, jaa.
Obrigado, Ivone.
Muito instrutivo.
“Prognósticos” depois dos factos são “diagnósticos” sempre dados à retórica do exercício especulativo…
Cada um não pode ter maior pretensão do que agir segundo a sua previsão e bom senso, de acordo com o que conhece na altura.
Servir apenas de gatilho da arma, sem procurar perceber qual é o alvo… isso é que é mau, porque o indivíduo abdica do seu julgamento para confiar na decisão doutrém.
Ou seja, os checos teriam que perceber que a sua acção pontual iria desencadear um reacção sobre a população, e tudo só faria sentido se o acto fosse necessário num quadro de uma estratégia global.
da Maia: as represálias são quase inevitáveis porque este tipo de regimes vive delas – mantém a “paz” fazendo as pessoas ter medo das consequências de actos de contestação. Neste caso, Heydrich devia sentir-se tão seguro de que os checos não se atreveriam a nada, por medo das consequências, que nem viajava com escolta. Mas, como já respondi acima, ficar quieto é perder. Quanto ao resto, estamos de acordo que analisar depois é totalmente diferente de ter que decidir no momento. E obrigado pelo elogio.
Não há terrorismo algum. O alvo era um comandante inimigo.
http://forum.axishistory.com/viewtopic.p hp?f=38&t=26208&start=135
http://forum.axishistory.com/viewtopic.p hp?f=46&t=179832
E um texto:
“
…This is a very interesting subject and the same reasoning could apply to the Communist takeover in Feb 1948. Some say the democratic forces should have resisted and Benes also should not have accepted the imposed Communist rule. Others say that any resistance would be of no avail. The same applies also to isolated but powerful exemples of Resistance against totalitarian régimes, like the heroic act of Jan Palach. It could seem that his death was useless. Who would care for an isolated guy that puts fire on himself, might have thought the Communists. However, you that live in CZ know how along the years the Jan Palach Week was the seed to the November 1989 events that some call the Velvet Revolution. The same with the Heydrich’s assassination. Some would say it was useless. I say this heroic act really helped the Czechs to regain psichological self-respect and overcome the damage caused by the Munich Pact. I am not talking about purely military advantages, but of Czech national conscience. And when an heroic act restores Czech nation dignity – even without any military gains and resulting in so many deaths – then the right thing was done. There is no price that could pay restoration of dignity. No gold in the world, no military victories can surpass the benefits of restoring a nation’s dignity. Because a nation who lost its dignity, will disappear along the years. Both you and me agree that the Czechs were proud about the assassination. Then, if the Czechs felt proud of their heroic feat then the price for restoring the people’s dignity was not disproportional.”
http://forum.axishistory.com/viewtopic.p hp?f=74&t=138439
lucklucky: por favor, leia a minha resposta aos dois comentários do Luís Lavoura (logo os primeiros). E obrigado pelo texto.
Um exercício de memória que honra as figuras heróicas da Segunda Grande Guerra. Aprecio histórias de coragem. A coragem é a virtude que mais me agrada porque julgo não ser, particularmente, audaz. Deste modo, a perseverança do bem contra o mal sempre fascinou-me. É uma luta constante, que tanto deflagra dentro de nós como pode ser ateada no contacto com os outros. É uma luta interna e externa que define o nosso carácter. As questões do bem e do mal exigem permanente vigília, como se estivéssemos sempre à prova. Quantas vezes, somos confrontadas com a ignomínia, e achamos que devemos intervir e não o fazemos? Quantas vezes, um simples gesto nosso poderia prevenir filistrias que prejudicam pessoas que nos são próximas? Quando questionas se valeu a pena este acto de justiça do povo checo perante um facínora, a minha resposta é um indubitável sim. Os nazis destilaram o mal que subsiste dentro de nós, até obterem um resultado compacto de uma pureza vil. Os justos não poderiam ficar quietos, mudos e paralisados perante essa gente, e mesmo que isto viesse a custar milhões de vidas, estas perdas não foram em vão.
Não é possível fazer uma análise contabilística de um acto de justiça desta natureza. É simplesmente impossível porque para vencer o mal absoluto temos que nos socorrer de males menores ou relativos. O mal corrompe os justos de uma forma indelével, obriga-os a fazer coisa impensáveis. Um assassinato é sempre uma iniquidade, mas não se pode fazer um juízo moral lúcido e clarividente se estamos a falar do assassinato de um ser infinitamente cruel e insensível, um bruto que só trouxe miséria e sofrimento à vida de muitos inocentes. Quando dizes que o monstro tocava violino e apreciava as artes, era um bom pai de família, vêm-me à memória Arthur Koestler, infelizmente muito esquecido, e o seu livro o Fantasma da Máquina. Koestler, à luz dos conhecimentos da época, diz que o nosso cérebro está dividido em três partes, sugerindo que o Córtex Frontal, a área do pensamento elaborado, poderá facilmente tornar-se refém dos instintos primários, ficar sujeita a perturbações reptilianas, dadas determinadas condições. Numa sociedade sem princípios e sem valores até o mais plácido cidadão pode se tornar num criminoso. Os totalitarismos atomizaram as sociedades para que os laços, os elos, as empatias se desvanecessem e assim os homens ficassem permeáveis à manipulação através do ódio racial, xenófobo, abjecto, dando lugar ao réptil que ainda vive nas profundezas do nosso cérebro. Dizem que a história se repete, sabemos que as sociedades contemporâneas assentam em equilíbrios frágeis, o que pode ressuscitar aberrações totalitárias, mas a evocação da coragem, patente no teu texto, é uma forma eficaz de ganharmos alento para que estes retornos às trevas sejam mais difíceis.
Bruno: obrigado pelo comentário. Excelente, de resto.
“Numa curva da rua Holešovičkách (hoje completamente diferente).
Há algo nessa rua que se mantêm inalterável, unica testemunha desse tempo.
O Hospital.
O carniceiro, agoniou ali alguns dias, até morrer.
Certo, o hospital continua nas imediações.
Excelente texto, JAA. Um dos melhores publicados desde sempre aqui no DELITO.
Obrigado, Pedro. Tinha que tentar fazer jus ao teu comentário sobre Praga me inspirar.
Excelente texto.
Muitos parabéns.
Muitíssimo obrigado, José.
Visitar lugares que nos confrontam com o pior da natureza humana é sempre tão perturbador. Adorei o teu texto, Jaa.