Uma chave para decifrar o mundo


Pedro Correia,

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Ouço com alguma frequência opiniões negativas sobre o ensino das religiões – e da religião cristã em particular. São opiniões que fazem tábua rasa de dois mil anos de história da Humanidade e que, se fossem levadas à letra, conduziriam ao desconhecimento generalizado de uma das nossas bases civilizacionais. A história da pintura, da escultura, da arquitectura e de parte significativa da música ocidental torna-se incompreensível a quem ignora os fundamentos do cristianismo e as inúmeras personagens dos livros da Bíblia. Isto nada tem a ver com crença – tem a ver com cultura, no sentido mais lato, profundo e nobre do termo.

A ignorância das religiões – em nome do princípio da laicidade levado ao extremo – conduz até à incompreensão e à irrelevância de boa parte dos maiores autores ateus, agnósticos e anticristãos, de Voltaire a Nietzsche. Leio, de momento, uma das obras mais emblemáticas de Karl Marx: está cheia de alusões bíblicas, provavelmente ininteligíveis para todos os apóstolos da “indiferença”, que fogem da religião como o diabo da cruz em vez de procurarem entender a importância da religiosidade e da espiritualidade como parte integrante da condição humana, da criação artística e do pensamento filosófico através de todas as épocas – incluindo a nossa.

O Moisés, de Miguel Ângelo, a Última Ceia, de Leonardo, a Paixão Segundo São Mateus, de Bach, a catedral de Chartres ou a de Brasília (criada pelo ateu Óscar Niemeyer), para serem devidamente apreciadas enquanto veículos de fruição artística e emanações do melhor da nossa cultura, necessitam de referências que só o conhecimento das religiões (neste caso a religião cristã) nos proporciona. Isto vale também para a Mesquita Azul de Istambul, o Buda Reclinado de Banguecoque, Machu Picchu ou Angkor Wat.

Ao criticarem o estudo das religiões, os arautos desta tese estão no fundo a fazer a apologia da ignorância. Assumi-la em nome da “laicidade” é ainda mais grave. Por constituir uma perversão da genuína laicidade – a que vem expressa, pela voz de Cristo, nos Evangelhos: «Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.»

É uma frase muito antiga – e tão “moderna” como se tivesse sido impressa no jornal desta manhã. Conhecê-la – e saber por que foi proferida e os efeitos devastadores que causou numa concepção teocrática do poder político – ultrapassa em muito o reduto da fé: é um acto de cultura. Da mesma forma que alguém sem o menor conhecimento bíblico é incapaz de interpretar esta extraordinária frase, contida num dos romances de Graham Greene: «Prefiro ter sangue nas mãos do que água como Pilatos.»

Religião também é isto: uma chave para decifrar o mundo, uma pista para descobrirmos novos mundos. Às vezes longínquos, outras vezes situados bem próximo de nós.

 

Imagens: Voltaire e Nietzsche

60 comentários em “Uma chave para decifrar o mundo”

  1. A EUROPA IDENTITÁRIA… versus… A EUROPA DO CIDADANISMO DE ROMA
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    As décadas XX-XXI são décadas de uma importante clarificação histórica:
    – O CIDADANISMO DE ROMA É UM FACTO INCONTORNÁVEL NA EUROPA!
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    O cidadão de Roma gosta de projectar uma economia partido do pressuposto da existência de outros como fornecedores de abundância de mão-de-obra servil.
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    Esquerda do sistema XX-XXI =
    = Direita do sistema XX-XXI:
    -> ‘é tudo farinha do mesmo saco’: boys e girls do cidadanismo de Roma.
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    Políticos do tipo D. Trump colocam o cidadão de Roma XX-XXI em pânico: ‘sem os trabalhadores imigrantes morremos à fome’ (“sem os trabalhadores imigrantes as prateleiras dos supermercados ficam vazias”).
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    O cidadão de Roma XX-XXI possui um discurso de ódio exactamente igual ao cidadão de Roma do passado:
    – ódio às intenções Identitárias.
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    O SEPARATISMO IDENTITÁRIO É ABSOLUTAMENTE NATURAL NA EUROPA!
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    –»» Por um lado, temos o EUROPEU CIDADÃO DE ROMA: este europeu projecta uma economia partindo do pressuposto da existência de outros… como fornecedores de abundância de mão-de-obra servil.
    –»» Por outro lado, temos o EUROPEU IDENTITÁRIO: este europeu valoriza o Ideal de Liberdade que esteve na origem da nacionalidade: ‘ter o seu espaço, prosperar ao seu ritmo’.
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    Valorizas a liberdade identitária… então:
    -> reivindica liberdade/distância/separatismo do cidadão de Roma!
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    O que há a dizer aos globalization-lovers ( EU lovers, etc) é simples e óbvio:
    – possuem imensos, imensos, territórios ao seu jeito!…
    – não sejam nazis!!!
    – ou seja: aceitem a existência de outros!!!
    Isto é: os ‘globalization-lovers’, UE-lovers, etc, que fiquem na sua… desde que respeitem os Direitos dos outros… e vice-versa.
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    SEPARATISMO-50-50
    (separatismo identitário)
    —» Todos Diferentes, Todos Iguais… isto é: todas as Identidades Autóctones devem possuir o Direito de ter o SEU espaço no planeta -» INCLUSIVE as de rendimento demográfico mais baixo, INCLUSIVE as economicamente menos rentáveis.
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    -» blog http://separatismo–50–50.blogspot.com/
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    P.S.
    A MIGRAÇÃO INVERSA DO CIDADÃO DE ROMA.
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    O separatismo identitário vai originar a promoção/valorização social do europeu com disponibilidade para trabalhar como mão-de-obra servil… e vai originar a promoção/valorização social do europeu com disponibilidade para criar/educar crianças.
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    Consequência:
    – muito, muito, europeu (cidadão de Roma) vai migrar para sociedades aonde a disponibilidade para trabalhar como mão-de-obra servil (e a disponibilidade para criar/educar crianças) não sejam tão valorizadas socialmente.

  2. El mundo occidental experimenta una crisis como civilización que ha llevado a buscar nuevos paradigmas que planteen alternativas de sanación y restitución de las relaciones del ser humano con la naturaleza y con su entorno. Esta crisis civilizatoria, se manifiesta en el deterioro ambiental, la pobreza relacional, así como en los malestares corporales y existenciales de los individuos(1) . Esto trae como consecuencia la ruptura de paradigmas epistemológicos que hasta hace relativamente poco se consideraban incuestionables.
    http://www.scielo.org.co/pdf/reus/v21n3/2389-7066-reus-21-03-240.pdf

  3. Tem toda a razão. Aliás, deparei-me com essa questão na educação das crianças. Como estava indecisa na forma como abordar a religião acabei por deixar andar. Numa visita com a criançada a uma exposição temporária no museu da arte antiga, vimos um quadro que representava Moisés na cesta e elas não conseguiram identificar. Pior, não sabiam quem era Moisés. Foi muito bizarro para nós, e um ponto de viragem no que diz respeito às conversas sobre a religião.

    1. Eu fiz como a Susana, deixei andar. Os meus filhos já são jovens e, suspeito, sabem pouco ou nada sobre essas coisas.
      Eu teria muita relutância em estar a instruí-los – e, dessa forma, a ocupar-lhes espaço neuronal – com essas fantochadas todas.

      1. Balio, eu achei assustador que as minhas crianças (que na altura estavam ainda no ensino básico) não soubessem o mínimo dos mínimos sobre religião. Há muitas histórias tanto do antigo como do novo testamento que vale a pena conhecer e reflectir. E sem esse conhecimento os fundamentos da nossa cultura assim como inúmeras obras de arte são ininteligíveis, como tão bem explicou o Pedro C.

        1. Susana V, a minha mulher ensina um bocadinho dessas coisas ao nosso filho mais velho, que se interessa minimamente por elas. O filho mais novo, porém, não se interessa nada e não aprende nada. Eu nada ensino, porque sentir-me-ia muito constrangido a ensinar histórias da carochinha aos meus filhos.
          Penso que não é muito necessário conhecer religião para apreciar as boas obras da nossa cultura – elas falam por si. Tal como não é necessário conhecer a religião dos construtores de Angkor Wat ou de Machu Picchu. A Pietà de Miguel Ângelo é sempre bonita, quer represente Maria e Jesus quer se trate de outra mulher e outro homem quaisquer.
          (Eu gostaria, porém, que mais pessoas na Europa conhecessem alguns rudimentos sobre a religião islâmica, para não passarem a vida a dizer disparates ordinários sobre ela.)

      2. balio, tenha tento na língua! Desaconselhar o seu estudo e chamar fantochadas às religiões, é demais.
        Está a pensar que os seus filhos não sabem nada da matéria, mas pode estar enganado: conheço gente jovem que, mesmo contra a vontade dos pais, se aproximou de uma religião. Previna-se porque pode acontecer o mesmo consigo.

        1. (1) Eu não desaconselho o estudo das religiões a ninguém. Eu próprio já estudei um bom bocado sobre o judaismo, o islamismo e o budismo. Já li mais que um livro sobre cada um deles (de autores dessas religiões).
          (2) Os meus filhos são perfeitamente livres de se aproximarem de qualquer religião. (Um deles até se tornou vegetariano sem ser por minha influência.) Eu, como liberal que sou, respeito totalmente as opções religiosas dos outros.

    1. É sempre útil conhecer. Neste caso conhecer a religião, todas as religiões, a sua ligação aos homens e à História, e a sua profunda influência em todos os aspectos da arte antiga ou contemporânea, o modo como inspiraram e motivaram (ou não) os direitos humanos e a filosofia do Direito.
      Como saliento no texto, o próprio ateísmo é incompreensível sem o conhecimento das religiões.

  4. a genuína laicidade […] vem expressa, pela voz de Cristo, nos Evangelhos: «Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.»

    Essa é somente uma das interpretações possíveis dessa frase.

    Na verdade, Jesus, ao proferir essa frase, estaria talvez a querer dizer uma coisa totalmente diferente: que a Judeia é a terra de Deus, que este concedeu ao seu Povo, e que portanto César, o imperador romano, não tinha nada que estar a ocupá-la. Ou seja, César que mande naquilo que é dele, que a Judeia é dos judeus, o povo de Deus.

      1. O comentador Balio tem muitas vezes o saudável efeito de me fazer recordar episódios antigos. Tenho um filho que naturalmente é hoje advogado e que uma vez em miudo, me fez encostar o carro à berma, voltar-me para o banco de trás e perguntar:
        – Francisco, sabes que nada te obriga a dar a tua opinião sobre todos os assuntos?

        1. Não é, neste caso, a minha opinião. É uma interpretação das palavras de Jesus feita pelo estudioso de religiões Reza Aslan no seu livro “ZEALOT: The Life and Times of Jesus of Nazareth”.

    1. O problema da interpretação desta frase é que o Judeus queriam a liberdade relativamente ao poder do Império Romano, mas também queriam ter os benefícios de uma pertença que lhes garantia uma moeda forte (com a efígie de César) e uma internacionalidade que não teriam, isolados como pequeno país que eram. Tal como hoje muitos portugueses relativamente à União Europeia ou muita gente também relativamente à “globalização”. O problema é velho como se pode ver e o povo resume-o nisto: “querer sol na eira e chuva no nabal”…

    2. Esta faz lembrar a do outro: nunca tinha oubisto.
      Como é que ao longo dos séculos nunca se tinham lembrado dessa.
      Também há uma versão de: é mais fácil uma camelo passar pelo fundo duma agulha que um rico entrar no reino dos céus. A versão, e há milhares de bíblias alteradas, passou para pecador substituindo rico.

  5. Penso que o problema não está no ensino da religião, o problema está na difusão da fé.
    Não estou a ver um ortodoxo ensinar religião da mesma forma que um cristão, assim como também não estou a ver um idealista ensinar religião da mesma forma que um materialista.
    A religião é uma matéria que tem de ser sempre integrada numa disciplina de história.
    A história da pintura tem religião.
    A história da música tem religião.
    A história das artes tem religião.
    A religião como uma disciplina isolada muito dificilmente será dada de forma isenta e esclarecedora.

    1. Religião é um tema autónomo, não integrável ou diluível em disciplinas como história, sociologia ou filosofia.
      O problema é a ignorância. Sempre e só. Quanto maior for a ignorância, maior é o problema.

      1. Talvez então seja melhor definir o que se entende por religião. Porque para um pintor africano o impacto da religião na sua pintura não foi, nem é, o mesmo que para um pintor europeu.
        Ou somos materialistas ou somos idealistas, ao admitir a religião como tema autónomo estaremos a desvirtuar a história do materialismo e a ignorar os seus fundamentos, que não têm nada a ver com religião.

        1. As peças/esculturas africanas antigas todas têm um significado religioso à maneira africana.
          Todas as formas de arte, desde uns confins da pré-história, tem um cunho religioso.
          No Alentejo temos pequenas capelas que aproveitaram as antas existentes para as converter em capelas católicas, não se sabendo se ao longo dos tempos tiveram outra utilização religiosa que a primitiva.

          1. Qualquer manifestação de arte pode ser abordada em três fases.
            Pré- iconográfica; onde são estudadas as formas básicas, composição, cor, tom, traço, etc.
            Iconográfica; onde são estudados os símbolos.
            Iconologia; onde é abordado o seu contexto social.
            Reduzir isto tudo a uma origem religiosa, não será a forma mais correcta de interpretar a arte.

  6. Uma coisa é ensinar como é a religião, outra é doutrinar.
    Podem-se aprender quais os fundamentos e os preceitos de várias religiões mas não se pode ser simultaneamente cristão, muçulmano, budista, taoista, animista e mais umas coisas.
    Penso que as pessoas que se opõe-se ao ensino da religião referem-se a aulas de doutrina. Transformar a escola numa catequese ou numa madrassa não me parece uma boa coisa. E decerrto que não se converteu para visitar a mesquita azul ou o buda reclinado.
    O ensino da história nas escolas está cada vez mais superficial, como todo o ensino e as religiões estão ausentes, mas estão longe de ser a única coisa. As últimas orientações para a história de Portugal pura e simplesmente omitem o domínio muçulmano na Península, apagam 500 a 700 anos de história, e tornam-na muito confusa. Não se consegue explicar a formação de Portugal sem falar de religião e da dicotomia muçulmanos/cristãos.

    1. Absolutamente.
      Uma coisa é ensinar a ser religioso, outra coisa é ensinar as religiões.
      Nos Países Baixos, fora das cidades, há o hábito, mesmo entre os católicos do sul, não usar estores ou cortinas nas janelas das casas. É uma hábito calvinista de mostrar a modéstia dos seus pertences, ainda que, agora, os habitantes não sejam religiosos e com muita coisa para mostrar.

  7. Caro Pedro. Obrigado pelo belo texto, como aliás é habitual. A maior parte dos comentários que está a motivar são a prova mais que evidente da verdade e pertinência daquilo que escreve. Entre muitos aspectos da minha actividade, esta dimensão cultural da religião e religiosa da cultura, tem sido sempre uma das componentes mais presentes. E muita gente, quando diz que não tem religião acaba por inventar uma, sua, mas sempre puco original. Os grandes ateus sabiam, de religião “a potes”… mesmo das religiões verdadeiras, mas entendiam-nas de outra forma. Marx, judeu, é um belo exemplo disso. Cita Óscar Niemeyer; seria um ateu que deve ter consultado bons teólogos para pensar daquela forma a catedral de Brasília. Por sinal, faria hoje anos…

    1. Bem diferentes na época e até chacinados, os cátaros eram os arquitectos das grandes e espectaculares catedrais góticas.

  8. O medo e a ignorância criaram os deuses. Perversamente algumas religiões impuseram-se através do medo e da ignorância.
    Filipe Santos

  9. opiniões negativas sobre o ensino das religiões

    Tudo depende de onde esse ensino seja feito.

    Se fôr na escola (pública), estou contra: dificilmente as escolas poderão encontrar professores que ensinem religiões de forma equilibrada e não doutrinal. Ademais, as crianças já estão tempo de mais a aprender coisas de mais.

    Se fôr na catequese ou na escola privada, abstenho-me: cada um que escolha a escola que quiser para os filhos.

    As religiões são coisas que, preferencialmente, cada família deve ensinar aos seus filhos, se o quiser, e ninguém tem nada a ver com isso. Eu aos meus filhos nada ensinei sobre o tema (constrange-me estar a contar-lhes histórias em que eu mesmo não acredito), mas acho bem que quem o quiser fazer aos seus o faça.

  10. São necessárias breves considerações.
    Jesus, o Cristo por antonomásia, não fundou uma religião. Mas inaugurou uma agência de notícias: “IDE e anunciai a BOA-NOVA. Curai os enfermos, dai vista aos cegos imponde vossas mãos…”. Esta agência de notícias sedimentou-se em seu sangue derramado e na sua elevação na Cruz. O SANGUE significa a preservação do Homem aos mesmos efeitos tal como o sal preserva a carne de sua deterioração. Portanto, é necessário que “o sal salgue, de contrário será espezinhado aos pés dos homens e mulheres”; a CRUZ significa a elevação do Homem em suas próprias quedas, pois foi na Cruz que se venceu a morte. Se o Homem não for erguido de sua queda, pelo peso da “cruz” que carrega jamais se obterá sua ressurreição. É nesta cruz que o homem carrega, unida à Cruz de Cristo, a morte morre na Cruz do crucificado para se ressuscitar no Ressuscitado.

    A FÉ não é uma mera afirmação de crença nem o cumprimento de um qualquer preceito religioso. Ela desenrola-se, cresce e amadurece precisamente pelo veículo usado por Jesus (cada Homem de Boa-Vontade), isto é, sua agência de notícias, na divulgação da Palavra e por palavras e obras.
    Significa isto que quando a Palavra se faz Carne inaugura-se o período da proximidade do Reino dos Céus que habitou e ainda habita entre o Homem. A FÉ é a LUZ que permite atravessar “os vales escuros”, reconhecer a fonte da Vida e iluminar a Razão. Assim, permite ver na “noite escura” e orientar para a saída da caverna.

    Esta Palavra deve conduzir à interpretação do sentido do que é designado pelo “pecado original”, que mais não é que a queda e quebra do Homem na sua ligação e intimidade com a fonte que o vivifica.
    São Bernardo de Claraval oferece uma belíssima meditação sobre esta reconciliação: Diz-nos ele que quando Adão pecou houve um diálogo no céu. Os atributos de Deus, a Justiça e a Misericórdia, digladiaram-se: A Justiça dizia que “se Adão não for punido, eu estou perdida.” . E a Misericórdia afirmava: “eu é que estou perdida se Adão não for perdoado.” Como resolver esta contenda?, perguntou-se o santo. Sendo necessário que a expiação da falta fosse feita por um inocente e não existindo inocência na terra, como resolver?
    Nisto ouviu-se uma terceira Voz (da trindade): “Pai, envia-me”, era o filho que respondia à contenda, tal como o agricultor sugere ao seu patrão para que lhe dê mais tempo, para cuidar da árvore que está murcha e não frutifica, antes de a arrancar pela raíz.
    E o Pai responde: “Filho, eles não te reconhecerão. Eles crucificar-te-ão no madeiro infame. Farão contra ti todo o tipo de mal”.
    E o filho lança a sua decisão: “Pai, não importa: envia-me, para que lhes ofereça o que é meu que também é teu.”. E assim o Caminho a Verdade e a Vida veio dizer-nos o que Ghandi intuiu: “não existe um caminho do homem para a felicidade. A Felicidade é o Caminho”. Mas não sem cruz e sem tentação. Ño mito da criação não foi o pecado que entrou, mas a tentação, que ainda permanece, e a cedência a esta. Aqui a está a corrupção de todos nós. Todos podemos ser curados de nossas enfermidades. Porém ninguém pense que da tentação se livrará. A oração ao Pai-Nosso revela-nos que devemos pedir a força para vencer a tentação e não cair no mal. É esta a nossa cruz que em união à Cruz poderá vencer a morte já vencida.

    Feliz Natal, nasceu o redentor do Mundo.

  11. Concordo com o post, um bom exemplo do que refere foi o episódio recente com a passagem de uma epístola de São Paulo, provocou um rol de criticas que, maioritariamente, demonstraram apenas ignorância.

    1. um rol de criticas que, maioritariamente, demonstraram apenas ignorância

      Ignorância de quê?

      As pessoas limitaram-se a ler o texto da epístola e a avaliar (negativamente) o que era preconizado, de forma deveras explícita, nesse texto.
      O texto não tinha muito que interpretar, ele era bastante claro. Não tinha nada que enganar. O apóstolo fez uma recomendação clara e precisa. As pessoas ou concordam ou discordam. Nada tem a ver com saber ou ignorância. Aliás, mal estaríamos se as recomendações dos apóstolos dependessem do saber de quem as ouve e lê.

    2. ” Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma…”
      [Deuterónimo, 5:8]
      Se a religião tivesse sido levada à letra não haveria escultura nem pintura com temas religiosos.

      1. Engana-se, Carlos Sousa. O correcto é: ” ‘Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra ou nas águas debaixo da terra.”
        A afirmação está para contrariar a idolatria e não a criatividade humana. Infere-se a adopção de ídolos pagãos e o bezerro de ouro edificado no deserto em substituição ao Libertador.

        A arte tal como a vida e via de um(a) santo(a) é em si mesma liturgia. O santo somente revela que aceita Aquele que o santifica. A imagem pode ser um atalho para auxiliar a elevação do espírito. A idolatria submete o humano ao irracional e diabólico, o que divide/separa e quebra a acção do espírito. Diabolos significa separador.

        1. Desde as primeiras pinturas cristãs que as autoridades da igreja procuram explicar e justificar a imagística em termos que evitem acusações de idolatria.
          Mesmo dentro da comunidade cristã não há concordância entre as fés católica romana, ortodoxa e protestante sobre o papel da imagística. Daí que a reforma protestante tivesse levado à iconoclastia, sublinhando a importância da imagística para o Cristianismo.
          Não confunda criatividade com imagística e idolatria com imagens de fé, são coisas diferentes.

          1. Só há uma autoridade que reconheço: o Saber e Conhecer, em unidade.
            Eu comentei sua citação do Deuteronómio e inseri o texto e contexto nesta refutação.
            Não existem imagens de fé, mas memórias reproduzidas tal como uma foto de família.
            Não existe uma fé católica, protestante ou calvinista ou evangélica. Se assim acontecer só existe falsidade. No entanto pode existir a crença de que qualquer destes é que têm fé. E isso é simplesmente uma fezada.

          2. Se você assim o diz, quem sou eu para dizer o contrário. Mas olhe que as etapas do saber são três.
            Saber, saber.
            Saber, estar.
            Saber, fazer.
            E só o cumprimento dessas três etapas é que lhe dá o conhecimento.

          3. Afirmou-nos o filósofo: “sei que nada sei”. Esta afirmação só pode ser feita depois de muito se saber.
            Por outro lado, não é saber em unidade aquele que pretende demonstrar ter saber atribuindo saber para demonstrar que o demais não sabe.
            Saber e conhecer está intimamente ligado ao sabor, pois que me importa saborear (de sapere) uma boa refeição se não conheço os ingredientes do manjar?

          4. Ah! Deve ser por isso que aqui no Delito as minhas opiniões têm de ser ao sabor do vento.

          5. A questão das imagens e da idiolatria é abrangente às religiões do livro: hebraica, cristã e muçulmana. Estas três religiões nasceram na mesma zona, e a muçulmana por ser a
            última foi beber das primitivas anteriores, depois foi um passa palavra durante meia dúzia de séculos sem recurso a templos ou imagens.

          6. Não é verdade, anónimo. O totem já existia nos primórdios da civilização, e muito acentuado nos povos ameríndios e africanos.
            Buda também é imagem para os budistas. Hinduístas e xintoístas e tantos outros também têm imagens.
            É natural no homem reproduzir através dos sentidos o que no espírito permanece. Esta também é uma forma de comunicar.

      2. Trata-se de um mandamento que continua a ser seguido no judaismo, no islamismo e no protestantismo. (Nas versões xiitas do islamismo não tanto.) Mas o catolicismo e o cristianismo ortodoxo abandonaram-no e fazem ampla idolatria de imagens e figuras esculpidas.

  12. para serem devidamente apreciadas […] necessitam de referências que só o conhecimento das religiões […] nos proporciona. Isto vale também para […] Machu Picchu ou Angkor Wat

    Eu diria que a imensa maioria das pessoas que aprecia (ao natural ou em fotografias) Machu Picchu e Angkor Wat não faz a mais pequena ideia sobre as religiões professadas pelos seus construtores. Talvez então não aprecie “devidamente” esses monumentos, mas mesmo assim… aprecia-os.

      1. Os construtores de Angkor Wat era budistas.
        As construções religiosos mais extraordinárias que existem são budistas.

        1. Sem religiões o mundo era muito mais pobre, também no aspecto artístico. A não-religião criou poucos monumentos dignos de referência, materiais ou imateriais. Nem precisamos de sair de Portugal para verificar isso.

  13. O Moisés, de Miguel Ângelo […] para serem devidamente apreciadas enquanto veículos de fruição artística e emanações do melhor da nossa cultura, necessitam de referências que só o conhecimento das religiões (neste caso a religião cristã) nos proporciona

    Eu diria que o Moisés de Miguel Ângelo representa melhor as pulsões homossexuais do seu autor do que a religião cristã. (Embora isso seja ainda mais verdade para o David do mesmo artista.) Qualquer pessoa com uma razoável atração por homens apreciará plenamente essa estátua, sem ter necessidade de qualquer outra instrução sobre o homem que ela é suposta representar.

  14. Conhecer a religião é fundamental. É o que nos ajuda a transcender a precariedade dos dias.
    O conhecimento religioso não pesa em nada seja em que vertente for da nossa formação pessoal. As nossas escolhas, essas sim, fazem toda a diferença.
    Excelente texto este, Pedro.

  15. As religiões procuram dar um sentido à vida tentando responder à questão fundamental da origem do Universo. Uma questão a que acabam por não dar resposta, assim como a Cosmologia e a Cosmologia Física também não dão.
    Ao atribuirem genericamente a origem do Universo a um ou vários deuses, encerram a questão fundamental numa qualquer fé. Deixam no entanto em aberto a questão da origem desses deuses, quaisquer que eles sejam.
    É neste contexto que, quanto a mim, as religiões devem ser entendidas. Elas acabam por ser a resposta humanamente possível a uma questão para a qual não temos resposta racional, contribuindo para apaziguar os pensamentos, eliminar a corrosão da dúvida e emprestar um sentido à vida.
    Como no mundo actual não há tempo para pensar, algo que até consome bastante energia, também não existirão dúvidas sobre a origem do Universo e o sentido da vida. Em consequência, vai-se sabendo cada vez menos sobre religiões e em breve talvez estejamos neste aspecto ao nível dos outros animais. Lamentavelmente.

      1. É precisamente para não andarmos numa vida sem sentido é que o Costa se vê na obrigação de nos dizer o que devemos fazer.

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