A anteceder o discurso do 10 de Junho, o Presidente da República entendeu, e bem, vetar a lei, aprovada por quase unanimidade pela Assembleia da República, que pretendeu alterar as regras sobre o financiamento dos partidos políticos. Fê-lo com sentido de oportunidade e no seguimento de umas eleições europeias em que a taxa de abstenção foi superior a 62%. Hoje ouvimo-lo fazer um pungente apelo a que se faça uma análise das atitudes e comportamentos da classe política e das elites do país. Há muito que considero, sem deixar de continuar a defender a separação entre o público e o privado, ser indispensável uma renovação das mentalidades e dos mecanismos de recrutamento, selecção e avaliação das nossas classes dirigentes, em especial da classe política. Por muito que se defenda aquela separação, começa a ser tremendamente notória a profunda interligação entre o que se faz num lado e no outro da esfera. A barreira entre o público e o privado é cada vez mais ténue. Creio ser por essa razão, que ao mesmo tempo que diminui a participação, cresce o coro de críticas e aumenta o grau de exigência em relação aos políticos. O problema não é jornalístico. Em causa já não estão apenas questões comportamentais, mas a discussão da formação dos actores. Talvez não fosse mau recuar a Aristóteles e à velha questão sobre a educação em Esparta e em Atenas. Saber se um ministro, um deputado ou um juiz usa sociedades offshore na sua vida privada, se utiliza meios ou bens públicos em funções privadas, se obteve as suas competências de forma indiscutível ou se ascendeu profissionalmente graças ao nepotismo, ao clientelismo, ao compadrio ou beneficiando do tráfico de influências, não é indiferente para a forma como o poder se exerce. E mais importante se torna o escrutínio quando se sabe que a opinião pública já não aceita passivamente que o mesmo actor tenha um discurso público de exigência e rigor para depois, na sua vida privada, conduzir negócios de legalidade duvidosa ou com parceiros obscuros. José Sócrates diz que registou a mensagem do Presidente da República. Eu espero bem que sim. Bem sei que para alguns, mais optimistas, o Presidente da República estará apenas a fazer uma tempestade num copo de água. Para outros, os que quase todos consideram como pessimistas, o discurso terá vindo tarde, demasiado tarde. Mas o problema, como escreveu Primo Levi, é que "as duas classes, dos pessimistas e dos optimistas, não são porém tão distintas: não porque os agnósticos sejam muitos, mas porque a maioria, sem memória nem coerência, oscila entre as duas posições-limite, conforme o interlocutor e o momento". Este é o nosso drama. Falta de memória, de coerência e de equilíbrio. Basta olhar para a forma como se têm feito algumas reformas, a começar pela fiscal, ou como foi parida a lei agora vetada do financiamento dos partidos, para se perceber como é premente discutir o público e o privado. Discutir os níveis de qualificação, de exigência ética e comportamental das nossas classes dirigentes, falemos nós de políticos, de empresários, de magistrados ou de banqueiros, é falar da própria formação do carácter. É falar de educação. É falar de nós próprios, do papel do Estado e do nosso futuro colectivo. É isto, e só isto, que importa hoje discutir. Em mais de três décadas de democracia nunca um veto foi tão importante como o veto à lei de financiamento dos partidos políticos. E tão demolidor. Ainda bem que assim foi e que o António José Seguro teve a consciência disso. É impossível mudar se não se remar contra a maré. E quando a maré são os próprios partidos e os nossos dirigentes, então é preciso fazê-lo com redobrado vigor. Em Portugal, todos os dias e em qualquer lugar.
Um veto que valeu um discurso
Sérgio de Almeida Correia,

Excelente reflexão, Sérgio. Tal como tu, e como a Ana também já fez aqui, aplaudo o veto do PR, que aliás não me surpreendeu. Tal como tu, entendo que AJSeguro esteve melhor do que qualquer outro parlamentar neste processo. E subscrevo com entusiasmo o teu remate: “É impossível mudar se não se remar contra a maré. E quando a maré são os próprios partidos e os nossos dirigentes, então é preciso fazê-lo com redobrado vigor. Em Portugal, todos os dias e em qualquer lugar.”
Bravo! “Este é o nosso drama. Falta de memória, de coerência e de equilíbrio” “É impossível mudar se não se remar contra a maré.”
Seja bem-vindo .
Muito bem, Sérgio. É isso mesmo, e nunca será de mais dizê-lo. As mudanças só se fazem com a coragem de ir contra a corrente, por muito forte que ela seja.
Leitora quase diária do Delito (onde tenho aprendido várias coisas), quero deixar aqui um aplauso ao novo autor.
A todos vós, aos que leram este post e o anterior, dando-se ao trabalho de escreverem umas palavras, agradeço a recepção. Espero vir a ser merecedor do calor transmitido. Um abraço amigo
1) A abstenção não foi de 62%, foi para aí de 50%, tendo em conta que os cadernos eleitorais estão cheios de mortos (e agora, com o cartão de cidadão, possivelmente também de eleitores em duplicado). Acho que foi neste mesmo blogue que vi chamar a atenção para este facto.
2) Ainda não percebi o que é que vocês têm contra a lei do financiamento dos partidos. Eu farto-me de fazer pagamentos não titulados através do multibanco (transferências bancárias para empresas, etc). Não percebo porque é que posso pagar uma fatura de uma empresa qualquer através de uma transferência multibanco, e não o poderei fazer para dar dinheiro a um partido político. Também não percebo por que é que posso oferecer o meu dinheiro ao Benfica ou ao Santuário de Fátima, mas não o hei-de poder fazer ao Partido Popular Monárquico. Será que alguém teme que, se eu oferecer o meu dinheiro ao PPM, o faça por corrupção? Que raio pode o PPM oferecer-me em troca do meu dinheiro? Nada!!!
a) Enquanto os cadernos não forem limpos o que conta é o que lá está, quanto a isso não posso fazer nada;
b) Transferências Multibanco tudo bem, quanto a isso não há qq problema porque existe um documento de prova. O que está em causa são os pagamentos não controlados, o que entra por debaixo da mesa, o que não se sabe de onde veio nem para onde vai. Quanto ao Benfica há recibo para tudo. Para esse eu também pago. Já quanto ao Santuário de Fátima e aos donativos aí feitos desconheço. Não é local que frequente e sempre tive uma certa aversão a dar dinheiro a quem depois não me presta contas.