Um salto que chegou de Lisboa a Tóquio


Pedro Correia,

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Não lhe basta ser medalhada na pista: também merece medalha pelo exemplo cívico que nos deu após ter subido ao pódio em Tóquio. Patrícia Mbengani Bravo Mamona, nascida há 32 anos no bairro lisboeta de Arroios, filha de pais angolanos, remou contra a maré com palavras simples e genuínas. Falando sem o menor complexo sobre a alegria que sente em ser portuguesa. Afirmando-se crente no trabalho metódico, na disciplina física e mental, no saudável espírito de competição capaz de ultrapassar obstáculos e derrotar inibições.

Tudo isto no rescaldo imediato do magnífico salto que a fez transpor a marca dos 15 metros no triplo salto. Só 24 outras mulheres alcançaram tal proeza no desporto mundial. Ela lutou durante anos para atingir este patamar. Já era a melhor de Portugal desde 2009, quando saltou 13,83m. Faltava-lhe a consagração olímpica, agora alcançada em Tóquio.

«É um orgulho para mim representar esta nação. Quero deixar o meu agradecimento a Portugal. Somos pequenos, mas somos grandes», afirmou a atleta do Sporting. Tinha motivos para isso: acabara de saltar 15,01m, sagrando-se vice-campeã olímpica e superando duas vezes o recorde nacional.

No seu português vibrante e límpido, com palavras que todos entendemos, disse o que por estes dias não escutamos a nenhum político – muito menos ao ministro da Educação, avesso a provas, exames, patamares competitivos. Politicamente incorrecta, Patrícia enalteceu o esforço, destacou a importância de fixar metas, garantiu que sem tenacidade nada se consegue. Exibindo brio patriótico, promovendo a cultura do mérito, dizendo que devemos ver-nos não como país pequeno mas como povo grande.

 

Não podia ser maior o contraste entre a refrescante mensagem de Patrícia e a rancorosa oratória daqueles que, como Joacine Katar Moreira e Mamadou Ba, jamais falam para o cidadão comum mas para claques tribais, num estendal de vitimização e ressentimento. Incapazes de abraçar a bandeira que tem a esfera armilar no centro, ao contrário do que fez a recordista nacional do triplo salto.

Foi um momento de redobrada alegria para quantos a vimos à distância nas primeiras Olimpíadas sem público da história, com bancadas vazias a pretexto do coronavírus, símbolo de uma civilização que troca o real pelo virtual e vive cercada de interdições. Num certame desportivo que se proclama de 2020 quando ocorre em 2021, como se o planeta tivesse ficado congelado no ano em que começou a pandemia.

O salto largo de Patrícia teve o condão de nos devolver um fragmento do mundo real. E a mensagem que nos transmitiu após ter concretizado o sonho foi mais inspiradora do que qualquer cartilha contaminada de ranço ideológico ou da nova tendência em curso que presta tributo à desistência. «Só queria dizer que todos são capazes. Pode demorar um bocadinho, mas pode acontecer», disse-nos ela.

Tão simples como isto.

 

Texto publicado no semanário Novo

33 comentários em “Um salto que chegou de Lisboa a Tóquio”

  1. Símbolo de uma civilização que troca o real pelo virtual

    Excelentes palavras. Uma epidemia virtual, que não faz aumentar a mortalidade a não ser nuns pozinhos, de um vírus que contamina toda a gente mas que praticamente não faz ninguém doente.

      1. Eu diria BolsoNero a ler o DELITO em DELÍRIO e a Amazónia a arder.
        Mas há outros Delírios, e para variar vai de abrir o armário dos saltos e traser a Patrícia Mamona fardada à Associação Desportiva de Portugal que é portuguesa nascida em Portugal, que gosta muito de representar o seu País.
        Agora venha o Pedro Pichardo, campeão olímpico, fardado à Desportista de Lisboa e de Benfica que é naturalizado português e nascido em Cuba, que gosta muito de representar Portugal.

          1. Pois, no início do séc. XX não havia, lá para os lados de Belas.
            Mas, agora, as Novas Oportunidades não são coisas de nem se falar nisso?

  2. Inteiramente de acordo. A Patrícia Mamona é um bom exemplo, um exemplo a emitar. E não só no desporto.

  3. Belo postal. Eu comento apenas isto: julgo que esta atleta, e alguns outros que estiveram nestes JOs, não nos (aos portugueses) reduzem como “tugas”. Ao contrário de alguns contratados pela Assembleia da República.

  4. O melhor comentário que se poderia fazer ao texto de jpt aqui publicado ontem: “Pequeninos, felizes e eternamente adiados”.

      1. Peço desculpa ao Sérgio Correia; a pressa dá nisto: conferi o titulo e não conferi o autor… Mas que gostei dos dois textos isso é verdade. É curioso que, quando li o seu texto pensei que eu lhe daria o título ao contrário: “Um salto que chegou de Tóquio a Lisboa”…

        1. Também podia ser, sim, mas não é a mesma coisa.
          O titulo indicia que as brilhantes prestações nas Olimpíadas começam a ser preparadas em casa, com muito esforço, durante quatro anos. E também, como Patricia disse, que não devemos resignar-nos à nossa condição de país alegadamente periférico: Lisboa sempre foi para nós, através dos séculos, mais ponto de partida do que de chegada.

  5. 1- Esta pequena sereia e bela Mamona não precisa de saltos altos para dar os melhores saltos de Portugal ela é simplesmente uma delicia de ouvir e de ver. Parabéns Patricia Mamona!!
    2-Agora percebo o seu problema com a estação do metro de Arroios!
    3- Joacine Katar Moreira e Mamadou Ba dois monstros do ódio que vivem a custa dos portugueses ficava-lhes bem ter ido limpar o Padrão dos descobrimentos.
    4 -Parabéns a todos os atletas com medalhas ou sem medalhas que participaram nos jogos Olímpicos.

    Rui Lopes

    1. Leu bem o que estava grafitado no Monumento?
      Até estava num inglês de sintaxe duvidosa pouco “pensado” em português.
      Aquilo foi escrito contra a globalização e podia estar no edifício duma multinacional de nomeada. Não tem muito a ver com colonialismo.

      1. Deduzo então que concorda com as pichagens.
        Mas que pobreza de espirito !!
        E meta a globalização no olho do cu, que já metem nojo as vossas conversas e a vossa ignorância.

        Rui Lopes

      1. Patrícia Mamona é, e é redudante dizê-lo, uma excepcional atleta e com fibra de campeã. E é também – como o vem demonstrando nas suas declarações (muito relevante o que diz sobre o desporto escolar e o Estado) – uma cidadã empenhada e muito consciente. Nada disso pode obstar ao que também considero: é dona de um belíssimo nariz (“que nariz”, clamaria o velho Mestre Panoramix)

  6. Sobretudo isto, caro Pedro Correia, “Não podia ser maior o contraste entre a refrescante mensagem de Patrícia e a rancorosa oratória daqueles que, como Joacine Katar Moreira e Mamadou Ba, jamais falam para o cidadão comum mas para claques tribais, num estendal de vitimização e ressentimento. Incapazes de abraçar a bandeira que tem a esfera armilar no centro, ao contrário do que fez a recordista nacional do triplo salto.”.

  7. Joacine Katar Moreira e Mamadou Ba nascidos um na Guine bissau e o outro no Senegal e que vieram para Portugal na década de 90 foram naturalizados ao abrigo de quê?
    Que medalha é que eles ganharam?
    Será que estes espalhadores do ranço ideológico já deram os parabéns a Pedro Pichardo?

  8. Nasceu na Maternidade Magalhães Coutinho, os pais viviam no Cacém.
    Mamona é um exemplo para os jovens de hoje.
    E continua bonita e simples.

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