Este post podia ser sobre Liu Xiaobo e a sua condenação injusta e cruel por Delito de Opinião. Uma opinião que mais não é do que afirmação dos mais elementares Direitos Humanos. Ou sobre a sua mulher, mantida em prisão domiciliária. Ou sobre os seus irmãos, impedidos de sair da China. Ou sobre os 20 activistas presos nas últimas horas. Ou sobre as tentativas de controlar a informação, a internet e as redes sociais no interior da China.
Este post podia ser sobre a condenação moral à China por tudo isto e por ainda não ter percebido que nem tudo se compra com biliões de dólares. Nem com exposições universais em Shangai, nem com centenas de medalhas nos Jogos Olímpicos, nem com investimento em ciência e tecnologia de ponta, nem com um corpo de spin doctors e propagandistas. E por não ter percebido que nem tudo se esconde: a injustiça, as barbaridades, a violência, as desigualdades…
Este post podia ser sobre os outros 17 países que se recusaram a estar presentes na cerimónia de hoje da entrega do Nobel. Todos eles a caberem pelo menos em uma das seguintes categorias: ditaduras, péssimos exemplos em matéria de direitos humanos, poder corrupto ou extrema proximidade geográfica e/ou dependência económica da China.
Este post podia ser sobre Ramos Horta e o valor do Prémio Nobel que lhe foi atribuído quando se demonstra que não consegue honrá-lo agora que o Povo de Timor se livrou do jugo indonésio.
Este post podia ser sobre Karl von Ossietzky, um já esquecido laureado com o Prémio Nobel e que tal como Liu Xiaobo estava preso quando aquele lhe foi atribuído: numa das prisões de Hitler.
Este post podia ser sobre Obama, a quem o Comité Nobel atribuiu o ano passado uma espécie de mandato que está ainda por cumprir. Aí está o simbolismo de Guantánamo a comprová-lo.
Este post podia ser sobre todos os que detendo algum poder, se alheiam da realidade e acreditam na sua única verdade impondo-a de forma opressiva aos que deles dependem.
Este post podia ser sobre todas as pequenas e grandes violações da liberdade e dos direitos humanos que aqui, ali, ou wikileaks, mais perto ou mais longe, nos rodeiam e em que às vezes participamos, se não por actos ou palavras, tantas vezes por omissões.
Este post podia ser sobre uma cadeira vazia, aquela onde Liu Xiaobo se deveria hoje sentar e onde, na verdade, se deveriam sentar todos os injustiçados do Mundo porque lá todos teriam lugar. Ou sobre a cadeira que ficou vazia na entrega do 1º Prémio Confúcio, porque nela teria lugar toda a injustiça do Mundo.
Prefiro que este post seja sobre a esperança e o futuro. Sobre cada pedra que se retira ao muro, onde quer que ele esteja, pedindo para ser derrubado. Creio ser este o simbolismo mais profundo do Dia Internacional dos Direitos Humanos que hoje se celebra e do Prémio Nobel da Paz que hoje não se entrega. Se querem que lhes diga, este post é sobre os meus filhos e o amor que lhes tenho.


o melhor é pensar que tudo vai mudar.
Mas duvido muito que Liu alguma vez toque no prémio…
Vamos acreditar que todos os que o merecem hão-de, um dia, tocar no prémio, Francisco.
Porque o amor é abrangente. E nele inclui todo um conjunto de valores e de princípios incontornáveis e inalienáveis. 🙂
Precisei de 10 parágrafos para o dizer. A Sílvia disse-o numa linha. Parabéns!
Fantástico texto, Rui. Parabéns pela lucidez, mas também pela recusa em ceder ao desespero. Aplaudo e junto-me à esperança que demonstras, apesar dos pesares.
Acredito que os prisioneiros podem ser mais livres do que os carcereiros, Ana. Enquanto tiverem esperança. Os carcereiros serão sempre prisioneiros da sua indignidade.
Ah, nisso também acredito firmemente. Na liberdade de pensamento, na força invencível e na superioridade de quem sabe que a tem. Já sou mais céptica quanto aos remorsos dos carcereiros, infelizmente. É preciso que haja sólidos valores morais para que a consciência da indignidade incomode e corroa, e muitas vezes eles não existem. Mas enfim, é Natal…
Falar de amor pode não ser “fashion” (o que valoriza ainda mais este “post”), mas por ele tudo passa. O amor à pátria, à dignidade do Homem, à Natureza, aos povos, à liberdade, à Justiça, ao bem-comum.
Parabéns.
Obrigado, Núncio. Numa toada mais leve, diria que seria muito bom que, pelo menos às vezes, nos cansássemos de ser “fashion”.
Muito bem. Partilho o momento e estarei presente na entrega.
Excelente texto, Rui. Forma e conteúdo: tudo bom.
Obrigado, Pedro.
Que os seus filhos, e as minhas filhas, não tenham que enfrentar aquilo que o Pedro bem classificou como força bruta.
Um abraço
Assim seja, Pedro. Um abraço.