A escola está a morrer
As ideias que se têm às três horas da manhã não entram na sala de aula no dia seguinte: disciplinas, programas e avaliações têm importância maior. A educação pública exerce enorme pressão sobre alunos e professores. É preciso que todos se conformem, que todos organizem o seu dia em unidades padronizadas de tempo e delimitadas pelo toque da campainha. À semelhança de uma unidade fabril, os operários picam o ponto ao som de um ruído agudo que percorre corredores e corações. Os exames são estandardizados, as aulas são iguais todos os dias, os alunos bocejam, os professores querem fugir para casa cedo e aquela ínfima parte da humanidade espera que o tempo passe.
O sistema educativo precisa de ser transformado, os bons professores, que vêem a sua criatividade suprimida todos os dias, começam a abandonar o sistema. Interiormente, as aulas e a escola são motivo de enfado e cansaço. A uniformização da educação destrói qualquer sistema com múltiplas e ineficazes reformas. Enquanto os professores não forem livres para trabalhar, descobrindo os talentos e fomentando a imaginação, o tempo dispendido é inútil. Perguntemos a qualquer adolescente o que aprendeu nas mais diversas disciplinas de um currículo sobrecarregado de informação e não obteremos resposta satisfatória. Direccione-se a pergunta para aquilo que, na escola, mais lhes interessa e a resposta será rápida: nada do que se passa nas aulas é estimulante.
Os professores precisam de ensinar aquilo que os alunos precisam de aprender, aquilo que cada um deles tem dentro, o currículo que se enquadra na essência de um grupo de gente que se senta para ouvir, falar e agir. O verdadeiro poder desta abordagem passaria por uma profunda transformação de todo o sistema educativo, por um profundo questionamento do que se entende por inteligência e por uma urgente reflexão sobre a importância da criatividade. É preciso produzir algo de original, na escola e na vida. A produção de ideias originais e valiosas levou-nos, ao longo da história da música, da literatura, da pintura, à descoberta de génios que, com certeza, não começaram o seu trabalho criativo dentro de quatro paredes com muros altos e campainhas a tocar de hora a hora.
Enquanto a escola for um espaço fabril com carácter obrigatório, não existirá lugar para a criatividade. Enquanto os alunos forem para a escola sem entusiasmo e os professores abrirem a porta da sala de aula esperando o toque de saída, não existirá futuro. Enquanto os programas, desadequados da realidade, forem imposição sem critério, todo o sistema ruirá, porque não há inteligência que sobreviva a tanta mediocridade.



Como António Barreto disse há uns tempos, o pior da Educação em Portugal é o Ministério da Educação. Demita-se o Ministério da Educação para formar uma simples instituição administrativa e deixe-se que as escolas trabalhem e exerçam com imaginação e vontade o seu papel. Parabéns, Luísa.
João: Ideia boa mas, infelizmente, difícil ou impossível de pôr em prática. Que lutem, os professores, por uma criatividade castrada mas existente na “pasta” de muitos deles. Obrigada pelo simpático convite.
Andamos nisto há anos. Sucedem-se os ME’s e as soluções são sempre as mesmas.
Não haverá quem seja capaz de apresentar programas mobilizadores?
ET. Boa utilização da arte de Ana Vidigal (que bloga no jugular)
“Enquanto os programas, desadequados da realidade, forem imposição sem critério, todo o sistema ruirá, porque não há inteligência que sobreviva a tanta mediocridade.”
Absolutamente lapidar. Parabéns, Luísa!
Obrigado pela visita. Com um tema cada vez mais actual. Está desde já convidada a voltar um dia destes.
Merci, Pedro.
Bem-vinda 🙂
Muito bom, o teu texto.
Obrigada, Leonor. “Vim” com todo o gosto 🙂
Querida Luísa
Enquanto a escola for um espaço distinto, com tempos distintos e assuntos afastados da realidade individual dos alunos, a escola será sempre vista por muitos deles como apenas um espaço de socialização e pouco mais. Que também o é. Apenas lamentamos, todos, que os temas estejam tão normalizados e tão pouco adaptados ao quotidiano e necessidades dos nossos alunos…
E o quotidiano escolar continuará o marasmo de sempre. Haja a imaginação e a criatividade suficientes para não morrermos à porta da sala de aula, antes de entrarmos para mais noventa minutos de “morte”.