Um português descrente


oanonimoanonimo,

Sinto-me a entrar numa fase perigosa. Há pouco, olhei para a mesa da minha sala e lembrei-me de que comprei o SOL e o Expresso deste fim-de-semana e nem sequer os tirei dos sacos, que ali jazem, incólumes. Lembrei-me que, desde então, já passaram dias e em nenhum deles comprei um diário para ler, ainda que em fuga, enquanto tomo o pequeno-almoço na área de serviço ali ao lado. Prossigo caminho e dou comigo a pensar que já nem me lembro do último dia em que liguei a tv. Passo por aqui diariamente, leio o que os meus amigos escrevem e, muitas vezes, concluo que nem sei muito bem de que estão a falar. Tenho passado ao lado das notícias e dos debates e, em rigor, até agradeço aos santos por não me chamarem, por estes dias, para participar neles. Tenho uma vaga ideia de que o país político anda aceso, com as trapalhadas que envolvem ou não envolvem o Sócrates, com as tiradas fantásticas do PGR e até do meu Bastonário (Alô, alô, António, por enquanto ainda voto em ti, mas não abuses…), com as escutas que todos ouvem e com aquelas que se querem esconder. Também já ouvi qualquer coisa sobre aumentos de impostos e que Portugal está como a Grécia, mas eu não sei como está a Grécia e por isso não me preocupo muito. Vou sabendo que pelos lados do PSD andam umas trapalhadas também, dizem que vai haver eleições para ocupar o "lugar do morto" (ou da "morta", mais concretamente), eu tenho as quotas em dia, mas ainda não decidi se vou votar ou em quem vou votar, porque, honestamente, acho que o meu voto não vai contribuir para coisa alguma, porque, decididamente, o PSD não tem emenda, nem quer ter e talvez até seja melhor que nem tenha. Poderão dizer – digam, se fazem o favor… – que isto são coisas minhas, que ando um bocado despassarado desde há uns meses, ocupado com outras coisas, que isso até é verdade. E refugio-me nisso. O pior – o que é mesmo grave – é que acabo por descobrir que até a empregada do café ao lado do escritório sabe mais da actualidade do que eu, o que às vezes me abisma – a minha ignorância, que não a sabedoria dela. Que se passa comigo? Pois, não sei bem. Mas, por estes dias, conseguirei descobrir se quem precisa de ser internado sou eu, ou se é o país, ou ambas as coisas. Uma coisa é para mim certa: descri. Descri do país. De quem governa, de quem quer governar, de mim como português e dos portugueses em geral. Estarei mesmo muito mal? Chegou a hora de mudar a profissão para taxista?

16 comentários em “Um português descrente”

  1. Meu caro, o seu problema tem um nome: desmotivação.
    O meu amigo acreditou em muito e muito daquilo em que acreditou se desmoronou à vista de todos, deixando-o consternado.
    A mim aconteceu-me exactamente o mesmo, com uma agravante: é que tenho uma profissão que quase não me obriga a sair de casa, de forma que às vezes quando acordo da minha melancolia já passaram 2 ou 3 dias em que não saí – não saí, não vi TV, não comprei jornais, tudo o que sei pesco-o na blogosfera e nos jornais on line.
    Nessas ocasiões a depressão anda a rondar muito pertinho, mas consegui dar-lhe um pontapé e passei a interessar-me por outras coisas que nada têm a ver com a profissão, que aliás me interessa cada vez menos.
    Devo dizer-lhe que o seu estado me parece bastante preocupante por causa do que diz do Marinho: não é por ter votado nele (disparates todos fazemos), mas por ter o desprendimento de o reconhecer publicamente, nesta fase do campeonato em que o dito cujo cobre de ridículo a advocacia com um discurso cada vez mais delirante.
    Mas na verdade tudo passa na espuma dos dias e parece que afinal “no pasa nada” e as nossas expectativas são permanentemente adiadas.
    Paciência.
    Melhores dias virão – quem sabe, talvez ainda durante a nossa vida este sítio mal frequentado volte a ser um País.

    1. É, meu caro 100 anos, trata-se se descrença e de desmotivação. Trabalhar para quê? Apenas para garantir a subsistência e porque tem mesmo que ser. Já viu o estado calamitoso em que está a “nossa” justiça? Já reparou na cara das pessoas? Já viu que alguns ainda vão rindo, mas por pura inconsciência? Já viu que ninguém tem uma ideia e um desígnio para nos tirar do atoleiro? Já viu que o país está a saque? Valha-nos Deus!

    2. Já somos três. O que mais me irrita, às vezes, é ainda não ter ficado completamente ‘desinformada’, aí eu julgo que resta a esperança.

  2. Mudar para taxista pode ser perigoso e claramente uma má opção.
    Parece que nestes dias só há uma profissão que passa incólume(não percebo como) à crise:
    Jogador de futebol.
    E pelo que se vê mantem 90% dos Portugueses felizes. Já não pensam no aumento dos combustiveis,no não aumento dos ordenados; só discutem um pouco a situação politica para não falarem sempre do futebol…
    Mas quando se fala da situação politica,começa-se a falar nas finanças, na justiça nos desvarios do Governo,na loucura da oposição e aí decidimos mudar de conversa novamente para o futebol,para fugir aos momentos deprimentos(excepção dos portistas)…
    Depois a situação de calamidade e catástrofes a nivel mundial atingem neste momento niveis alarmantes e chamam mais a atenção do que a situação do país,porque se isto der para o torto, quem vier por ultimo fecha a porta…

  3. Caríssimo,

    Como eu o compreendo, sinto-me exactamente na mesma situação… Também “descri” do país…

    E mudar para taxista? Só se for taxista em Genebra (conheci lá vários portugueses), que infelizmente o nosso país está a caminhar a passos largos para aqueles sítios que se costuma dizer que “são muito bons para passar férias, mas nunca me apanhariam lá a viver”…

      1. Então sugiro o aeroporto de Lisboa, para levares turistas ao hotel (no centro da cidade) passando por Coimbra, Serpa e Vila Real de Sto. António. É uma rica profissão, fica sabendo.

  4. Tu é que pediste: isso são coisas tuas, andas um bocado despassarado desde há uns meses, ocupado com outras coisas…
    Mas vê lá se vens descrer para aqui, entre amigos. Vais ver que te sentes melhor do que internado.
    Abraços.

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