Um partido sem emenda (11)


Pedro Correia,

«À esquerda o PS está a ser mais eficaz do que o PSD à direita. Isto é eleitoralmente errado.»

Pacheco Pereira, esta noite, na Quadratura do Círculo (SIC N). Faltam dez dias para as legislativas.

9 comentários em “Um partido sem emenda (11)”

  1. Pudera!

    À esquerda do PS, o BE e a CDU como que se “puseram de fora”, ao rejeitar o apoio externo e o cumprimento do acordo com a “troika”.
    Por isso, não é o PS que está a ser mais eficaz, mas sim os partidos à sua esquerda que escolheram um caminho que, do ponto de vista eleitoral, é menos eficaz (infelizmente acho que eles até têm razão). De modo que, quem for de esquerda e recear deixar de receber o seu vencimento ou pensão, pensa 2 vezes antes de votar no BE ou na CDU, em vez de votar no PS.
    O PS não está a ser eficaz, os seus adversários à esquerda é que lhe estão a endossar os votos. (Mas, se a crise grega se agudizar criticamente antes das eleições, e bem assim a crise irlandesa, a portuguesa, a belga, a italiana e a espanhola, e começar a ser trilhado pela UE um caminho diferente do actual – como já há muito deveria ter sido feito! -, então o argumento acima invocado pode reverter contra o PS…).

    Já à direita, não é fácil o PSD conquistar votos a um partido que tb se compromete a cumprir o referido acordo com a “troika”, que tem uma liderança mais experiente, carismática e “afirmativa”, propostas eleitorais mais “eleitoralistas” e um programa eleitoral mais “à esquerda” que o do próprio PSD.
    Por isso, o que o PP (Pacheco Pereira) diz é uma verdadeira “verdade de Mr. de La Palice”! Sendo este político-politólogo-comentador arvorado em intelectual militante do PSD, ser-lhe-ia exigível um pouco mais, designadamente apontando os caminhos que o seu partido (que nem sequer é o meu) deveria seguir para inverter a situação (que declarou ter constatado como se tivesse acabado de “descobrir a pólvora”).

    De resto, acho que o facto constatado revela alguma estreiteza de vistas por parte do PP (Pacheco Pereira), uma vez que o eleitorado potencial do PSD é comparável a uma peneira: para tapar o sol de um lado, deixa-o passar por outro.
    Ou seja, qt mais eficaz for o PSD a captar votos à sua direita, mais eleitorado de esquerda perderá. Ora, entre captar votos à direita perdendo votos à esquerda ou captar votos a esta perdendo votos da direita, parece-me óbvio qual será a opção preferível: a de não perder votos para o seu principal adversário, que é o que está à sua esquerda (o PS).
    Na verdade, não sendo previsível que o PSD esteja em condições de conseguir uma maioria absoluta e sendo previsível que, na melhor das hipóteses, formará um governo de coligação com o CDS, é preferível que perca eleitorado para o seu futuro parceiro de coligação (o CDS) do que para o futuro líder da oposição (o PS).
    De modo que é uma atitude pouco inteligente por parte do Pacheco Pereira estar a “apontar as baterias” ao CDS (embora se possa compreender do ponto de vista subjectivo, como uma espécie de “revanchismo” político), uma vez que dispersa a atenção para aquele que deve ser o alvo principal do PSD (ou seja, o PS).
    Acresce que nem sequer inspira confiança aos eleitores um clima eleitoral (ou pré-governativo) de conflitos ou tensões entre os dois partidos que se apresentam como potenciais governantes do país. Neste ponto, tem sido exemplarmente inteligente – na medida em que as circunstâncias permitem – o relacionamento pouco tenso entre o BE e a CDU, pois ambos intuem que a canibalização recíproca em nada os beneficiaria, na medida em que qualquer ganho marginal relativo teria como custo a perda de (mais) votos para o PS (que a todo o custo pretendem evitar).

    1. O actual líder do PSD perde imenso por não seguir os sábios e doutos conselhos de Pacheco Pereira, o grande estratego da derrota eleitoral social-democrata nas legislativas de 2009.

      1. O Pacheco Pereira é um velho, do Restêlo.

        Por falar em velhos, gostava de conhecer estatísticas sobre as intenções de voto, bem como dos níveis de abstenção, por idades. Mas parece que tal não consta das sondagens (nem pode decorrer dos resultados eleitorais, pq o voto é secreto).
        É que tenho ideia que a nossa democracia tb está a “envelhecer” a passos largos. Isto é, parece-me que há muito menos fervor partidário por parte das camadas mais jovens (o que favorece o nível abstenção) e intuo (não sei bem pq) que a composição partidária das camadas mais jovens que votam é sensivelmente diferente da composição partidária das restantes camadas etárias.
        Seria um elemento de análise bastante interessante para perspectivar a evolução política do país a médio e longo prazo.

        Quanto à MFL, sofreu de um mal nacional: como se nota, tinha razão qt às suas preocupações orçamentais, mas ninguém lhe reconheceu essa razão. Agora, essas preocupações são sentidas, mas parece que ninguém se lembra de lhe reconhecer o mérito por as ter diagnosticado (o que seria, aliás, um excelente argumento contra o discurso desculpabilizante do Sócrates fundado na crise internacional e que, inexplicavelmente, nem sequer é usado).
        Chego à conclusão que o nosso país é verdadeiramente ecológico do ponto de vista político: a navegação política é sempre feita à vela, ao sabor do vento, virando a vela de acordo com a orientação do vento. Qd convém, “há mais vida para além do déficit”; qd não convém, fazem-se apelos patrióticos para apertar o cinto (do mesmo autor, alguns meses após, depois de ter mudado o governo) – vindo na mesma linha o argumento actual de que não convém fazer muito “ruído” sobre a situação orçamental do país e das contas púnlicas, para não dar “mau aspecto” internacionalmente (sob pena das acusações de “irresponsabilidade”, “imaturidade” e “sede de poder”).

        1. esses dados existem, trabalhados por um projecto do ics chamado Comportamento Eleitoral. Inclui inquéritos pós-eleitorais, para se perceber quem votou em quem. O envelhecimento que intui é verdadeiro para BE (ainda que menos), PCP (muito) e PSD (muito também). O PS e o CDS conseguem apelar às camadas mais jovens (menos de 35).

          1. Muito obrigado pela dica.
            O melhor que consegui encontrar foi isto (apesar de ser demasiado teórico, técnico e voltado para a questão da abstenção):
            https://estudogeral.sib.uc.pt/jspui/bitstream/10316/13820/1/Comportamento%20eleitoral%20em%20Portugal%20%28Rodrigo%20Martins%29.pdf

            Pretendia algo mais simples, puramente estatístico, que identificasse os votantes com as idades (e não seria mau se identificasse outros factores, tais como a formação académica, a área de actividade laboral, o nível de rendimento e a distribuição geográfica).
            Mas foi o melhor que encontrei.
            Agradeço, pois, a dica.

  2. Pedro,
    Quando eu era (mais) jovem, em situações similares à que está a viver o Pacheco Pereira, costuma aconselhar-se a pessoa desta forma:
    “A sua presença é indesejada. Calmamente, fingindo que vai #$gar, ausente-se e não volte.”
    Será que não ensinaram isto ao Pacheco Pereira?

    1. Faz agora de Calimero, transformando-se em tema número um do ‘debate político’, quando há menos de dois anos andava a distribuir anátemas e a justificar a exclusão do actual presidente e do actual secretário-geral do PSD das listas eleitorais depois de terem sido propostos à então líder do partido pelas estruturas distritais. Espantoso.

  3. Patético espectáculo, o da quadratura de ontem: três marretas à compita a ver quem ganhava a palma nos ataques ao PSD e a Passos Coelho.
    O caso do Pacheco, então, é de bradar aos céus… Como é que o homem insiste em fazer parte de um clube que manifestamente detesta?

    1. Nunca o sorriso do António Costa foi tão rasgado como ontem. Havia um excelente motivo para isso: dois terços do programa passado a desencar o líder do PSD, tendo como tema quase único um dos protagonistas do próprio programa. Razão tem o Catroga, afinal.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *