António Barreto é personagem com ampla audiência na direita: tem um passado ilustre como um dos coveiros do PREC, é um homem seriíssimo (coisa que não deveria ser digna de nota, mas é), e expõe com severidade, há muito, os podres do regime.
Outros o fazem e fizeram. Mas não são geralmente originários das coudelarias do PS e por isso carecem da natural audiência que têm os dissidentes. E isso explica uma parte das razões porque são lidos até ao fim, espera-se, os artigos que regularmente expele. Digo até ao fim porque Barreto não tem, como tinha o seu amigo Vasco Pulido Valente, o dom de dizer muito com pouco; e ainda menos se dá ao excessivo trabalho, sequer por inferência, de dizer como se corrigiriam os males que censura. É por isso um pairador e foi por isso que há anos lhe dediquei um artigo, que terminava assim:
António Barreto faz parte, e é porventura o membro mais ilustre, de uma variedade de pensadores muito respeitada, que são os que pairam. Desprezam os actores políticos, fugindo como da peste de manifestar preferências; quando se dizem de direita não cessam de a criticar, ao mesmo tempo que dizem coisas compreensivas e simpáticas para a esquerda; e quando se dizem de esquerda guardam para ela uma compreensível tolerância, não se esquecendo nunca de malhar na direita. São com frequência professores universitários, acham que essa condição lhes dá uma lucidez que escasseia ao comum dos cidadãos, leram quatro livros e planeiam, nas próximas férias, ler cinco. E nunca se dão ao excessivo trabalho de dizer como se faz. Gente céptica como eu é bem capaz de ir ao ponto de pensar que não dizem porque não sabem.
Comentário venenoso e retoricamente exagerado, já se vê, mas desculpável porque nessa altura dizia que, se Barreto fosse candidato à Presidência, teria o meu voto. E injusto também porque AB vem, finalmente, declarar alguma coisa de sólido: apoia o candidato Marcelo.
Apoia porquê? Ora, porque “aproximou-se dos adversários e distanciou-se dos seus, gesto em que muitos vêem o princípio da traição, mas que é a maior dificuldade na acção de um presidente eleito: ser presidente de todos”.
Extraordinário raciocínio: um candidato dito de direita, para ser o presidente de todos, apoia os disparates da esquerda, forma absolutamente garantida de todos representar condignamente: os de direita porque vêem um dos seus a apoiar a esquerda, os desta porque têm uma autoestrada para o asneirol sem empecilhos.
Só por isto? Que nada. Também porque “fez-se sentir útil e necessário. O governo precisou dele. O Partido Socialista também. E o primeiro-ministro António Costa nem se fala”.
Fantástico: O país, no consulado de Costa, perdeu vários lugares no ranking das nações do rendimento por cabeça, o endividamento atingiu níveis sem precedentes, a bonança do turismo e o pornográfico abrir de pernas do BCE, tudo foi desperdiçado num deserto de reformas e numa escandalosa colonização do aparelho de Estado por clientes do PS; a comunicação social aprofundou a sua dependência do Estado; e tudo leva a crer que o carregamento de ouro do Brasil que vem na nau “bazuca” será dissipado em fantasias hidrogénicas e corrupções sortidas. Marcelo presidiu a este desconchavo com selfies, sorrisos e palavreado oco. Tudo razões, segundo Barreto, para que o reelejamos.
“Com o Partido Socialista de António Costa, Marcelo garantiu uma espécie de bloco histórico (socialistas e sociais democratas, católicos e laicos, esquerda e direita moderadas) e permitiu uma longa duração ao mais esquerdista de todos os governos desde 1976”.
Temos então que há um bloco histórico que integra o PS, as duas pernas ancilares do tripé, uma comunista e a outra social-democrata (Marisa dixit), os católicos, excepto se não o forem, caso em que também vão no embrulho, os sociais-democratas propriamente ditos (isto é, o PSD de Rio), e a direita, desde que, atenção, “moderada” (deve ser o CDS). Ou seja, toda a esquerda, com excepção dos apoiantes dos candidatos faz-de-conta, porque não vão à segunda volta, e toda a direita, com excepção de uns maduros que ainda não perceberam o intenso patriotismo, e o futuro radioso, deste unanimismo em torno do candidato Marcelo.
No meu textinho de 2017, referido acima, queixava-me que estes mandarins da opinião nunca descem ao concreto. Mal. Quando descem, é o que se vê.

“… gesto em que muitos VÊM o princípio da traição, …”
Por favor, alguém me ajuda, qual é o verbo da conjugação verbal em evidência na frase acima.
Muito obrigado.
O vocábulo que assinala em maiúsculas na frase que transcreve não está grafado como o escreveu (isto é, não está “vêm”, que seria do verbo “vir”, mas “vêem”, que é do verbo “ver”) e está muito bem. O acento circunflexo, segundo as regras actuais, está a mais. Tratando-se, como se trata, de uma citação, sempre deixaria em paz a grafia original. No caso, aliás, acho-a preferível, a supressão do acento foi apenas mais um disparate do Acordo Ortográfico. Que não conheço bem, não faço tenções de conhecer e desprezo como a engenharia grotesca e abusiva que efectivamente é.
Tenho estima por António Barreto. Isso não me impede de dizer que António Barreto está completa e absolutamente errado. O mais extraordinário é, para alguém com a sua experiência, António Barreto estar errado por ingenuidade: pensa que Marcelo tem “os seus”. Ora Marcelo só tem um “seu” – ele próprio. Todos os restantes são ferramentas e aliados de ocasião.
Bom dia, José! Apanhei o link ,mas, por graça ou não, fui deixado ao lado de Freitas. Assim não 😋
Tenho grande admiração por António Barreto e também creio que está errado em practicamente tudo o que agora escreveu.
Não votei nas anteriores presidenciais e agora estou a ponderar votar contra Marcelo.
Completados os “disclaimers” vou fazer de advogado do diabo.
A actuação mais marcante de António Barreto foi executiva: combateu a reforma agrária comunista e tentou repor a legalidade no Alentejo. Conseguiu muito e só não conseguiu mais porque foi “desapoiado” por Soares, que tudo sacrificou, mesmo a justiça, ao desiderato da adesão à CEE.
Nunca gostei de Marcelo – não é de agora – mas, neste caso, tenho de lhe dar o benefício da dúvida. A acreditar nas sondagens que em Portugal não têm sido tão disparatadas como nos EUA, qualquer actuação sua contra o governo acabaria na dissolução da Assembleia e em novas eleições em que a esquerda seria reforçada. Há quem acredite que ele tenha estado a proteger o PSD. Eu não acredito mas dou-lhe o benefício da dúvida. Mesmo por motivos egoístas, se eleições antecipadas resultassem num enfraquecimento do PSD e CDS com crescimentos à esquerda e à direita, ele ficaria muito enfraquecido.
Não tenho nenhuma dúvida sobre o brihantismo táctico de Marcelo, Francisco Almeida. Mas esteve sempre ao serviço da sua popularidade, e não de uma ideia para o país, que nunca teve além do ar do tempo e da família política errática a que se acolheu. O eleitorado está feliz e anestesiado, unido na consagração de políticas de esquerda e no apoio ao afecto de pacotilha, à solidariedade de paleio e à chupice europeísta. Preferia, e creio que seria melhor para o país, menos estabilidade porque a que temos não vai acabar bem. Quanto a este Barreto, nem sequer o percebo: existem estes males, aqueles e aqueloutros. Razões pelas quais devemos escolher quem sempre a eles presidiu alegremente. Cordiais cumprimentos, aprecio muito os seus comentários.
Muito obrigado. Será supérfluo dizer que aprecio os seus artigos e tenho alguma inveja do estilo.
Desejo-lhe um Santo Natal.
Preso no seu labirinto Socialista criador de mediocridade e pobreza que seria ainda mais generalizada sem a dívida gigante a tapar o desastre cultural e civilizacional, a solução para as eminências do regime é uma União Nacional Corporativa de facto . Fascismo por via Socialista portanto. Os jornalistas já lá chegaram primeiro… pensam quase todos os mesmo sobre tudo.
Até temos duas candidatas a Presidente a dizerem que não aceitam nomear o partido Chega caso este ganhe umas eleições legislativas violando assim a própria “Democrática” Constituição Socialista…a cobra já morde a própria cauda…
Falando de eleições presidenciais.
Para quem segue criteriosamente o caso das eleições presidenciais nos EUA do passado Novembro, é fácil concordar que houve óbvios casos de irregularidades que afectam o quem deverá ser o próximo Presidente dos EUA. Independentemente do detalhe e volume de essas infrações. Sendo que algumas provenientes de atabalhoada “legislação” eleitoral local…
Trump terá sido lesado nos seus direitos. Mas há ainda uma importante constatação assinalada conjuntamente pelo Texas e mais 16 outros Estados e que deveria ser forçosamente tomada em conta por quem de direito (quem?).
Trata-se do facto de estes 17 Estados -cuja importância em demografia e na economia do todo é significativa- provavelmente terem que vir a conviver durante 4 anos com uma presidência, o Executivo, de alguém que constatam ser discutivelmente o vencedor da eleição. Porquê?.
Na verdade uma vez que o Presidente é uma figura Federal, Presidente dos EUA, as normas eleitorais para esse cargo, e a correspondente fiscalização do acto eleitoral, deveria ser igual, comum, Federal, em todos os Estados dos EUA.
Imaginem a eleição presidencial em Portugal processada e validada com legislação ao gosto de cada um dos Municípios.
Curiosamente para a União Europeia cada País, também mal, escolhe à sua moda os seus representantes para o Parlamento Europeu. Não sendo eleição uninominal os felizes escolhidos são ralmente “escolhidos”, também não são os eleitos.
Muito bem, só não sei se VPV, que Deus tenha em bom lugar, fosse amigo de Barreto…
Também não estou absolutamente certo, apenas presumi porque tenho a certeza de que se conheciam.