Um manifesto político caseiro


eventhorizon,

O porta-voz do PAN (Pessoas-Animais-Natureza), André Silva, afirmou há um ou dois dias que “comer é um acto político” e, por isso, defende informação sobre as pegadas hídricas e carbónicas dos alimentos e o fim de apoios à produção de carne. 

Por este andar ainda trocamos, com benefícios evidentes, a ARTV pelo 24Kitchen: a Filipa Gomes sempre faz muito melhor figura na cozinha do que o deputado médio no parlamento. Mas já que, segundo o líder do PAN, comer é um acto político, então aqui deixo o humilde contributo cá de casa para esta campanha eleitoral:

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  • Carne de porco oriunda de uma pequena produção doméstica no concelho de Odemira, com porcos criados no campo e mortos de maneira tradicional (naquilo a que por lá designamos simplesmente como “morte de porco” ou “matança de porco”). A banha de porco na qual se fritou a carne tem a mesma origem, tal como a linguiça que picámos para as migas (não garanto que tenha sido do mesmo porco, mas não andou longe). 
  • O alho utilizado na confecção tanto das migas como da carne também é de produção doméstica lá da terra. Idem para o azeite e para o louro.
  • O pão veio da padaria de Sabóia (guardamos as sobras, já duras, para migas, açordas e sopas de pão).
  • A laranja foi comprada numa excelente mercearia tradicional na Estrada de Benfica.
  • Não me recordo que vinho acompanhou a refeição (já foi há alguns meses…), mas terá sido alentejano. Costuma ser. 
  • A ver se para a próxima, para além de arranjar uma foto melhor das migas, incluo também a aguardente de medronho (caseira) que bebi a seguir. 

Se o Sr. Silva encontrar uma refeição mais ecológica do que esta, pago-lhe uma bifana. Até pode ser de tofu, desde que eu não tenha de comer uma também. 

43 comentários em “Um manifesto político caseiro”

  1. João, Migas de Porco é um dos pratos da minha eleição. Mas só para o picar, comi, no fim de semana passado, carne cachena, acompanhada com vinho tinto de uva americana . À pois é, bebé…

    Mas, agora a sério, gostava de ser vegetariano. O problema é que adoro comer…carne…peixe, só do mar, da lota, que o do hipermercado é uma bodega.

    1. Julgo que carne cachena nunca comi. E provavelmente estarei a perder algo delicioso.

      Olhe, eu não gostaria de ser vegetariano – mesmo reconhecendo que devia comer mais verdura e com mais frequência (sempre fui esquisito com o verde). Nem acho que uma solução para os problemas ambientais passe por um vegetarianismo forçado. Enfim, não será pelo PAN que deixarei de apreciar estas migas.

      1. Não, João. Não defendo o vegetarianismo de um ponto de vista político, mas sim moral. Matar para viver sempre me pareceu uma barbaridade. Em certo sentido esse é um dos fundamentos que me leva a descrer na benevolência do criador. Fosse eu, ele, e julgo que faria um melhor trabalho.

        Mas se deus for de matemáticas entende – se, melhor, a sua indiferença pelas questões morais.

    2. Uva americana? Um Pinot do Oregon ou Cabernet de Napa? Chique a valer!
      Eu fico pelo nosso trincadeira ou aragonês…
      Brincadeirinha! Ehehehe

    3. Vinho de uva americana? Isso é de comercialização proibida pelas leis da União Europeia… Comprou na candonga ou era de produção doméstica?

        1. Mas você é açoriano? É, que eu saiba, só nos Açores é que é tradicional produzir e consumir vinho de casta americana (chamado “vinho de cheiro” ou “vinho morangueiro”). No Continente, que eu saiba, não há disso.

          1. Está muito enganado. Na zona norte até à beira da estrada as videiras crescem. Ninguém quer saber. Bela pinga, adocicado, sem se notar, no paladar, o teor alcoólico. Nota-se é no corpinho.

            Nos Açores havia um vinho licoroso chamado Arranhão…. Bebi há dias, na casa da neta do produtor, as réstias de uma das últimas garrafas .

          2. Tanta uva americana (ou morangueira, como chamam alguns) comi tirada das ramadas, às vezes às cavalitas para chegar aos cachos. Também do norte. Aquela de casca grossa que se atira ao chão para as galinhas comerem.
            Ele há infâncias felizes.

            Isabel

          3. É dessa mesma Isabel. Eu não sendo natural de cá, fazia o que via os outros fazer. Cospi também a casca, ou película, ou a pele, sei lá. E há duas variedades. Uma mais doce, e outra menos. E que há vinho tinto e branco de uva americana. Só sei que se bebem bem, e habituado, eu, ao maduro, é vinho perigoso. Trepa depressa, bebendo – se como refresco

          4. Está muito enganado, Luís. Já bebi vinho morangueiro feito pelo avô de um amigo na minha terra Natal, em Elvas (no Alentejo profundo, quem diria?).

  2. Brincadeiras à parte… Dêem voto a essa malta. Pode ser que tenham uma surpresa. Hoje o bife e a tourada, amanhã…

    Curioso que os Venturas são apelidados de extrema direita, mas os pans que querem impor um modo de vida são esquerda liberal.

  3. Caro João Campos, para perceber honestamente a sua mensagem neste poste até precisaria, por incapacidade minha, que me explicasse o que, no seu entender, significa um “acto político” e, a partir daí, porque raio, na sua opinião “comer”, até é – apenas! – um “acto político” na única e extraordinária opinião do «líder do PAN»!
    Até lá e quanto ao “resto”, até essencialmente (mas não na sua “relativação”) estou consigo… independentemente, de todas essas suas tímidas mas sublimares confissões do quanto V. até se quer parecer com a Greta Thunberg (no mínino possível!)… ou na descrição do seu «humilde contributo cá de casa para esta campanha eleitoral», tirando alguns pormenores a que teria de recuar à minha infância, para perceber porque não alinho neles: o que raio tem a ver a sua “receita” com o agora “bobo-da-festa” PAN?

      1. Posso por isso, pela sua resposta que me obriga a a «seguir o link», deduzir que até concorda com a opinião do «líder do PAN (de que) comer é um acto político»?

        1. Em última análise pode deduzir o que quiser. Mas fico algo perplexo pela aproximação que faz de um vegetariano que defende o fim do consumo de carne (o André Silva) e um tipo que, quando pode, cozinha – e come, claro – migas com carne de porco (eu).

          1. Ambos declaram que comer é um ato político. E descrevem o que comem para afirmarem opiniões políticas.
            Concordo com ambos quanto à afirmação.

          2. Não. Um declarou que o que comemos é um acto político. O outro fez uma chalaça a propósito dessa declaração. Costumavam ser coisas diferentes, mas a Internet em 2019 é demasiado literal e leva-se excessivamente a sério.

  4. Não têm culpa nenhuma, todo o doido proclama como verdade a sua doidice.
    Culpa tem quem lhes dá palco que mais insano é.

    Violeta Gina.

  5. Confesso que me aflige essa maneira tradicional de matar porcos. Escutei-a amiúde, fugindo a vê-la. É horrível. Não haverá forma de a tornar mais breve e evidentemente menos penosa para o animal? Aqui, como noutros casos, não me parece que tradição, só por o ser, seja inatacável.

    De resto, que sejam, sendo possível, do Douro. E carne ou peixe, Verão ou Inverno, preferencialmente brancos.

    Gostos, enfim.

    Costa

      1. é uma prática que tem os dias contados

        Pois. Até porque já vão faltando, nos meios rurais, suficientes homens jovens, que sejam vigorosos e ágeis para agarrar o porco e o manter quieto. Que eu me lembre daquilo a que assisti quando era criança, são precisos uns cinco homens para fazer o serviço.

    1. Apesar de onze anos de vida no campo nunca consegui assistir à matança do porco, que ouvia à distância nas casas dos vizinhos. Ficava aterrada. Explicaram-me em criança que a estridência dos guinchos do bicho se devia ao momento em que o carregam e atam em cima do ‘carro de bois’. A explicação nunca me sossegou; sempre achei que era tortura.

      De qualquer modo, gosto muito de rojões. E aquela carne acompanhada de migas dá-me água na boca.

      Isabel

      1. Há muitos anos que não vou a uma matança de porco, mas basta uma para não nos esquecermos. Não, não é agradável – por definição nunca o poderia ser. Mas tem um propósito – os rojões, os lombinhos, a orelha, as linguiças e as chouriças, os torresmos… Enfim, ali nada se desperdiça.

  6. Creio que o sr André Silva pouco teria a objetar, do seu ponto de vista político, a esta refeição. Com um porco alimentado das sobras da casa (efetivamente efetuando a reciclagem das ditas, transformando-as em carne e estrume), é perfeitamente ecológico.

    Infelizmente, porém, não é (nem pode ser) assim a imensa maior parte da carne que é consumida em Portugal.

  7. Excelente post, a divulgar o mais possível, de preferência junto dos amigo e do sr.André Silva !

    A.Vieira

  8. Acto político é permitir que um pobrezinho possa continuar a fumar um bom cigarro, mesmo de enrolar, e não tenha que andar a pagar impostos sobre o tabaco para pagar ordenados a deputados que não fazem nada de jeito.
    O imposto sobre o tabaco é um imposto criado por reaccionários colaboracionistas do regime bruxelista para permitir que só as elites possam aceder a este bem.
    Paralelamente, os gajos querem o haxe liberalizado para poderem dizer que os ganzados são verdadeiros progressistas ecológicos. Isto é um acto racista e anti-ecológico para com as plantas e uma perseguição aos pobrezinhos.

    Viva o tabaco! Votem ALIANÇA!

  9. Acho indecente o post, e sobretudo, a imagem. Fiquei a babar.

    Só nos últimos três dias percebi a razão para a urticária dos vegetarianos face à comida tradicional. Preocupada com a pegada – cada vez enterro mais fundo os pés na areia da praia – e o prejuízo que causo a terceiros – ao passar no supermercado produzo o efeito da promoção do 1º de Maio do Pingo Doce -, comecei a 32ª dieta do ano. E desta vez além de virar praticamente vegetariana reduzi substancialmente na dose. Ainda só passaram três dias e já reajo com atenção redobrada a fotografias de marisco, de paellas ou de sardinhas ou a estas deliciosas migas com carne de porco. É o primeiro sinal de alerta. Já estou a ressacar e certa que a falta de carne e peixe na dieta dentro de dias ou semanas vai produzir uma revolta tamanha que começarei a condenar todos quantos se atreverem a dizer que comem bichinhos e, quem sabe, a plantar-me a porta dos talhos de das peixarias com cartazes apropriados. Isto claro, antes de organizar uma brigada de vigias para analisarem os caixotes de lixos de casa dos suspeitos degustadores de animais. Chego à conclusão que o MST e o presidente da CAP têm alguma razão. Não sei se os PAN são urbano-depressivos ou do mundo da droga, mas lá que quem não come peixe e carne ressaca, ressaca.

    Em registo mais sério, num comentário vi alguém referir o que é mais importante nestas questões: a explosão demográfica é dramática. Há uns tempos um amigo, que trabalha na área da logística e distribuição em larga escala, propunha-me que imaginasse o mundo no dia em cada família chinesa comer um frango por semana. Como diz o outro, é fazer as contas
    .
    A dúvida é se será a natureza ou o homem a fazer o trabalho sujo.

    Isabel

    1. O seu amigo apresentou um ponto de vista muito pertinente, Isabel. E pode aplicar-se a tudo o que consumimos no Ocidente, e não apenas aos frangos.

      Não creio que a solução passe por nos tornarmos todos monges franciscanos, nem creio que passe por ideais políticos ultrapassados cuja concretização gerou desgraça humana e ambiental. Mas parece-me claro que existem inúmeras bizarrias no nosso modelo económico e social; e que provavelmente irá custar mais pensar nisso mais tarde do que mais cedo.

    2. “imaginasse o mundo no dia em cada família chinesa comer um frango por semana”

      Não vejo onde está o problema, a tecnologia e o engenho capitalista sempre resolveram essas “angustias”. No Séc. XIX a burguesia e a aristocracia provavelmente diziam o mesmo e deu-se a revolução industrial.

      Dou-lhe um exemplo ambientalista (tema da moda):Já pensou no espaço que seria necessário há 50 anos atrás para arquivar toda a informação da sua pen drive de 100 GB? E imagina quantas árvores poupa pelo uso da sua pen drive?

      1. É capaz de ser um pouco mais difícil e indesejável arquivar humanos ou simplesmente animais. Mas percebo o que diz e é verdade que o engenho humano e a sua capacidade de adaptação são prodigiosos.

        Por falar nisso, como estamos de investigação sobre a tal enzima que destrói plástico. Há muitos meses que não ouço falar nisso. Saiu da agenda?

        Isabel

  10. A alimentação tem diversas consequências. Terá uma delas em particular alguma conotação política? Acredito que sim e estou farto de tanta política libertada pelos protegidos pelo PAN por esses passeios. Falta um partido que defenda a calçada portuguesa de tal tormento?

    1. É mesmo. Com tiques absolutamente repressivos o PAN apresenta-nos um conjunto de regras proibitivas que, para os querem continuar a viver o seu dia-a-dia de uma forma tranquila, responsável e inofensiva, é absolutamente desumano e malvado.
      Não me inspira confiança. As suas intervenções apoiadas pelo seu programa eleitoral são timbre de fanatismo.

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