Um homem bom


José Meireles Graça,

Um homem bom, culto, educado, sensível, afável, inteligente – um Senhor, resumiu uma amiga minha que não suspeito de excessivas simpatias socialistas.

Outro que estimo, esse sim socialista toda a vida, mas da variedade rara que não é cega para os defeitos nem das pessoas, nem do seu partido, nem do regime, abundou num panegírico obviamente sentido.

Alguns amigos meus escorreitamente de direita mas com reflexos condicionados (são a maior parte, enquanto dos não amigos a quase totalidade) precipitaram-se a cascar no falecido porque era, e sempre agiu como, um homem de esquerda, esquecendo a convenção que manda não dizer mal dos mortos aquando do seu passamento.

As convenções não existem por acaso: esta que obriga à contenção garante-nos que quando chegar a nossa vez ninguém vai para o velório roer-nos na pele; e lembra aos crentes que todos são igualmente filhos de Deus, e aos não-crentes que todo o homem, por detestável que seja, tem um lado bom.

De modo que enquanto fui lendo e ouvindo o desparrame de elogios dei provas de louvável inacção, excepto no mural de uma outra amiga, em que não resisti (mas estou arrependido) a dizer: Sim, falava um inglês óptimo, vestia bem e toda a vida foi um socialista convencional, com as ideias convencionais da espécie que foram evoluindo sempre no sentido de se aceitar hoje o que se rejeitou ontem. Se a esperança média de vida estivesse nos 150 anos teria acabado por ser liberal, com a condição de o liberalismo ter entretanto ficado obsoleto.

A amiga referida acima desancou-me. E, sem a contestar, prometi que algum dia diria o que realmente penso do homem, desassombradamente. Será hoje.

Não ponho em dúvida que Jorge Sampaio fosse o ser humano admirável que os que o conheciam pessoalmente descrevem. E portanto a mim talvez me conviesse, numa existência paralela, para sogro, ou genro, ou amigo, ou conviva de jantar, assim como lhe poderia comprar um carro usado, pedir um favor com a certeza de, se estivesse na mão dele, mo conceder, ou fazer-lhe eu um favor a ele se mo pedisse e igualmente eu pudesse anuir, com a certeza de não abusar. Creio até que da sua experiência de vida seria possível retirar não digo utilidade mas satisfação da minha curiosidade, e iluminação de alguns passos dos sucessos abrileiros ou até da minha ignorância nesta ou naqueloutra matéria.

Mas o que era pessoalmente um político só tem interesse na medida em que ilumine passos de um percurso, não serve para aquilatar dos méritos ou deméritos das escolhas que fez e das decisões que tomou. Quando muito, poderá ser útil para acepilhar algumas rugosidades de interpretação, mas não mais (estes dois verbos, “aquilatar” e “acepilhar”, foram aqui metidos a martelo para agradar a uma outra amiga, dilecta, que os detesta pelo uso imoderado que deles fazem magistrados em sentenças pomposas).

Sucede que sobre Sampaio, no tempo em que o seu ponto de vista contava, fui expectorando algumas opiniões, à medida que o próprio ejaculava as dele.

Por exemplo, sobre a dissolução da AR, a pretexto da falta de gravitas e auctoritas do então primeiro-ministro, na realidade um expediente para alcandorar ao poder o seu partido, que era maioritário nas sondagens, chamava a atenção para o precedente criado; a propósito de uma entrevista em que o celebrado alinhavava umas banalidades contava aqui a história da sua famosa frase para a História: Há vida para além do défice!; e comentava um artigo no Público em que o preclaro confiava a sua aflição com o Brexit e se aliviava das suas cogitações sobre o futuro da União Europeia, do mundo, de Portugal e mais um par de botas

Concluía este último assim (eu, não ele): Temos que ver, temos que falar!

Que só não é um resumo da sua vida porque algumas vezes tomou decisões (corajosas, dizem os admiradores): quando se decidiu candidatar à liderança do PS, à Câmara de Lisboa e à presidência da Républica, ou quando aderiu ao PS após abandonar o MES e fundar outra irrelevância esquerdosa, a Intervenção Socialista. Decisões corajosas e iniciativas de um ominoso pioneirismo como a aliança com comunistas para obter o colar de presidente da Câmara, na qual se distinguiu por não ter feito absolutamente nada digno de registo.

E há muito mais? Não há, excepto acrescentar talvez que, parece, também tocava piano.

Suspeito que era, como músico, ainda mais medíocre do que como político. Isto se se achar, como eu acho, que não vale a pena ter muitas vitórias se elas forem sempre em desserviço do país.

8 comentários em “Um homem bom”

  1. Veremos quando morrerem certos estadistas, se a teoria do não falar mal também se aplica. Ou de falar do homem e não do político. Ou de como “episódios” não se podem sobrepôr à totalidade da obra.
    Correu com o Santana no timing certo, para que o PS se pudesse livrar de um Ferro que nem por poucochinho ganharia e colocar lá o animal feroz. Nada mau para quem “nunca se meteu em jogos políticos”.
    De Sampaio corriam também umas histórias, certamente falsas, de que os filhos arranjavam tachito aqui e ali, supostamente usando o apelido.
    Adiante, paz à sua alma, fez o que achou melhor e a vida continua

  2. Aquilatando-se melhor sobre o conteúdo desta posta e evitando-se o acepilhamento do que aparenta ficar mais ao lado do lado que (não) refere, é oportuno lembrar que da extrema-esquerda e até mesmo da esquerda transitaram para outras alas que não a espécie de alguma coisa que o Costa hoje submete, em particular as elefantas-brancas que quer promover para melhor controlar. Ele sabe que no quadro feminista um espelho e uma tela completam as ambições existências. Aliás, o espelho é o melhor presente para quem possui tais características; e a tela é a cereja no topo do bolo.

    Posto isto, Durão Barroso, um “transitador”, assinou a sentença de Santana pondo-lhe a tanga que não quis vestir; e lá foi tanguear para outros quadrantes.
    O texto se não for lido no contexto poderá parecer certo. Mas não é, e Sampaio agiu bem ainda que no contexto.

    Sampaio, para poder ser o homem grande que foi, fingiu ser político. Os políticos fingem ser grandes para continuar o que são. Eis a distinção.
    Paz à sua alma.

    1. O que Sampaio definiu é que um Governo de Direita que seja impopular seja tal real ou feito pelos jornais de esquerda pode ser derrubado pelo Presidente. O mesmo já não é válido para um Governo de Esquerda.
      A Democracia em Portugal acabou em 2005. Foi isso que Sampaio selou. . Não foi ele que o fez, quem o fez foram os jornalistas, mas ele pôs o selo no fim da Democracia.
      Mais ninguém poderá alguma vez governar sem ser à esquerda neste regime.

      1. Meu caro, Durão, com a debandada das responsabilidades que os eleitores lhe deram, ofereceu a oportunidade para Sampaio legitimar pela via do voto uma clarificação da situação. Isto é democracia.

  3. Jorge Sampaio não criou nenhum precedente com a dissolução da AR: idêntica coisa já tinha sido feita antes de Jorge Sampaio por Mário Soares.
    Em ambos os casos, o PR pressentiu, corretamente (como se viria a constatar nas eleições subsequentes), que a opinião popular já não estava corretamente representada na AR, pelo que era legítimo dissolvê-la.
    Recordo que, no tempo de Mário Soares, um governo minoritário de Cavaco Silva foi derrubado pela maioria da AR. Havia na AR uma potencial maioria para formar novo governo mediante aliança do PS com o PRD (o partido eanista de então), mas Mário Soares, que detestava o PRD, impediu tal possibilidade mediante a dissolução da AR.
    Ou seja, e esta é a minha mensagem, Jorge Sampaio não fez nada de novo, ele limitou-se a fazer o mesmo que Mário Soares já fizera antes dele.
    É pena que a direita, desonestamente, lembre a atitude de Jorge Sampaio, que retirou o poder à direita, mas esqueça a de Mário Soares, que concedeu o poder à direita.

    1. Por muito que a racionalização e, porque não, a civilização nos reprima, é muito difícil superar as consequências de experiências pessoais traumáticas.
      Em 1969, na mais célebre crise estudantil e que abalou o regime, o PCP controlava a universidade por intermédio de uma estrutura vertical típica, as RIA – Reuniões Inter-Associações. Claro que o secretário-geral das RIA era sempre comunista e era então Jorge Sampaio. Orador entusiástico foi ele quem – publicamente pelo menos -apelou à greve aos exames. Admito que era então mais ingénuo do que pensava, mas fiz mesmo greve aos exames e perdi o ano. Jorge Sampaio, não sei se tudo na primeira época de parte na segunda, passou o ano com classificações elevadas.
      Em 1967 na Guiné, formou-se em Farim o primeiro grupo de comandos africanos “Os Roncos” 18 homesn liderados pelo então furriel Marcelino da Mata. Ficaram administrativamente ligados à minha companhia que era a companhia operacional do sector. Como alferes mais antigo, alternava o comando no terreno com o capitão, pelo que muitas vezes dei apoio operacional a Marcelino. Talvez por isso, Marcelino tratava os outros alferes pelos nomes mas a mim por alferes comandante. Não direi amizade mas pelo menos ficou uma forte empatia (talvez por isso consigo imaginar os sentimentos dos militares americanos que viram intérpretes e auxilares ficarem para trás na retirada do Afeganistão).
      Em 1974, quando soube que Marcelino da Mata foi torturado no Ralis – até choques eléctricos nos testículos lhe aplicaram – fiquei revoltado. Fiquei por isso satisfeito quando se formou a “Comissão de averiguação de violências sobre presos sujeitos às autoridades militares” que concluíu o seu trabalho em meados de 1976 com um esclarecedor relatório.
      Mas logo começou a movimentação política para esvaziar o relatório, que Marcelo só há pouco desclassificou e, além de argumentos espúrios como não se dever responsabilizar pessoas que tinham exercidos cargos no pós-25 de Abril, outros aparentemente razoáveis, como o facto de não se terem julgado os Pides, que contudo seria corrigir um erro com outro. Determinante foi uma espécie de contra-relatório encomendado pelo Conselho da Revolução e assinado por vários como Gomes Canotilho, mas em que determinante e, salvo erro, primeiro signatário, era Jorge Sampaio e que, recomendava o arquivamento para não pôr em risco a jovem democracia portuguesa.
      Deus há de perdoar-lhe. Eu pensei que poderia manter o silêncio e muito resisti ao quase endeusamento a que assisti. Lamentavelmente o comentário de Balio foi para mim a gota de água.

    2. “É pena que a direita, desonestamente, lembre a atitude de Jorge Sampaio, que retirou o poder à direita, mas esqueça a de Mário Soares, que concedeu o poder à direita.”

      E temos a típica tactica desonesta do balio, encontra qualquer coisa que se equivale para fingir que o todo é representado por essa pequena parte.
      Não houve nenhum derrube de Governo na Assembleia no Governo Santana. O CDS e o PSD formavam Governo estável.

      “Em ambos os casos, o PR pressentiu, corretamente (como se viria a constatar nas eleições subsequentes), que a opinião popular já não estava corretamente representada na AR”

      E então? os Governos têm 4 anos para quê?
      A sua regra é derrubar Governos quando são impopulares? Ou seja, quer Populismo.

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