Um governo em ponto morto


Pedro Correia,

 

À falta de notícias, no final de um dos piores anos de que há memória em Portugal, o Governo fez um enorme espavento a propósito da inauguração de um novo troço ferroviário na vetusta e maltratada linha do Algarve que permitirá – diz a propaganda governamental – reduzir em dez minutos a ligação entre Lisboa e Faro. O acto envolveu convites a jornalistas, reportagens televisivas e a inevitável declaração do ministro das Obras Adiadas. Está em curso uma “reforma estrutural” na área dos transportes, proclamou António Mendonça, que procura roubar a Helena André o título de pior ministro do segundo governo Sócrates.

Tudo isto se passou no domingo. Bastaram 48 horas para se saber que a “reforma estrutural” a que aludia Mendonça afinal afocinhou nas imediações do Poceirão. Sem passar cavaco ao ministro que dizia uma coisa muito diferente em Lisboa, o Governo português informava os responsáveis da Comissão Europeia, em Bruxelas, que decidiu atrasar todas as linhas de TGV, incluindo a ligação de Lisboa a Madrid.
Nunca um comboio ‘rápido’ demorou tanto a sair da gare. Entretanto, na véspera de Mendonça se vangloriar do tal novo troçozito de linha férrea, os espanhóis inauguravam em grande estilo a nova ligação em alta velocidade entre Madrid e Valência, cidades que passam a estar a hora e meia de distância. Há crise lá e cá. Mas eles aceleram para sair dela enquanto nós continuamos em ponto morto.

12 comentários em “Um governo em ponto morto”

  1. Com este ministro nem vale a pena perder tempo, do governo penso, os sinais em volta indicam uma estratégia de melhorar a sua imagem e explorar ao exagero todos os aspectos em que sai beneficiado.Tenho dito, a Sócrates é sempre viável renascer das cinzas.
    Já agora. O aumento propagandeado de receitas nos últimos meses não terá a ver com o facto de outros, como eu, terem aproveitado antecipar compras antes que o IVA suba mais ainda?

    1. A Sócrates este ministro faz falta como o pão para a boca. A ministra André também faz imensa falta ao PM. Se fossem todos como o Luís Amado, Sócrates estava feito num molho de brócolos. Precisa, portanto, de se rodear de nulidades políticas para que de algum modo possa brilhar na Rua da Imprensa à Estrela.

  2. Mal posso crer neste post.

    Em geral, criticam o governo por este querer construir o TGV. Criticam, criticam, criticam. Hoje, de repente, viram o disco: criticam o governo por ter suspendido o TGV. E elogiam Espanha pelo brilhante investimento feito.

    1. “Criticam”, “viram o disco”? Mas que paleio é esse, ó Lavoura? Aqui cada um pensa pela sua cabeça. Faça lá o favor de reconduzir a frase ao singular. Porque aqui as opiniões têm nome próprio e não assinatura falsa, em regime de ‘franchising’, como noutros blogues que você frequenta. E já agora persista nessa defesa do governo que traiu todas as promessas feitas aos portugueses, inclusive em matéria de grandes empreendimentos, desde os remotos tempos do “irreversível” aeroporto da Ota: a dupla Sócrates & Mendonça certamente ficar-lhe-á muito grata.

  3. Caro Pedro Correia,

    Acho que raramente uma foto se revela tão adequada ao texto do post …comboio no meio da ponte.
    Confesso que não percebi se o Pedro é a favor ou contra o TGV.
    Eu defendo, mesmo contra o discurso que vem sendo proferido nos últimos e recentes anos.
    Nunca o isolamento foi motor de evolução e desenvolvimento, pelo que, para mim o “orgulhosamente sós” não nos fará sair da crise.
    Precisamos urgentemente de nos ligar, por TGV, à Europa.
    E precisamos muito mais do TGV do que dum eventual novo aeroporto de Lisboa, tanto mais que as low cost , os preços do petróleo e as questões de “segurança aérea” têm vindo a tornar a aviação comercial num verdadeiro inferno.

    1. Cara Anónima da Silva:

      Sou a favor da ligação de Portugal à linha europeia de alta velocidade. Por todos os motivos: também por questões ambientais e de segurança (permitirá reduzir os acidentes rodoviários). Julgo ser uma vergonha nacional o facto de os nossos vizinhos terem já hoje a maior rede europeia e a segunda maior do mundo, enquanto nós estamos como sabemos.
      Sou, por tudo isso, também frontalmente contra os sucessivos ziguezagues e as sucessivas aldrabices dos governos Sócrates nesta matéria. Em Agosto de 2009, confrontado com as críticas (descabidas, a meu ver) do PSD, Sócrates fazia um ar compungindo: como é possível quererem paralisar o País? Afinal ele não tem feito outra coisa, com a maior desfaçatez. Apanhou-se com os votos e nesta matéria, como em tantas outras, faz precisamente o contrário do que prometeu.

      1. Obrigada, pelo esclareciemnto.
        Creio que não se percebia (ou eu não percebi) a sua posição.
        TGV rapidíssimo e em força, JÁ!

  4. A ligação TGV Lisboa/Madrid, na minha opinião deve ser construida, não agora devido aos constrangimentos que todos conhecemos, mas logo que possivel, até porque os espanhois já estão a construir a parte deles, embora tambem a tenham atrasado.
    No entanto, tal como fez em relação ao finado aeroporto da OTA, tambem aqui o governo socialista escolheu a pior e mais cara solução para a travessia do Tejo.
    Este adiamento da construção da linha, deve servir tambem para alterar esta solução que para além de cara, é absurda.

    1. Meu caro Alexandre,

      Com os ziguezagues que propõe no seu comentário, nunca mais lá chegamos …
      Vamos é, rapidamente e em força, avançar com o traçado do TGV!
      Caso contrário, nunca mais!

      1. Meu caro Anonimo da Silva,

        Não é meu hábito ziguezaguear, mas às vezes vale mais ser prudente do que ir “rapidamente e em força” em direcção ao abismo.
        As minhas reticencias não são em relação ao traçado da linha, são em relação à nova ponte sobre o Tejo.

        1. Caro Alexandre,

          Sou Anónima (e não Anónimo) da Silva.
          Perdoe-me se, com tanto ziguezague, confundi as reticências do TGV com as da nova ponte sobre o Tejo…
          E deixe-me alertá-lo de que a prudência também mata. mas mais devagarinho…
          Bem-haja!

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