É o último habitante de uma aldeia perdida na serra algarvia. Tem 78 anos e recusa seguir o exemplo dos conterrâneos, que demandaram outras paragens, deixando-o só, entregue a pequenas actividades agrícolas e à criação de uns porcos – o mesmo que faziam os seus tetravós, muitos séculos atrás.
Não lhe fixei o nome, citado numa reportagem da SIC que me prendeu a atenção por ser uma imagem claríssima das assimetrias existentes neste Portugal “moderno” do século XXI, o dos casamentos homossexuais e das férias nas Caraíbas a preço de saldo, onde um certo modo de vida, em perene comunhão com a natureza, se apaga lentamente nas serras, nos vales, nas planícies, nas ilhas. Sob o biombo da “modernidade” subsiste um Portugal envelhecido, que não tem acesso aos círculos do poder, que quase não conta para as estatísticas nem incomoda os técnicos de sondagens. É um Portugal votado ao seu destino por quem não vota – não escolhe, não influi, não decide. Enquanto o desordenamento dominante empurra milhares e milhares de portugueses para as periferias das grandes cidades e para algumas dezenas de quilómetros na congestionada faixa litoral, há uma imensidão de território que continua a despovoar-se à medida que morrem os últimos velhos das últimas casas nas últimas aldeias onde há muito já se perdeu a esperança de que a política e os políticos possam mudar alguma coisa.
“Tenho a companhia dos meus gatos. E a televisão. Se não fosse ela, já tinha partido”, diz o eremita algarvio entrevistado pela SIC. A ambiguidade da expressão não nos permite perceber se este “partir” significa rumar à cidade ou morrer. Talvez signifique ambas as coisas: para muitos velhos desenraizados, que sempre viveram mergulhados nos cheiros, nos sons e nas cores da natureza, trocar a paisagem de sempre por um apartamento numa rua citadina congestionada de carros a buzinar é uma forma de antecipar a morte.
Este, ao contrário de tantos outros, resiste. E por isso é notícia no país “moderno” de José Sócrates – um país onde os velhos agricultores dispersos pelas serras que ainda não foram calcinadas estão totalmente fora de tom e fora de moda. O país do artifício, do vício maquilhado de virtude, das caixeirinhas transformadas em shop sellers, do crédito barato que se paga caro. O falso país moderno onde subsistem as cunhas e os calotes, realidades tão antigas. O falso país moderno que confina milhares de velhos a “lares” execráveis e condena os melhores jovens ao mesmo destino para que foi empurrada tanta gente da geração dos seus avós: o da emigração.
O país que aquele senhor algarvio só conhece de ver na televisão. Moderno só na aparência e nas “causas” da moda. Mas mais antigo não há.


A reportagem é interessante, mas gostei mais do teu texto. Além de humano, amplia a mensagem que as avestruzes de São Bento merecem.
Resta a satisfação maldosa que a sabedoria daquele velho também deve saber: de cada vez que as avestruzes da centralidade assobiam para o lado entra-lhes areia nas goelas.
Começo a embirrar com a palavra “modernidade”, por vê-la tão mal aplicada e tão desvirtuada cá na parvónia, compadre. É em nome da “modernidade pedagógica”, por exemplo, que o interior do país vai ficar ainda mais deserto, com o encerramento iminente de 900 escolas (todas no interior) que tenham menos de 21 alunos. Fecham-se escolas por não haver crianças. Mas como haverá crianças se faltarem escolas?
Magnífico texto, Pedro. A minha vénia, pela qualidade e pela oportunidade.
Obrigado, Ana. Andamos encadeados com as luzes da “modernidade” que nos impedem demasiadas vezes de olhar para o país profundo.
Texto excelente e de uma grande sensibilidade.
É pena que os portugueses, de um modo geral, fiquem completamente excitados quando ouvem a palavra modernidade. Quando a modernidade não contribui para que o Homem se torne melhor neste seu percurso pela História, então é melhor ser antigo. Há mais sabedoria nos Antigos que nos Modernos.
Agradeço as suas palavras e revejo-me em muito do que escreveu.
Magnífico retrato…
A modernidade aparente,
sob biombos tão esplendorosos,
esconde um mundo diferente
desses calotes indecorosos.
Neste país de finuras,
sonoras e reluzentes,
não restam mais que planuras
nas elites tão presentes.
Vivemos numa sociedade
de valores desencaminhados,
elevando a moralidade
de tantos ideais definhados.
Agradeço o comentário. Tanto a parte da prosa como a parte do verso.
Caro Pedro
A excelência do texto patenteia bem uma verdade indesmentível sobre a hipocrisia reinante neste país, quando o denominam de “moderno”.
Ser “moderno” em Portugal, nos dias de hoje, para muitos portugueses, é satisfazer-se a ver a televisão na casa do pais e o seu canal preferido. É não poder escolher o médico que se deseja. É não poder ingerir duas refeições. É não poder comprar um par de sapatos. É não poder pagar os medicamentos. É não poder ir à escola. É não poder ir ao cinema, ao concerto ou ao teatro. É não poder ter férias. É não poder pagar as dívidas. É não poder ir ao dentista. É não poder comprar um livro. É não poder ir ao futebol. É não poder oferecer uma flor no dia de aniversário da companheira.
É satisfazer-se quando um amigo oferece um jantar.
Deixaste-me sem palavras, João. O que é raro. Um abraço.
Um texto muito bom e oportuno, Pedro. O “Portugal moderno” resume-se ao litoral urbano, e fica a meio caminho no interior em época de eleições. A realidade das pessoas que por lá permanecem – seja por “teimosia”, por amor à terra ou por falta de alternativas – não aparece em nenhum powerpoint.
Pois não aparece em nenhum ‘powerpoint’, João. É quase como se não existisse. O poder político – e algum do poder mediático também, infelizmente – pensa o país como se Portugal fosse uma estreita faixa de 50km a partir do mar. Tudo o resto, a partir daí, é uma abstracção. Por isso no interior vão fechando escolas, centros de saúde, maternidades, quartéis, correios, tribunais. Temos um Presidente da República do interior, temos um primeiro-ministro que gosta de dizer que também é do interior, mas nem parece. Ou antes: só parece (só aparecem) nas campanhas eleitorais.
Excelente texto, Pedro. Parabéns.
Obrigado, Teresa.
Junto a minha voz às anteriores. O seu texto mostra a realidade que tantos esquecem, menosprezam, ignoram. Gostei de ler.
Obrigado pela sua referência.
Só quero dizer que gostei imenso deste artigo. Está muito belo pela sensibilidade com que é descrito este país que sempre quis andar na moda dos outros sem nunca a alcançar e tendo tanto para se encontrar, desperdiça, desperdiça sempre. De facto, “País mais antigo não há”. Gostava de ter escrito este texto, como não fui eu, dou os parabéns a quem o escreveu.
Helena Soares
Obrigado, Helena. Espero que sinta vontade de aparecer por aqui mais vezes.
Pedro um bom texto com um magnifico enquadramento de foto. Ler o texto e visualizar simultaneamente o homem sentado, na imensidão faz ecoar as palavras com mais força…
Mesmo este fim de semana comprovei isso, numa aldeia perdida no mapa alentejano, não existe só um homem, em, seis meses, a diferença pela negativa é enorme.
Uns partiram para aqueles lados que todos desconhecemos, para lá da vida, outros, para lares…a praça onde se sentavam enquanto o Sol se perdia no horizonte, ficou só com os bancos corridos de madeira velha e as suas sombras desapareceram, para não mais voltar…é mesmo muito triste Pedro, parece as marcas das nascentes, por onde a água já não passa…e logo agora que a água do Alqueva chegou…todos os velhos já partiram, tanta conversa que preencheria as noites e se perdeu na bacia redonda que espelha a Lua.
Há, de facto, um país que vai acabando perante a indiferença de quase todos nós, CR. Isso é muito triste. E lamentável.