Um eleitor, um voto, três tipos de urna e um funeral


Rui Rocha,

Boicotes? Distúrbios? Escasso interesse nos actos eleitorais? Pouco entusiasmo? Fraca participação? Talvez seja verdade no decrépito Ocidente. Mas nada disso ocorre na Coreia do Norte. Veja-se o que se está a passar nas eleições parlamentares que decorrem neste Domingo. De acordo com fontes fidedignas, os eleitores votaram cantando e dançando. E com total transparência, posto que não há cabinas individuais de voto. A meio do dia, já tinham votado 91% dos norte-coreanos. Nada que espante muito tendo em conta os dados de participação nas anteriores eleições: 99,98%. Nem mais, nem menos. E este ano a coisa promete correr tão bem ou melhor. Note-se que este entusiasmo não surge do nada. Durante várias semanas, os órgãos de comunicação estimulam a participação com poemas de forte carga motivadora e com títulos tão sugestivos como “Torrentes de Emoção e Felicidade”. Perante isto, não admira que os eleitores corram a desaguar nas mesas de voto. A nossa Comissão Nacional de Eleições tem aqui amplo campo de aprendizagem. Por outro lado, tudo está feito para facilitar a vida aos eleitores. Sabe-se como o excesso de escolha pode ser perturbador. Por isso, os norte-coreanos são muito beneficiados com um sistema simplificado em que podem votar num único candidato. Significa isto que não podem manifestar descontentamento com o candidato único apresentado? Antes de mais, é preciso esclarecer que isso é muito pouco frequente pois a escolha é muito criteriosa. Mas se por mero absurdo houver um candidato menos adequado, há obviamente solução. Aliás, se tivermos em conta o que se escreve no Economist, poderíamos descrever o curioso sistema norte-coreano com a expressiva frase “uma pessoa, um voto, três tipos de urna e um funeral”. De facto, os que votam no candidato proposto pelo regime têm direito a colocar o seu voto numa urna própria. Os pouquíssimos que não apoiam esse candidato, votam numa segunda urna. E os que o fazem ganham de imediato direito a ingressar numa terceira urna. E a um funeral. Percebe-se assim o entusiasmo com que as delegações da Coreia do Norte são sempre recebidas na Festa do Avante. Percebe-se menos, atendendo à profícua troca de experiências que certamente ocorre na Atalaia, que Bernardino Soares tivesse dúvidas sobre a natureza democrática do regime norte-coreano. 

6 comentários em “Um eleitor, um voto, três tipos de urna e um funeral”

  1. Com tantas lições,tanto intercâmbio,Jerónimo poucos votos tem…parece que lhe preferem a tróica,seguros coelhos,portas travessas ou,vejam lá,pactos de agressão.

  2. Como já qui tenho comentado, não encontro muitas vezes outro motivo para ir votar senão POR A CRUZ NUM QUADRADO QUALQUER MENOS O DOS AMIGOS PORTUGAS DESSAS AMPLAS LIBERDADES. Este motivo tem a grande vantagem de ser imensamente mobilizador.

  3. Uns defendem a “democracia” da Coreia do Norte, outros defendem que o que se está a passar na Ucrânia é a defesa da “democracia” com neonazis á mistura, outros aceitam que o governo ” democrata” da Hungria possa fazer parte da União Europeia.

    A única conclusão, é que estão todos bem uns para os outros.

  4. À parte o facto do país se dizer comunista e de ser extremamente folclórico, não vejo porque hão-se as eleições dos norte coreanos, merecer mais publicidade e repúdio do que as eleições de alguns membros, e futuros membros da CPLP.

  5. O líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, foi eleito, por unanimidade, como deputado na Assembleia Popular Suprema (parlamento) nas eleições legislativas de ontem, informou a KCNA.

    “Todos os eleitores da circunscrição participaram na votação e 100% votou a favor de Kim Jong-un”, indica um despacho da agência estatal. O líder norte-coreano apresentava-se como candidato ao distrito eleitoral 110 do monte Paektu, situado no norte do país, junto à fronteira com a China, considerado pelo regime um “lugar sagrado”, onde supostamente nasceu o seu pai, Kim Jong-il, falecido em dezembro de 2011.

    (Diário de Notícias)

  6. “Percebe-se menos, atendendo à profícua troca de experiências que certamente ocorre na Atalaia, que Bernardino Soares tivesse dúvidas sobre a natureza democrática do regime norte-coreano. “

    Percebe-se menos?!

    Não está de acordo com a definição de Democracia sempre defendida pelo PCP?
    O PCP sempre defendeu a Democracia da URSS, na Republica DEMOCRÁTICA Alemã, da Roménia de Ceausescu, da Democracia em Cuba Castrista etc etc…

    Estes textos parecem ter um bizarro desconhecimento sobre o Comunismo e o que o Comunismo diz que é a “Democracia”.

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